quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

LUANDA À CONTRALUZ: ECOS E RESSONÂNCIAS DA BAIXA ANTIGA



Este texto, até aqui inédito, foi escrito em 24 de Junho de 2014. A Baixa de Luanda ainda era um local fervilhante com uma fauna humana cosmopolita, sem sinais visíveis da crise económica que estamos com ela e que, literalmente, afugentou jovens expatriados que tinham na cabeça a ideia de um el dorado angolano e, mais concretamente, luandense. Em todo o caso, de lá para cá a paisagem urbanística permanece a mesma, apesar da adição, quase imperceptível, de uma ou outra torre vidrada e espelhada.


Isaquiel Cori



Quem, como eu, gosta de deambular pela cidade a apreciar a fauna humana que nela pulula, depara-se, às vezes de modo imprevisto, com mil e uma cenas ora caricatas, ora dramáticas, ora até mesmo trágicas. A dinâmica urbana luandense oferece, aos mais atentos, que não se deixam mergulhar inteiramente na urgência do seu quotidiano, momentos de autêntica revelação.

Há dias fui caminhando pelo perímetro da sede da Sonangol, a Lello, a Mutamba e a sede do Banco de Poupança e Crédito, à hora do almoço, e um sentimento de nostalgia me foi invadindo, a noção que eu tinha do tempo recuou para o passado e lembrei-me de quando, muito mais moço, vinha à Mutamba para tirar fotos tipo-passe, fotocópias de documentos pessoais ou até mesmo, simplesmente, apreciar as montras.

Naquela altura a viagem, a partir do meu musseque, era feita a pé ou pendurado num dos autocarros sempre, sempre atulhados de passageiros. Ainda não estávamos tão "evoluídos": semânticamente, muitos de nós ainda referiam-se àqueles meios automotivos como "maximbombos", sinal de que estávamos mais próximos, culturalmente, das nossas origens rurais, longe da "contaminação" posterior da linguagem que nos entra casa a dentro pela televisão.

Ir à Baixa, para nós da periferia, era um acto de suma importância, que levava a um ritual de preparação higiénica, o uso de roupas lavadas e engomadas e calçados bem engraxados. A Baixa era então encarada como um lugar onde viviam ou frequentavam as pessoas mais "civilizadas" e tínhamos de nos parecer com elas. Andávamos pelas ruas do centro da cidade com o maior cuidado, pois podíamos ser atropelados pelos carros que circulavam velozes na via praticamente sem engarrafamentos. Havia bichas para tudo: para tirar fotos na Foto Ventura, para beber finos na Biker, para comer arroz com peixe frito no Pingão e, ai, ai, ai, para apanhar o autocarro de regresso a casa.

Hoje a Baixa está completamente mudada. Os edifícios são tão altos que é impossível enxergá-los de baixo ao alto: os novos prédios são outros habitantes da cidade, quais dinossauros espelhados e petrificados, apanhados na vertigem de um fugaz e insanável cataclismo.

A fauna humana também está mudada. À hora do almoço, além dos vendedores ambulantes, os rapazes que indicam lugares para estacionar e das zungueiras que se sentam à sombra com as suas mercadorias, vejo jovens vestidos a rigor - fato e gravata - a andarem em grupos em direcção aos locais onde almoçam. São funcionários das grandes empresas da Baixa, com ar nitidamente próspero e seguros de si mesmos. A esses angolanos juntam-se grupos de expatriados europeus, maioritariamente portugueses. É muito raro ver uma criança abaixo dos cinco anos no centro da cidade, sinal de que a maioria das famílias passou a viver nas zonas da periferia. Velhos, muito menos, sumiram completamente. A cidade está tomada por jovens, uns desvalidos da sorte, outros nas asas da prosperidade. Maior contraste não poderia haver.

Deambulando por aí, na Baixa luandense, entretanto, ainda é possível visionar locais em que o ontem e o hoje se encontram e convivem um ao lado do outro, ou, até mesmo, misturados. É o caso da zona dos Correios de Angola, em que o velho edifício público reabilitado mantém perfeitamente a forma antiga. E olhando para a Baía vêem-nos à lembrança canções antigas que falam de uma Luanda com ecos festivos a prolongarem-se pela noite e Ilha adentro, e ressonâncias de velhas e saudosas alegrias a confrontarem o tempo, a morte e a própria vida.