domingo, 2 de novembro de 2014

Sebastião Panzo, o pioneiro: A vez dos oradores motivacionais

ISAQUIEL CORI





 Pouco mais de meia centena de pessoas, homens e mulheres, juntaram-se na sala confortável de um hotel de luxo da capital, Luanda, bem junto ao mar. A meia luz, de pé, Sebastião Panzo, o palestrante,  comentava os slides projectados sobre um quadro reluzente. “Somos muito faladores de sonhos e pouco escritores desses sonhos”, disse, a dado momento.
Os presentes foram atraídos por anúncios colocados nas redes sociais da Internet, que alertavam para uma prelecção sobre “Como tornar inevitável o seu sucesso agora!”.
“O que se interpõe entre a realização dos nossos sonhos e a sua concretização são os nossos hábitos ou paradigmas e a superação das nossas crenças”, foi dizendo o prelector, ilustrando as suas afirmações com exemplos da vida quotidiana, muito familiares a cada um dos ouvintes.
Em vários momentos estes foram interpelados e convidados a dizer das suas experiências pessoais em matéria de auto-organização tendo em conta o alcance das metas de sucesso pessoal. As palavras foram sendo intercaladas com a actuação de Kess Keven, um jovem e promissor cantor. Com o decorrer do tempo estabeleceu-se na sala um ambiente de reavivamento espiritual que infundia autoconfiança nas pessoas.
Em síntese, Sebastião Panzo defendeu que o sucesso na vida está ao alcance de todos, bastando para tal traçar metas concretas de curto, médio e longo prazos, mudar crenças e hábitos (rotinas) e jamais perder o foco nas metas. Mais do que das circunstâncias exteriores, o sucesso depende de nós mesmos, a partir do momento em que “tocamos o âmago do nosso potencial através da elevação das crenças (que podemos escolher) sobre nós mesmos”. Ademais, “é preciso que as pessoas se dêem conta que não estão por aqui, na vida, à deriva e que o seu futuro está nas suas mãos”.
Para Panzo, é preciso que não nos acomodemos com o que somos ou o que fomos. “A verdade é que somos seres espirituais com potencial infinito de realização”, afirmou. “Se somos um peixe maior que o tanque em que fomos criados, ao invés de nos adaptarmos a ele, devíamos buscar o Oceano”, acrescenta, citando o escritor brasileiro Paulo Coelho.

Nova tendência

A palestra de Sebastião Panzo insere-se num movimento nascente em Luanda, de oradores motivacionais, que buscam inspirar as pessoas a racionalizar os seus problemas e a arranjar formas de os ultrapassar e atingir o sucesso com base, sobretudo, na mobilização das forças interiores. A sua abordagem vai ao encontro dos apelos institucionais ao empreendedorismo e resulta da constatação empírica de que existe uma tendência exagerada dos cidadãos angolanos olharem para o Estado com vista a satisfação das suas necessidades. Essa tendência tem raízes históricas no Estado de cariz socialista que, desde a independência até ao princípio da década de 1990, intentava providenciar tudo, inclusive a felicidade, aos cidadãos.
Esse movimento nascente de oradores motivacionais tem a particularidade de, apesar do seu discurso apelar à fé e à natureza espiritual do ser humano, não possuir uma matriz religiosa: o sucesso deve ser alcançado agora, aqui, neste mundo profano, ao longo da curta vida humana.
Ora, se tal movimento é novo em Angola, ele há muito finca pé e é mesmo característico do capitalismo liberal, em que os indivíduos, fundamentalmente, estão entregues a si mesmos. Existe uma vasta literatura, comumente designada de auto-ajuda, que junta preceitos da psicologia, filosofia e até religiosos e  esotéricos, e do senso comum, e procura potenciar a auto-estima das pessoas e levá-las à auto-realização pessoal, isto é, ao sucesso profissional, amoroso ou no quadro mais amplo das relações interpessoais. Os títulos avultam, mas citamos aqui alguns: “Pai rico, pai pobre”, de Robert Kiyosaki e Sharon L. Lechter;  “A lei do triunfo”, Napoleon Hill; “Os segredos da mente milionária”; de T. Harv Eker; “Porquê que as pessoas felizes são felizes”, de Lauro Trevisan; “Falando em Público”, de Vilson Santos, e por aí, quase infinitamente…

Uma necessidade existente

O interesse e o entusiasmo das pessoas pela palestra de Sebastião Panzo mostra que existe um mercado para os oradores motivacionais. Sim, mercado: a audição das palestras é paga.  Pelo que este blogue soube, está em curso o processo de criação de uma rede de oradores motivacionais, o embrião de uma associação sócio-profissional, com vista precisamente ao preenchimento de um vazio existencial crescente: com o capitalismo de rédea solta, diríamos mesmo selvagem, que medra em Angola, as pessoas sentem-se cada vez mais sós e inseguras, com as suas vozes interiores abafadas ou inaudíveis. As igrejas são um consolo, mas elas querem uma mensagem mais pragmática que as capacite para a vida do dia-a-dia.
A rede de oradores, acreditamos, através da promoção de cursos de oratória, será igualmente um estímulo para o (re)surgimento da figura dos homens públicos dotados de um gosto muito especial pela fala, pela oratória como arte.  

Apelo e convicção

Um dos factores que tornam apelativo e convincente o discurso motivacional, ou de auto-ajuda, são as grandes ou pequenas histórias de sucesso verificáveis na História, na comunicação social ou no quotidiano envolvente. De líderes políticos, militares ou empresariais a desportistas, cantores, escritores, vendedores e outros, o sucesso pode ser fartamente exemplificado com rostos e nomes. Um desses nomes é precisamente o de Sebastião Panzo.
Nascido na pequena aldeia de Posse, em Nambuangongo, província do Bengo, Panzo foi arrastado a Luanda pelo recrudescer da guerra civil. Aqui, para suportar os estudos, começou por trabalhar como cobrador de táxi. Cursou jornalismo, vindo depois a exercer essa profissão no Zimbabwe e nos Estados Unidos da América. Estudou marketing, o que o capacitou a liderar a área de Marketing do grupo ENDIAMA. Passando para a actividade empresarial privada fundou empresas de consultoria nos domínios da comunicação social, marketing, empreendedorismo e coaching. Já foi chamado a dar palestras nos Estados Unidos, Índia, Austrália, China, Canadá, Bélgica, Alemanha, França e África do Sul.
Escreveu os livros: “Visões do além – Narrações e vivências para ler sentado”; “Como escrever diferente? Dicas para se virar como jornalista”; e “Empreendedorismo em Angola – entre as ideias e a acção”.