segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

UM PASSEIO PELA BAIXA

Isaquiel Cori
                                                            

Quem como eu gosta de deambular por aí incógnito pela cidade, a apreciar a paisagem urbana e a fauna humana, depara-se com mil e uma cenas ora caricatas, ora dramáticas, ora até mesmo trágicas.
A dinâmica urbana luandense oferece, aos mais atentos, que não se deixam mergulhar inteiramente na urgência do quotidiano, momentos de autêntica revelação. Há dias fui caminhando pelo perímetro da sede da Sonangol, o Monumento ao Soldado Desconhecido, o Museu da Moeda, o Hotel Globo, a sede do Governo Provincial e a Mutamba, à hora do almoço, num desses dias de sol fraco, a cheirar chuva, e um sentimento de nostalgia me foi invadindo, a noção que tinha do tempo recuou para muitos anos atrás e lembrei-me de quando, muito mais moço, vinha à Mutamba.
Naquela altura a viagem a partir do meu Kassequel do Lourenço era feita a pé ou ensanduichado no autocarro “25”, que ia sempre, mas sempre mesmo, atulhado de passageiros. Não éramos tão "evoluídos" semanticamente: muitos de nós referiam-se àqueles meios automotivos como "maximbombos", sinal de que ainda estávamos muito próximos culturalmente das nossas origens rurais.
Ir à Baixa, para nós da periferia, era um acto de suma importância que levava a um ritual de preparação higiênica, ao uso de roupas lavadas e engomadas e de calçados bem limpos e engraxados. Andávamos pelo centro da cidade com o maior cuidado, para evitar ser atropelados pelos carros nas vias praticamente sem engarrafamentos.
Tudo convergia para a Baixa. A Mutamba era o núcleo duro de Luanda, a zona mais sofisticada e cosmopolita, o farol de Angola. Para tirar fotos tipo passe, fotocopiar documentos, tratar o Registo Criminal, frequentar um curso básico, procurar emprego… para quase tudo o que a burocracia exigia, ir à Baixa era como a morte: o dia de fazer a viagem para lá chegava sempre, mais cedo ou mais tarde.
Hoje o estatuto urbano, administrativo, burocrático e político da Baixa mudou substancialmente. Outras centralidades diluíram a sua importância mas continua a ser um destino obrigatório diário para milhares de citadinos. Basta referir como prova, dia sim e dia não, ou dia sim e dia sim, os engarrafamentos matinais e vespertinos.
Empresas e fortes grupos de interesse imobiliário fizeram erguer, com vista para a baía, sufocando ou destruindo edificações antigas com muita história e estórias para contar às novas gerações, prédios desenhados em série num atelier qualquer de arquitectura deste planeta global, sem a mínima absorção da visão de mundo local.
De facto, a Baixa está completamente mudada. Os edifícios são tão altos que chega a ser impossível enxergá-los de baixo ao alto: os novos prédios são “outros” habitantes da cidade, quais dinossauros espelhados e petrificados apanhados na vertigem de um fugaz e insanável cataclismo.
A fauna humana também está mudada. À hora do almoço, além dos vendedores ambulantes, os rapazes que indicam lugares para estacionar, as zungueiras que se sentam à sombra dos prédios com as suas mercadorias e das kínguilas disfarçadas de vendedoras de cartões de saldo de telefone, vejo jovens vestidos a rigor - fato e gravata - a andarem em grupos em direcção aos locais onde almoçam. São funcionários de grandes empresas, com ar nitidamente próspero e seguros de si mesmos.
É muito raro ver crianças abaixo dos cinco anos no centro da cidade, sinal de que a maioria das famílias passou a viver nas zonas da periferia. Velhos, muito menos, sumiram completamente: o centro da cidade está tomado por jovens, uns desvalidos da sorte, outros nas asas da aparente prosperidade. Maior contraste não poderia haver.
Deambulando por aí, na Baixa luandense, entretanto, ainda é possível visionar locais em que o ontem e o hoje se encontram e convivem pacificamente um ao lado do outro, ou até mesmo misturados. É o caso da zona dos Correios, em que o velho edifício público reabilitado mantém perfeitamente a forma antiga ao lado de prédios novos, modernos.
Daí, cidadão incógnito entre o prédio da Marinha, também reabilitado, e o Monumento ao Soldado Desconhecido, olhando para a baía, vêem-nos à lembrança canções antigas que falam de uma Luanda com ecos festivos a prolongarem-se pela noite e Ilha adentro, e ressonâncias de velhas e saudosas alegrias no caminho da praia a confrontarem o tempo, a morte e a própria vida.


LUIS VISCONDE OU QUANDO A MÚSICA FAZ SONHAR


Isaquiel Cori

Nessa de tirar proveito das adversidades, transformar o negativo em positivo, na esteira das teorias motivacionais - ou de auto-ajuda - de que o país já conta com alguns palestrantes de monta, estava eu no engarrafamento de Luanda debaixo de chuva e pus-me a escutar um CD de música angolana antiga. Cismei imediatamente com “Chauffeur de praça”, de Luís Visconde. Passei então toda a viagem a escutar repetidamente essa música.
O resultado foi ficar completamente imerso na canção, cuja letra, simples como tudo o que é bom, fala de um jovem que tinha pressa de ver a amada que vivia num “subúrbio” de Luanda. A canção põe-o a mandar parar um táxi, todo ansioso, como aliás qualquer apaixonado estaria. O chauffeur, hoje chamamos motorista, reclamou quando soube que o destino era o “subúrbio”. E não era para menos. Já naquele tempo Luanda quando chovia era um desastre. O subúrbio, aqui tiro as aspas para o chamar musseque, depois de uma carga de água ficava atravessado por riachos que depois formavam lagoas nas vias de acesso. O trânsito automóvel (que não se compara com o de hoje) era penoso, só os mais corajosos se atreviam a meter lá o seu carro. Os taxistas fugiam. Os moradores saíam à rua com botas impermeáveis de borracha e procuravam com todo o cuidado pedaços de solo duro onde pisar. “Tempo chuvoso no subúrbio não vou / Pois sou chauffeur de praça e não barqueiro”.
O refrão  “Se você quer ver seu amor, atravesse a lagoa a pé! / Não vou partir meu popó / só porque você quer dar show!” é muito elucidativo, mas também levanta várias interrogações. Ao que pude apurar, a música foi editada em disco em 1968. A letra é de Chabanu. Grosso modo, podemos então presumir que a cena narrada e cantada aconteceu, real ou imaginariamente, na Luanda daquela época. Como é sabido, então os taxistas eram os “colonos”, que tinham o monopólio do exercício dessa pofissão. O da canção o era, como fica bem claro na forma como o cantor o interpreta a falar. O jovem apaixonado vivia obviamente no centro da cidade e namorava com uma jovem do musseque. Eram de condições sociais diferentes.
Não tenho idade para saber de ciência própria dos pormenores vivenciais daquele ano. Em 1968 eu estava a engatinhar e ainda chorava e reclamava, com toda a soberania, pelo colo da minha mãe. Mas estando aqui no espaço de uma crónica, nada nos impede de imaginar tudo o resto. A canção diz que o jovem lá conseguiu convencer o taxista a ir musseque adentro, contra lagoas e riachos, ao encontro da amada. (“Então chauffeur, dominado por mim / Na borracha puxou atravessando lagoa). Mas quem era aquela moça, tão bem e intensamente amada? Como se chamava? Morava em que subúrbio? O que fazia na vida? Como o jovem citadino a conhecera?
A letra de Chabanu tem todos os condimentos para incendiar as mentes mais curiosas e imaginativas. A moça chamava-se Josina. Era uma negra de pele e cabelos escuríssimos, olhos castanhos. Conheceu o jovem da música quando ia às aulas de dactilografia, na Baixa. Começaram a namorar há pouco menos de dois meses, depois de quase seis meses de convencimento por parte do jovem.
Assim que saltou do táxi, vencido o obstáculo maior que era a lagoa, o jovem enfiou-se numa rua que poucos passos depois se converteu em vários becos. A chuva parara de manhã mas ainda caíam uns pingos. (A canção não diz nada a respeito, pelo que vamos considerar que o subúrbio/musseque era o Rangel).
Josina, que estava com as irmãs a retirar a água do quintal para a ruela, ficou completamente surpreendida e até mesmo envergonhada quando viu o jovem (aqui, para o efeito, Alencar). E não era para menos. Estava descalça, o cabelo todo destrançado e despenteado. Quis ir a correr para dentro mas não conseguiu, não deu mais tempo.
- Ó amor, estou aqui, sou eu – disse Alencar.
- Ei, pôssas, apareces assim, não te esperava, com a chuva toda que caiu.
-  Nem me apercebi que choveu. Enchias o meu coração, os meus olhos e a minha cabeça. Tinha de te procurar.
Josina não sabia o que fazer. Não podia mandar Alencar entrar e também não podia continuar a conversar com ele aí, à porta. O pai chegaria a qualquer momento.
A crónica termina com Josina nesse imbróglio.


CONHECER MOÇAMBIQUE (Concl.)

Isaquiel Cori


Tal como Angola lá pela TPA e a ZAP News, Moçambique entra-nos em casa pela STV Notícias. Descobri esse canal por indicação de um amigo e desde então são raros os dias sem que para lá vá, nem que seja de passagem.
O telejornal dessa televisão é uma janela aberta para Moçambique e cativa sobretudo pela postura editorial que privilegia o jornalismo e traz para o telespectador a visão de uma sociedade vibrante nas suas contradições, conflitos e realizações. Nos tempos em que os espaços noticiosos da televisão angolana, não foi há muito, eram veículo privilegiado de propagação da imagem de uma Angola sonhada por uns poucos e que se pretendia impingir como realidade a todos, a STV Notícias era um dos lugares de “exílio” para muitos angolanos ciosos de manter a sanidade mental. Há um exemplo recente que demonstra que não é exagero, aqui, a expressão “muitos angolanos”. Aquando das últimas eleições em Angola, aquela televisão moçambicana promoveu um debate sobre as mesmas, tendo como intervenientes o seu naipe de comentaristas residentes. Aquele programa, sobretudo no contexto comunicacional que se vivia em Angola, foi uma aula de análise lúcida, equilibrada e objectiva. Era mais do que claro que aí havia, independentemente de se concordar ou não com determinado ponto de vista, verdade e honestidade intelectual. E, espanto dos espantos, a maioria, senão mesmo todos os telefonemas de telespectadores eram provenientes de Angola!
Alguns processos e fenómenos políticos, sociais, culturais e até económicos, historicamente, nos dois países, são de um tal paralelismo e quase miméticos, que a inexistência de estudos comparados só se torna compreensível por dois motivos: ou porque as elites de ambos países sempre puseram a tónica da realização das suas aspirações existenciais no exterior, com destaque para a antiga metrópole colonial, ou porque a academia, tanto num lado como no outro, anda desligada do mundo em redor e da necessidade de o transformar.
Uma das minhas leituras predilectas são as antologias literárias do conto. Sobretudo as que dão uma visão panorâmica, histórica ou temática, sobre determinado país, assunto ou seja o que for. Das que tenho sempre à mão o destaque vai para “As mãos dos pretos” (Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2002), antologia panorâmica do conto moçambicano organizada e prefaciada por Neslon Saúte, uma das figuras cimeiras do jornalismo e da literatura daquele país. Alguém um dia vai ter de estudar e explicar porquê que tanto em Angola como em Moçambique a década de 1980 foi a do eclodir dos movimentos literários, do aparecimento de novos talentos, que se viriam a impor para sempre, e da renovação da própria literatura. A antologia em referência põe a nu o mito de que Moçambique é tão somente um país de poetas: também é um país de prosadores, como diria o outro, da “mais fina extracção”. Desde o alquimista da linguagem Mia Couto, passando pelo eterno memorialista da infância Luís Bernardo Honwana, pelo mestre fabulador Ungulani Ba Ka Khosa, o olhar e a delicadeza de Paulina Chiziane, Calane da Silva, Pedro Chissano, Luís Carlos Patraquim, Rui Knopfli, até a revelação que é Orlando Muhlanga (falecido prematuramente em 1996, aos 33 anos) a alma moçambicana se compraz, ri, chora, pulsa, vive. É muito raro uma literatura dizer tanto acerca de um povo, de um país. Nos dramas e nas tragédias vivenciados por heróis individuais, tanto em situações prosaicas de amor e paixão como nas situações limite da guerra, ou as duas coisas, nota-se claramente que se trata da fixação, da escrita de uma memória colectiva.
Próximos pela língua, relativamente próximos territorialmente, muito próximos por determinados usos e costumes, Angola e Moçambique precisam de ter mais trocas institucionais, pessoais, comerciais, turísticas, culturais. Enfim, precisamos olhar mais para a realidade um do outro.

  
  

CONHECER MOÇAMBIQUE (1)

Isaquiel Cori

Angola e Moçambique, um debruçado sobre o Oceano Atlântico o outro sobre o Índico,   são países com percursos históricos, políticos e culturais muito semelhantes. E é estranho que actualmente as elites de ambos países, tão parecidas nas suas origens, constituição e modos de actuação, pareçam ignorar-se mutuamente.
Mesmo sabendo que em História os “se” não existem, é importante lembrar que os dois territórios estiveram, ao menos nas congeminações coloniais portuguesas, muito perto de se tornarem numa entidade única. Isso ocorreu na segunda metade do século XIX, na fase final de definição dos territórios coloniais em África, com Portugal a pretender unificar Angola e Moçambique. Essa pretensão implicava estender a soberania  sobre os territórios que hoje constituem a Zâmbia, o Zimbabwe e o Malawi. Alguns passos práticos foram dados e chegou-se mesmo a elaborar e apresentar publicamente o célebre “Mapa Cor-de-Rosa”, a ilustração gráfica das intenções de Portugal, que entretanto colidiram com os planos imperiais da Inglaterra de unir territorialmente o Cairo (Egipto) e o Cabo (África do Sul). Daí ao Ultimatum inglês de 1890 e à comoção geral em Portugal pela impossibilidade de concretizar o sonho, foi um passo.
A independência dos dois países em 1975 foi antecedida em cada um deles por anos de organização e de luta armada levada a cabo por nacionalistas que se conheciam, muitos deles desde a Casa dos Estudantes do Império, do exílio e das prisões da PIDE. Vários deles eram poetas e faziam dos seus poemas arma de combate e de consciencialização popular.
A 13 de Junho de 2012 a Fundação Dr. António Agostinho Neto (FAAN) lançou em Maputo, em acto honrado com a presença de Maria Eugénia Neto e do então Presidente Armando Guebuza, o DVD “Moçambicanos Falam de Agostinho Neto”, que traz 13 depoimentos de personalidades destacadas daquele país. Segundo Mariano Matsinha, membro fundador da FRELIMO, “havia troca de informação institucionalizada, organizada e informal sobre o que acontecia em Angola e em Moçambique”. Joaquim Chissano, ex-Presidente de Moçambique, afirma que conheceu pessoalmente Agostinho Neto em Dar-es-Salam (Tanzânia) em 1965, num encontro de movimentos de libertação das então colónias portuguesas, em que “ele (A. Neto) tomou posições muito construtivas”. O escritor Mia Couto, repórter presidencial ao tempo de Samora Machel, centra o seu depoimento na vertente cultural, fala da “dimensão mitológica” de Neto e exalta as suas qualidades de poeta. Para ele, a poesia de Agostinho Neto é de “um africano que bebeu a cultura do mundo e que era um homem universal”. Mia Couto cita particularmente o poema “Depressa”, do livro “Sagrada Esperança”, como exemplo de “poesia pura”, com “uma mensagem intemporal que deve ser ensinada nas escolas, porque ensina os jovens a terem uma atitude”.
Algumas das informações prestadas por Sérgio Vieira, ex-director do gabinete do Presidente Samora Machel e também ex-governador do Banco de Moçambique, entre outros cargos, são autênticas revelações, pérolas de memória histórica. Por exemplo, o facto da FRELIMO ter fornecido armas, incluindo morteiros BM-21, ao MPLA, usadas na crucial batalha de Kifangondo em 1975; a criação, no dia 12 de Novembro de 1975, de um “Banco de Solidariedade” com as contribuições de um dia de salário dos funcionários públicos moçambicanos, que arrecadou mais de um milhão de dólares que foram entregues ao jovem governo angolano. Sérgio Vieira dá igualmente a conhecer que pouco antes da independência de Angola, diante da situação de incerteza que se vivia, o MPLA transferiu “todos os haveres” do Banco de Angola para o Banco de Moçambique. Tais “haveres” foram devolvidos ao Banco de Angola logo depois de proclamada a independência. Outra revelação: Agostinho Neto celebrou o seu último aniversário natalício, em 1978, em Moçambique.
O mesmo Sérgio Vieira fala dos acontecimentos e das consequências do 27 de Maio de 1977 em Angola. “Houve descarrilamentos, à margem dos órgãos próprios. Esses descarrilamentos, em particular, feriram o presidente Neto. Ele ficou extremamente magoado, porque era um homem de grande sensibilidade e humanismo”. O artista Malangatana Ngwenya, essa personalidade irradiante da cultura moçambicana, que faleceu pouco depois de ser entrevistado, fala da poesia de Neto e de como ela enriqueceu a sua visão estética.  Resumindo: Moçambique conhece bem Angola.
(NOTA: As referência aos depoimentos do DVD retomei-as de uma leitura que fiz para o jornal Cultura. Numa produção da FAAN, os depoimentos foram recolhidos pelos jornalistas Horácio Pedro e Altino Matos. 










O LIVRO ENTRE AS EDITORAS E OS JORNALISTAS

Isaquiel Cori


A leitura é das coisas mais prazerosas que existem. E aqui refiro-me mais especificamente à leitura de contos, romances e poemas. Isto é, à literatura propriamente dita. A oferta de livros é grande e variada, se considerarmos também a Internet e o livro digital. Um utilizador mais criterioso da Web sabe da existência de bibliotecas digitais que disponibilizam publicações periódicas ou não periódicas (livros ou revistas) gratuitamente. Cá, no mundo do impresso, os livros são cada vez mais caros (na verdade é o dinheiro que nos vai faltando cada vez mais), tornando a leitura algo irrelevante perante outras necessidades mais imediatas. Mas há hábitos bons que devemos procurar manter. A intenção não é já alcançar determinados patamares de sabedoria mas preservar a sanidade espiritual e mental. E a literatura angolana tem coisas muito boas, interessantes. Pena é que nessas coisas de leitura de livros angolanos o neófito tenha de navegar praticamente às cegas, por tentativas, sem referências consistentes na imprensa. Pasme-se: autores de primeiro plano publicam o seu livro e não se escreve absolutamente nada, nem uma linha sequer, sobre a obra; livros que tratam, com polémica ou não, de aspectos fundamentais da vida do país vêm a público e também não suscitam o mínimo comentário… Se notícia do lançamento houver, há-de limitar-se ao evento, às palavras circunstanciais, com grande destaque para os auto-elogios do autor. Este, temerariamente, sozinho, passa a ditar assim a narrativa pública sobre o seu próprio livro. E lá está mais um passaporte para o mundo das estrelas, das celebridades. Mas afinal de que trata o seu livro? Qual é a sua substância? O seu mérito? O que traz de novo ao nosso mundo de experiências e emoções? De que modo enriquece mais a nossa subjectividade? É mais um tijolo consistente no edificar da nossa memória colectiva? Ou pessoal?
A todo esse perguntar o novo leitor não encontra nenhum responder. É só silêncio. Resta-lhe então avançar para a compra e a leitura do livro. Se o resultado for desatroso e repetir-se, é mais um leitor que a literatura angolana perde. Pior: um leitor com preconceito firmado.
Lembro-me que há alguns anos os editores livreiros reservavam uns quantos, muito poucos, exemplares para distribuir à imprensa, para efeitos mesmo de divulgação do livro. Isto é, para que os profissionais da imprensa o lessem e formassem a própria opinião sobre o livro. E, claro está, para que divulgassem essa opinião. Dois ou três anos atrás um editor confidenciou-me que não enviava mais livros às redacções porque os jornalistas não os liam, logo, não escreviam sobre os seus conteúdos e limitavam-se a engrossar as suas bibliotecas caseiras. Que pena!
É evidente que de um jornalista não se deve esperar, se houver excepções, melhor, que faça uma leitura profunda e totalizante de um determinado livro, mas ao menos que produza uma opinião honesta, por mais impressionista que seja, que sirva de ponto de partida para outras leituras e opiniões. Por outras palavras, que chame a atenção do público para o livro. É minha convicção que esse é um dever de ofício dos chamados jornalistas culturais.
Daí que seja realmente uma pena os editores desistirem de enviar livros para as redacções antes dos lançamentos, pois a aliança com a comunicação social é necessária e fundamental para dar a maior visibilidade possível ao livro. E, claro está, ao autor.
Para finalizar, não resisto a  transcrever inicial de “Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & Eu”, livro de narrativas de Luandino Vieira, que ele próprio definiu como “de amor e riso”, publicado em 1981 pela União dos Escritores Angolanos. É um dos parágrafos iniciais mais “saborosos” da literatura angolana: “O irmão sorri, desacredita? Sempre não queira ser sábio ignorante: rir é remendo na roupa rota – tapa só, esconde nada… O dito, repito: mandioqueira de musseque é superior criatura de qualquer o douto vereador municipalesco!”.



ALGUMAS PALAVRAS SOBRE JOÃO LOURENÇO

Isaquiel Cori

Sempre me preocupei com as questões relacionadas com a passagem do tempo, os efeitos dessa passagem nas pessoas, a persistência da memória, a sua reprodução criativa nas artes, sobretudo na literatura, e sobre o comportamento das pessoas em face da passagem do tempo, o mesmo é dizer, ao longo da vida.
Habituados que estamos a ler e ouvir, perante qualquer acontecimento que envolva gente poderosa, que “estamos diante de um acontecimento histórico”, acabamos por perder a verdadeira noção de um acontecimento histórico.
É verdade que a dimensão histórica de um  acontecimento só é efectivamente perceptível passados alguns anos sobre o mesmo, quando a pátina do tempo cobre e suaviza as paixões das testemunhas - que ou estavam demasiado próximas do acontecimento ou eram, ao mesmo tempo, protagonistas do mesmo - fazendo realçar a serena e difícil objectividade do olhar em redor. Em todo o caso, insisto, é importante prestar a maior atenção possível às palavras. E mais: à forma como são ditas. As palavras nunca são vazias, elas tanto podem ser um manifesto de intenções,  uma leitura do tempo presente ou passado, um desabafo, um grito, um riso ou um choro: elas dizem tanto sobre elas mesmas como sobre quem as diz. Daí que nunca sejam inocentes.
Esse palavreado meio arrazoado em jeito de introdução vem a propósito de um facto de que muito já se falou e escreveu e de que muito ainda se vai falar e escrever:  a entrada em cena, no topo da liderança nacional, do cidadão João Lourenço.
Na verdade, ele teceu um manto de palavras/promessas/programas que desde logo suscitaram as questões: até onde ele é capaz de ir para as concretizar? Estará ele consciente das formidáveis forças de bloqueio que se vão atravessar no seu caminho, em defesa de interesses próprios, instaladas nos mais altos patamares dos vários poderes? Estará ele disposto, como dizia o ex-Presidente Lula, do Brasil, a “cortar na própria carne” para levar até às últimas consequências, as consequências formal e solenemente prometidas, a luta contra contra a corrupção?
Pelos vistos, sempre que faz o uso da palavra, o Presidente João Lourenço desvela um pouco mais o véu e tem o condão de ir muito mais além das expectativas em si depositadas e alimentadas pelos analistas da cena política e os cidadãos em geral. O seu discurso sobre o estado da Nação, pronunciado na segunda-feira última, foi um manifesto de coragem e determinação de um homem consciente do enorme peso dos problemas por enfrentar, mas que sabe ao que veio.
Certo é que o nosso Presidente, no quadro dos países democráticos, é formalmente um dos homens mais poderosos do mundo. Mas também é sabido que ele precisa de tempo para consolidar na prática esse poder, pois, como dizíamos acima, muitas são as forças de bloqueio, organizadas ou resultantes da mera inércia e da repetição dos velhos hábitos, que se atravessam no seu caminho.
Pessoalmente saúdo-o e a tudo o que representa neste momento: uma nova esperança, um recentrar do sonho angolano de satisfação e bem estar de modo a que seja mais inclusivo, colectivo e ao mesmo tempo individual.
O país precisava dessa nova esperança como a boca e o estómago precisam do pão. Era já uma questão de sobrevivência, a começar pela alma que definhava cheia de impotência. Este homem, João Lourenço, é preciso sublinhar isso, não é um deus ou semi-deus. É um mortal como qualquer um de nós, que as mil e uma circunstâncias imponderáveis da sua vida pessoal e da história do país e do mundo colocaram no lugar de poder em que está, mas que tem a coragem e a lucidez de assumir o seu papel como principal vector das mudanças em benefício de Angola e dos angolanos. Isso num mundo turbulento, com lideranças globais que não inspiram muita confiança e no contexto de tendências científicas e tecnológicas, para dizer pouco, “arrepiantes”.

Sem dúvida, João Lourenço, o Presidente de Todos os Angolanos, precisa do encorajamento e da ajuda de todos. Para nosso próprio bem.

A NOSSA (DIFÍCIL) INCLUSÃO DIGITAL

Isaquiel Cori

Coisas há, e não são poucas, que se tornaram tão comuns e imprescindíveis ao nosso dia a dia que fica quase difícil acreditar que há bem pouco tempo eram uma raridade. A Internet é uma delas.
Palavra curta, ela representa entretanto todo um mundo de possibilidades e de acesso a conteúdos de todos os tipos. Seja a partir de um smartphone, tablet ou computador o cidadão pode ampliar o seu olhar a toda a dimensão do mundo e aceder a informações sobre qualquer lugar ou assunto e aprofundar o seu conhecimento sobre qualquer ramo do saber. Essa é a visão que a maioria de nós tem da Internet:  um lugar, ou veículo, em que se vai buscar, ou que nos permite aceder, ao saber. Ao saber sobre o mundo e até sobre nós mesmos.
Pois esta visão é profundamente errada. É preciso entender cada vez mais mais a Internet como uma auto-estrada de dois sentidos, em que se vai, levando conteúdos, e em que se vem, trazendo conteúdos. E que tipo de conteúdos podemos introduzir na Net? A nossa visão do mundo, o nosso entendimento da vida, as nossas experiências, sonhos, expectativas; o conhecimento da nossa realidade, da nossa história, a memória de nós, as palavras tal como as concebemos e as dizemos. O mesmo é que dizer, nós temos de estar espelhados na Internet.
Efectivamente, a info-inclusão digital não é apenas ter acesso aos conteúdos da Internet, é também lá estarmos, postarmos lá os nossos conteúdos. Tudo deve começar, evidentemente, pelo mais básico que é dispor de uma plataforma física de acesso (smartphone, tablet, computador) e de serviços de Internet baratos e funcionais.
Pela bitola da nossa presença (ausência) na Internet dá para perceber logo o quanto Angola é efectivamente um país subdesenvolvido. Nos últimos anos, e a cada ano que passa, as coisas melhoram. Muitas instituições públicas e privadas dispõem de sites, que padecem entretanto de um mal comum: a desactualização. Há pouco mais de dez anos, se tanto, registou-se um interessante movimento de criação de blogues, sobretudo por iniciativa de jornalistas e escritores. Reginaldo Silva (“Morro da Maianga”), (“Mesu ma Jikuka”), Patissa são alguns dos nomes que me ocorrem, mas é importante mencionar a existência de um blogue dos blogues, “Blogues que falam de Angola”, que referencia os blogues com conteúdos sobre Angola. Os sites de informação são os que mais alimentam os motores de busca com conteúdos versáteis, actuais e diversificados sobre o país. Mas tudo isso, para a dimensão de Angola, ainda é muito pouco. Muito ainda há a aproveitar e explorar. As ferramentas estão aí, muitas delas gratuitas, a simples distância, como soe dizer-se, de um click. As escolas deviam aproveitar mais a Internet, fazendo com que os alunos não só fossem buscar dados para elaborar os seus trabalhos académicos, mas também que postassem, em blogues da instituição ou pessoais, esses trabalhos académicos. Estranha-me o facto de se aproveitar tão mal e pouco essa importantíssima ferramenta online que é a  Wikipédia. Enciclopédia virtual de que qualquer internauta pode ser editor, desde que naturalmente obedeça aos parâmetros, a Wikipédia tem alguma informação sobre Angola, mas devia ter mais, muito mais. Informação sobre lugares, personalidades, conceitos, coisas nossas, olhares nossos, sabores nossos… Seja por iniciativas individuais ou institucionais, é um vazio que devia ser preenchido. Há dias recebi um sms do escritor Hélder Simbad, líder do movimento literário Litteragris, a dar-me conta da criação de uma revista literária electrónica online. Trata-se, obviamente, de um importante aporte em matéria de inclusão de conteúdos sobre Angola na Internet. Projectos como este enfrentam um desafio quase insanável, que é o de encontrar um modelo sustentável de negócio. Quando todos os dias chegam-nos notícias de outras paragens do mundo que apontam para o aumento do volume de negócios na Internet, com a publicidade online, em muitos casos, a ultrapassar a publicidade veiculada nos meios tradicionais, em termos de arrecadação de lucros, em Angola vemos projectos comerciais de grande informação online a debaterem-se com grandes dificuldades para continuarem de pé ou até mesmo a morrerem. A solução vem aí, dizem alguns, com o lançamento e a entrada em funcionamento do Angosat, o consequente barateamento e a expansão e massificação do serviço de Internet. A ver vamos.





A LEITURA E OS SEUS INIMIGOS VISCERAIS

Isaquiel Cori

- Senhor, é proibido. Aqui não se pode ler.
Levantei os olhos do número atrasadíssimo da revista “Courrier Internacional”, que trazia comigo, onde lia um artigo e ao mundo se Martin Luther King não tivesse sido curiosíssimo sobre a chamada “História Alternativa”, em que se teciam considerações sobre o que poderia ter acontecido ao seu país assassinado e se ele se tivesse tornado Presidente dos Estados Unidos da América. Deparei-me com o rosto de um indivíduo imberbe, a civil, mas que uma plaqueta à sua secretária elucidava, além do nome que propositadamente omito, que se tratava de um agente de segunda classe.
- Hum!? É proibido o quê? – perguntei, sinceramente a não acreditar.
- Não se pode ler aqui. É proibido – Reiterou o indivíduo, agora com impaciência e duplicada autoridade na voz.
Ouvi chamar o meu nome e fui a uma secretária na parede oposta, onde ficaria largos minutos não só a concluir o que me levara àquela repartição, mas também a dar os dados pessoais para criação de uma conta online de que nunca ouvira falar e ninguém aí me conseguiria explicar devidamente. Com a agravante: pediram-me para abrir o meu email no computador da repartição e “convidaram-me” logo a ficar atrás do computador, pois “é proibido o utente ficar diante do écran”.
Diante de tanta proibição burocrático-administrativa, e até “policialesca”, senti-me na pele de Joseph K., o kafkiano personagem de ficção esmagado pelos absurdos da máquina estatal. Mas, mais do que a invasão da minha privacidade, representada pelo escancarar do meu email, chocou-me e choca-me até hoje o facto de numa repartição pública do meu país, segundo aquele funcionário, ser proibido ler. No caso, uma revista.
Desde tenra idade adepto e cultor ferrenho da leitura, cedo descobri que esse hábito, nas nossas famílias, na nossa sociedade, tem inimigos viscerais, arraigados e cegos na convicção dos seus  preconceitos. Que lhes parecem muito certos e naturais. Recordemos alguns.
O filho adolescente está no quarto desde manhã, a ler. A mãe, que já o deixou a ler, está de regresso da praça, onde vende peixe seco. “O quê, não saiu do quarto e continua a ler?”
- Meu filho, não faz isso, não te quero ver maluco a apanhar papel no lixo!
- Cuidado filho, podes ficar cego. Quem lê muito fica com problema de visão!
- Sai do quarto, vai brincar e conversar com os outros!
Três preconceitos sobre a leitura, três estigmas sobre quem lê: a loucura, a cegueira e o isolamento.
A mamã quitandeira, que veio do mato para a cidade grande ainda menina, já viu ou mais certamente, já ouviu falar, de filhos de outras que “liam muito e ficaram malucos”.
Ademais, numa cultura em que se privilegia a todo o momento a extroversão, a convivência, a oralidade, o contar cenas, em que o indivíduo é, ou deve ser, totalmente legível e previsível, é potencialmente perigoso alguém que no meio de tanta gente, de tanta balbúrdia, se abstraia de tudo para ler. Pior ainda: para pensar.
Para agentes da autoridade como o aludido acima, tornados homens nessa cultura, o indivíduo que lê, que lê muito, não importa o que leia, é assim uma espécie de marginal e um suspeito por não se enquadrar nas normas comportamentais vigentes, aceitáveis.
Todas as campanhas de fomento e incentivo aos hábitos de leitura estarão condenadas ao fracasso se, efectivamente, não tiverem em conta as nossas realidades e virtualidades sociais e culturais, com forte impacto psicológico, que se erguem como verdadeiras forças de bloqueio.
E é preciso também dizer aos candidatos a escritores que antes de sonharem, legitimamente, diga-se, com as luzes que iluminam as ‘celebridades’ nos estúdios de televisão, têm de vencer não só os preconceitos contra a leitura, reinantes a sua volta, mas ir mais além, assumir a loucura, o silêncio e a solidão como condição indispensável para alicerçar a sua criação.




segunda-feira, 11 de setembro de 2017

CHEGAR AOS 50 ANOS DE IDADE

Isaquiel Cori│


Quando, na semana passada, num convívio restrito, disse que há 16 anos a ideia de vir a completar 50 anos de idade era de todo improvável e fora das minhas cogitações mais optimistas, tive de “aguentar” um coro de firme reprovação e de quase revolta dos circunstantes, diante de tão “flagrante concessão ao pessimismo”. Compreendi logo a reacção.
Todas as pessoas a minha volta estavam abaixo da minha geração, ostentando idades entre os 18 e os 25 anos. São jovens que pertencem a essa geração combativa, ciente dos seus direitos e plenamente informada das realidades do mundo, muitos dos quais votam hoje pela primeira vez. A esses jovens, e muito bem, a menção à ideia de morte é completamente extemporânea, pois vivem envoltos sob uma aura de quase imortalidade, potenciada pelas perspectivas actuais de uma vida cada vez mais longa. Essa “aura”   cresceu exponencialmente nestes anos de paz e estende-se, com mais ou menos incidência, a todos os angolanos de todas as gerações. É assim que se explica a comoção geral diante de notícias de mortes: a vida é hoje um bem tão precioso e inestimável que só a ideia de a perder causa extremo desagrado e até mesmo revolta.
Infelizmente, no nosso país as coisas nem sempre foram assim. E mesmo até há pouco tempo!
Falo por mim. Estamos em 1985. Então tinha a idade de alguns dos jovens mencionados acima. Ano memorável: os Kassav vêem a Angola pela primeira vez; realiza-se em Luanda uma Conferência Ministerial dos Países Não Alinhados; o auge das rusgas: jovens como eu eram procurados debaixo da cama, nos tectos das casas, em todo lado, para ir à tropa; a guerra para nós em Luanda, no Kassequel, não eram tiros mas eram óbitos, gritos e choros que rompiam a madrugada: o fulano que morreu no Sautar, o outro no Mussende, o outro ainda em Cazombo. E os de que não se tinha notícia, os desaparecidos, as famílias em luto interminável.
E mesmo assim as festas, as festas, as festas! E os dancings, com as pessoas ilhadas até ao princípio da manhã, por causa do recolher obrigatório! Ainda hoje eu me pergunto: porquê que naqueles anos se festejava tão intensamente o agora e já, como se a vida toda fosse hoje e o amanhã completamente entregue ao Deus dará? E isso, repare-se, mesmo havendo tão pouco, quase nada, para comer…
Era isso: a morte não só estava em nosso redor como dentro de nós e ao dançar e festejar sem limites alicerçávamos a ilusão de que não éramos fantasmas mas sobreviventes de uma morte quase certa, que ainda nos poupara.
Pois é, então, no limite, a solução para desanuviar o ambiente alucinante e deprimente,  para muitos da minha geração, era fugir para a frente, ir à tropa, fazer a recruta militar, enfrentar a guerra de verdade, fosse o que Deus quisesse. É nessa tomada de decisão, não se importando já se a vida podia ser curtíssima, que muitos jovens da minha geração realmente se libertaram: conheceram localidades distantes, tomaram contacto com várias línguas nacionais e, se não as aprenderam, pelo menos se familiarizaram com o seu ritmo e entonação; alargaram as amizades íntimas a pessoas de outras etnias, outros substractos culturais; enfim, descobriram, por experiência própria, no convívio diário, ombro a ombro, uma Angola mais vasta e diversa. Mas a morte continuava presente nos amigos que morriam e no medo de que a qualquer momento fosse a nossa vez.
1990/1992. A Guerra Fria fica para trás, acontece Bicesse, é a paz. Raramente os jovens foram tão felizes e cheios de vontade de resolverem a sua vida. Milhares emigram das cidades em duas direcções: para Portugal, nas pedreiras, e para o garimpo de diamantes nas Lundas. Em ambos os casos, a busca era pelo sonhado El Dorado. Mais uma vez, sobretudo para os que estavam nas Lundas, o recomeço da guerra significou a volta da morte física, do vazio espiritual, da preponderância da escuridão sobre a luz.

Quando, no outro dia, vi nas redes sociais o clamor de riso diante das palavras de Luvualu de Carvalho, que comparou a paz ao oxigénio, eu não ri, não podia rir, talvez ele falasse sem compreender inteiramente o que dizia, mas eu sabia o que as suas palavras significavam.

LEMBRAR OU ESQUECER A GUERRA

Isaquiel Cori│

Ouvi com insistência, nos últimos dias, apelos no sentido de se esquecer o passado, de passar uma borracha sobre as lembranças da guerra. Isso supostamente em nome da reconciliação nacional e para não ferir susceptibilidades. Tomados ao extremo, tais apelos levar-nos-iam ao mundo orwelliano patente no romance distópico “1984”, onde é narrada uma sociedade em que, entre outras aberrações, existe toda uma burocracia especializada em alterar,   adaptar, “actualizar” os registos históricos em função da ideologia vigente no momento.
A memória colectiva da guerra, aqui entendida como o somatório das memórias individuais resultantes das experiências pessoais vivenciadas em situação de guerra, é um património nacional. No plano individual, se fosse possível, imaginemos obrigar um ex-militar das ex-FAPLA ou das ex-FALA a esquecer completamente todo o seu passado de militar, as peripécias boas ou más por que passou… além da desumanidade que tal gesto implicaria, estaríamos a empobrecer, mais do que já estão, tais pessoas, na medida que as lembranças, as recordações, em suma a memória, é o seu património, em muitos casos a única verdadeira riqueza que possuem. E no caso da mãe que perdeu o filho (ou os filhos), da mulher que perdeu o marido, do jovem que ficou sem os pais e os irmãos, a memória é o único elo com os seus entes queridos. Ora, para mim, o direito à memória, a lembrar o passado, é um direito humano inalienável, tal como o emergente conceito, muito associado à internet e às redes sociais, do direito ao esquecimento. E é preciso não dar como adquirido que tudo que aconteceu ontem será lembrado da mesma maneira amanhã. Hoje a memória da guerra é viva, é uma ferida por cicatrizar, mas se as pessoas não escreverem as suas experiências, as suas frustrações decorrentes da guerra, o que viram e o que sentiram, e até sobre o que fizeram ou deixaram de fazer, daqui a uma centena de anos, se tanto, a guerra,  não havendo já mais ninguém para se lembrar dela, não terá acontecido. E, sem memória dela, estaremos mais disponíveis para a repetir. Por outro lado, a memória, não sendo estática, retroalimenta-se com a visão do presente e propicia narrativas que podem ser completamente diferentes e até contrárias ao que realmente aconteceu.
Um dos papéis da escrita é fixar a memória colectiva, obrigar-nos a não esquecer. Tenho acompanhado com muito interesse o esforço de alguns historiadores militares, com Miguel Júnior à cabeça, de reconstituição de alguns episódios da guerra a partir de uma visão historiográfica angolana, contrapondo-se, esclarecendo ou complementando a visão de narradores cubanos e sul-africanos. Destacar aqui os títulos “O Fracasso da Operação Savannah”, compilação organizada por Miguel Júnior, de textos assinados, entre outros, pelos cabos de guerra Luís Faceira e Peregrino Chindondo; “História Militar de Angola”, outra compilação de textos organizada por Miguel Júnior e Manuel Difuila; e “A Batalha de Kifangondo (1975) – Factos e Documentos”, de vários autores, incluindo Miguel Júnior.  No exterior ano sim ano não, são publicados livros sobre a nossa guerra civil, um dos mais destacáveis dos quais é “A Guerra Civil em Angola (1975-2002)”, de Justin Pearce. A leitura do último capítulo da “História de Angola” de Douglas Wheeler e René Pélissier, intitulado “Uma breve história de Angola entre 1971 e 2008”, é absolutamente recomendável.
Há ainda o surgimento de uma bibliografia de memórias de protagonistas ou testemunhas civis e militares, de ambos os lados da antiga barricada, também muito interessantes. Recomendo a leitura dos livros “A Segunda Revolução”, de Jardo Muekalia, “Caminho para Paz e Reconciliação Nacional – De Gbadolite a Bicesse (1989-1992)”, de Jorge Valentim, “Huambo, 56 Dias de Terror e Morte”, de Jorge Ntyamba, e o recentíssimo “Luena, 45 Dias de Batalha – Cerco à Cidade e Negociações em Bicesse”, de Esmael Silva. Leia-se também “Prisioneiros da UNITA nas Terras do Fim do Mundo”, do  cubano Manuel Rojas Garcia, e “Cuito Cuanavale – Crónica de uma Batalha”, do também cubano Ruben Jimenez Gomez.
Tudo isso ainda é pouco. Os sociólogos, os antropólogos, os economistas, e outros pesquisadores, têm de entrar em campo para estudar, enquanto as marcas ainda estão bem visíveis, que Angola é esta que emergiu da guerra e o quanto esta nos transformou naquilo que somos hoje. E se há retorno e se esse retorno realmente é possível e desejável.



UMA HISTÓRIA IGUAL A MUITAS

Isaquiel Cori │


Joana Munguay é uma mulher dos seus 70 anos que gosta de ver a tarde passar sentada na rua, à porta do quintal da casa do filho que é meu vizinho. De um dos seus oito filhos. A vizinhança passa distraída por ela, com uns a atirarem-lhe umas palavras de saudação e outros ignorando-a completamente. As crianças brincam perto, aos ruídos,  despertando-a por vezes do estado de aparente sonolência.  
Ela desaparece por longos dias, na ronda que faz habitualmente a casa de cada um dos filhos, mas é na do meu vizinho que passa mais tempo e gosta de estar mais, talvez por dispor de um quintal grande onde ela consegue dar vazão aos enraizados instintos de camponesa, cultivando umas quantas hortaliças e ervas cheirosas como a salsa e a hortelã.
Pensei na velha senhora na última semana, em que, muito mais do que em anos anteriores, recebi convites pessoais para ir a cerimónias de outorga de diplomas universitários e participar nas consequentes festas.  Humanamente não era possível satisfazer a todos.
Joana Munguay, que chegou robusta e lúcida à idade que ostenta, tem todos os seus oito filhos formados. Duas são médicas, um é economista, outra jurista. Um é engenheiro informático, outro é psicólogo – e oficial superior das Forças Armadas - e os últimos são engenheiro de construção civil e professora.
Ela não esconde, nos círculos que frequenta, cada vez mais restrictos à sociedade de senhoras da igreja, que os filhos são a sua vaidade. Infelizmente, não tenho a certeza se ela é a vaidade dos filhos.
O percurso de Joana Munguay, camponesa que nasceu em Mazozo, a pouco mais de sessenta quilómetros de Luanda, e para aqui veio muito nova para tornar-se lavadeira, quitandeira, novamente lavadeira, costureira, cozinheira e outras profissões bem na base da escadaria social urbana da época colonial, mal sabendo ler e escrever, e que quase 42 anos depois da independência tem os seus oito filhos, como soe dizer-se, doutores, espanta por não ser um caso excepcional mas que se multiplica por esta Angola a dentro.
E a distância dos anos acumulados desde que ela veio para Luanda onde casou-se e teve os filhos, esconde a distância enorme que ela percorreu e venceu do ponto de vista social, histórico, cultural e humano.
Social porque, entendendo que ela prolongou a sua vida na vida dos filhos, Joana Mungway, a camponesa, a lavadeira, saltou para a classe média (ou para aquela que deveria ser a classe média); histórico, porque ela representa a ascensão, como sujeitos da história - com dignidade e plena consciência - de um estracto da população cujos ancestrais viveram sob a escravatura e foram sujeitos aos rigores do colonialismo; cultural, porque Joana Mungway, através e com os filhos, deixou para trás algumas crenças obscurantistas e assimilou os valores da modernidade, que amalgamou a todo o conjunto difuso da ancestralidade. Por fim, o ponto de vista humano.
As estatísticas que o país já vai produzindo, com alguma consistência, apontam os inegáveis progressos ocorridos no sector do ensino superior, que foi estendido a todas as províncias. Os jovens têm muito mais possibilidades de fazer a formação superior e os papás e as mamãs de Cabinda ao Cunene podem acalentar mais o sonho de ver os filhos doutores e com potencial de terem bons empregos, numa estratégia legítima de “adiantamento” social da família, pois é sabido que filhos de pais com formação superior tendencialmente também terão esse nível de formação. Ora, muitos criticam o facto da extensão do sistema universitário ter nivelado por baixo a qualidade do ensino, e que a  sua massificação não é compatível com a excelência. Além das respostas institucionais que devem obrigatoriamente ser dadas, cabe aos estudantes tomarem essas críticas como pessoais e estudarem mais e melhor para mais tarde “darem cartas” no mercado de trabalho.

***
Sempre que vejo Joana Munguay sentada à porta do filho aproximo-me com cuidado, porque ela assusta-se facilmente com os gestos e os sons bruscos. Quando está realmente a dormitar não a incomodo mas fico a olhar demoradamente para ela, velha senhora de pele grossa e cheia de rugas que dizem dos muitos sóis que a queimaram e dos ventos que a curtiram. Sinto-lhe, com os olhos, o coração a bater ritmadamente debaixo do quimono que mal esconde um fio de ouro antigo, oferta do falecido marido.  Desejo sinceramente que os filhos não sejam ingratos e que a amem tanto como ela os ama. Que ela seja a vaidade e o orgulho deles. E pergunto-me então se ela estará mesmo a dormir ou mergulhada em pensamentos tão profundos como a história da sua vida.


UM VÓRTICE NA ALMA



Isaquiel Cori│

Uma pessoa que muito estimo e que há vários anos não via, perguntou-me um dia desses: “Cori, o teu último livro está esgotado e já lá vão uns bons anos que não publicas outro, o que se passa?” Referia-se ao romance “O último recuo”.
Na altura, dei uma resposta de ocasião, até porque raramente me disponho a falar sobre o que estou a escrever: tudo o que eu possa dizer a respeito é provisório, pois só dou como acabado um livro a partir do momento em que o mesmo está publicado. Mais tarde, lembrei-me do amigo, com quem me encontrava tão sazonalmente. E voltei a pensar na sua pergunta.
Na verdade, a minha não presença nos escaparates das livrarias resultava do facto de ter ficado paralisado diante das transformações que ocorriam aos nossos olhos, logo depois do alcance da paz. Mais do que o betão e o asfalto, o país foi envolvido por um vórtice na alma. Houve um renovar da fé nas próprias forças, na possibilidade de pessoalmente fazermos as coisas acontecerem. A escuridão de morte que ofuscava o futuro e nos fazia sobrevalorizar o dia-a-dia, o instante, e transformava, de modo ambíguo, as festas e as danças numa espécie de celebração da vida e ao mesmo tempo da morte por ora adiada, afastou-se e deixou a luz fluir, como uma janela que se abre ao dia ensolarado. O país fervilhava de optimismo e acalentava sonhos de grandeza como o de vir a ser a maior potência africana.
Nunca os angolanos viajaram tanto! Nunca os angolanos se deslocaram tanto no interior do seu território!
Embaladíssimos pela alta dos preços do petróleo e com a entrada maciça de dólares, acreditávamos genuinamente que era chegada a nossa vez, que tínhamos a oportunidade histórica de “descolar” do atraso. Mais do que sermos nós a caminharmos para o futuro, era mais do que nítida a sensação de que o futuro é que corria em nossa direcção e que a nós bastava estarmos preparados para o acolher. Todos os deuses de todos os credos pareciam conspirar a nosso favor e muitos de nós chegaram mesmo a julgar que, afinal, éramos nós, divinal e providencialmente redescobertos, o “povo escolhido”.  
Tudo isso criava uma tensão espiritual e existencial, o tal vórtice na alma, que ia muito além do tumulto mensurável, palpável, das obras de construção civil. Pois então, era preciso assimilar o que se passava, nas dimensões visíveis e invisíveis, e só então avançar para a escrita. Isso, no entendimento de que a escrita é uma forma de pôr ordem no caos, de racionalizar a confusão,  de ordenar a desordem e pôr luz na escuridão.

***

Muito admiro os que conseguem tirar de objectos materiais vozes, sons, ais, gemidos e até gargalhadas. Fazem chorar a madeira e as cordas da viola, suscitam gritos de alegria das peles esticadas dos tambores e com isso desbravam caminhos insuspeitados nas almas solitárias, sedentas de amor. Aos naturalmente já propensos à felicidade, fazem-lhes transbordar de alegria. E quando à música instrumental se acrescenta a voz do cantor, que verbaliza ou não, que conta uma estória ou se auto-recreia em solfejos a modos de imitação do que vaga e incertamente supomos ser a voz dos anjos, fica composto o “cenário” que faz da música um dos fenómenos mais poderosos da existência humana.


PRÉ-PUBLICAÇÃO: ROMANCE "DIAS DA NOSSA VIDA", de ISAQUIEL CORI

Pois é, caros internautas, aqui vai, em jeito de pré-publicação, o capítulo inicial do meu romance inédito "Dias da Nossa Vida". Se tudo correr bem, o livro sai a público no primeiro trimestre de 2018. Creiam, amigos: nunca foi tão difícil publicar um livro em Angola! As editoras, descapitalizadas, propõem aos autores que batam as portas das empresas em busca de patrocínio; e as empresas, a funcionar num ambiente de imensas dificuldades, não têm como atender positivamente aos pedidos de patrocínio. Aos autores, aqueles em que o acto de escrever significa um sopro de vida, um gesto de liberdade e de afirmação do ser criativo, só resta a opção de escrever para a gaveta. Amanhã talvez as coisas melhorem. Amanhã as coisas sempre melhoram.


                                                           
CAPÍTULO 1




         Reinaldo Bartolomeu vestiu o fato olímpico de sua eleição, o azul de listas vermelhas, calçou as sapatilhas e pôs-se a aquecer aos saltos no quintal. Parecia um coelho dos bonecos animados.
        - Filha, vou dar a minha corridinha matinal.
        - Está bem, querido - gritou a esposa, Rebeca, da cozinha.
        Com o corpo quente e já a transpirar, Reinaldo abriu o portão metálico do quintal e a rua atirou-lhe, imediatamente, à cara a luz clara da manhã. Viu-se obrigado a fechar os olhos. Era uma manhã potente, que prometia um sol abrasador, ao contrário dos últimos dias, em que as manhãs cinzentas e a atmosfera pesada envolviam tudo e todos num abraço deprimente. Deu uns passos às cegas e quando voltou a abrir os olhos foi brindado com uma visão digna de um quadro surrealista: dois cães estavam colados pelo sexo e cada um puxava para o seu lado, na tentativa de se desprender. Eram cães rafeiros, bonitos e limpos. “Mas que porra!”, gritou para si mesmo. “Logo dois cães a se foderem mal um gajo sai para a rua?”
        Uma sensação de mau presságio, misturada com um medo repentino e visceral, obscureceu a mente de Reinaldo e arrepiou-o todo. “Será que vou ter um dia de cão, meu Deus?”
        Ameaçou pontapear o casal de canídeos e estes, assustados, acabaram por se descolar e se afastar, visivelmente exaustos e envergonhados. “Será que estes animais gozam o sexo como nós, humanos? Mas que raio, assim, sem privacidade nenhuma, na rua, à luz do dia, não acredito que tenham prazer no sexo. São cães! Por isso e por outras é que são cães!”
        Lá Reinaldo Bartolomeu deu as duas voltas habituais pela rua, numa corrida rápida, cheio de genica. Quando finalmente entrou em casa e se colocou nu debaixo do chuveiro, o corpo todo molhado de suor, ainda voltou a ter uma visão mental dos cães em pleno sexo. Mas acabou por entregar-se  à água fria. O choque térmico despertou-lhe todo, pôs-lhe a mente e os sentidos em disparada, com os pensamentos a direccionarem-se logo para o trabalho. Lembrou-se das palavras marteladas e cem vezes repetidas do chefe Admirável Redondo: “Muito há a fazer!”.
        Ao contrário de outros sectores do funcionalismo público, em que os detentores de cargos de chefia preferem não fazer ondas, deixando-se estar absolutamente quietos para não desagradarem o superior hierárquico e porem assim, eventualmente, em causa o próprio cargo, nos Serviço de Informação exigia-se que se fizesse sempre alguma coisa. Era impossível ter o conhecimento e o controlo da situação, de qualquer situação, ficando apenas parado. Apenas parado porque, efectivamente, por vezes, e não poucas vezes, apreendia-se melhor as várias nuances da situação ficando mesmo parado, imóvel, na mais completa passividade. Mas agora Admirável Redondo sinalizava que não bastava ter conhecimento do que se passava à superfície dos dias. “É preciso provocar os factos e colocar os adversários na defensiva ou a denunciarem-se a todo o momento. É assim: como num jogo de xadrez, é quase impossível o jogador aplicar na plenitude a estratégia previamente adoptada; os seus movimentos ofensivos confrontam-se com os defensivos e contra-ofensivos do adversário, obrigando-o a adaptar-se permanentemente, a ser criativo”, dizia ele. Reinaldo enxugou-se, vestiu um velho fato escuro e juntou-se à mulher na cozinha. O cheiro a café atraiu-o imediatamente para a cafeteira no fogão.
        - Come primeiro, toma o café depois, querido.
        - Está bem.
        Sentou-se à mesa e fez um esforço para comer. Era um hábito, ou melhor, uma falta de hábito antiga. No tempo da guerra chegara a dispensar completamente o matabicho, limitando-se a tomar um café amargo logo de manhã, para voltar a meter algo no estômago só ao almoço. Pagou caro por isso. Nos últimos anos foi sendo apoquentado por dores de estômago que chegavam a deixá-lo quase inanimado. Teve de viajar a Cuba, onde um médico impôs-lhe uma dieta centrada no pequeno almoço. Desde então as dores diminuíram. A mulher tomou a si a responsabilidade de garantir que tomasse sempre o matabicho. Era como ela dizia: “para o bem de toda a família”.
        - Está aqui o jornal de hoje. O motorista passou enquanto te banhavas.
        Há dois anos o principal jornal do país chegava à província todas as manhãs, no primeiro voo da companhia de bandeira. E Reinaldo era das primeiras pessoas a ter acesso ao mesmo. Agarrou o jornal e foi passando os olhos página a página. Ler os jornais, sobretudo o jornal oficial, era uma obrigação profissional. Os jornais privados, quase todos semanários, foram impedidos de circular na província, na sequência de uma novela caluniosa a respeito da vida particular de Sua Excelência o Senhor Governador. Verificara-se depois que a campanha fora montada e financiada a partir de Luanda por um velho inimigo de estimação do Governador, colocado em posições cimeiras das estruturas partidárias e governamentais. A questão de se saber da verdade, do mérito ou não das acusações, fora habilmente desviada para a deslealdade do dirigente em causa. Antes que ambos se autodestruíssem, arrastando consigo, aos pedaços, a boa imagem do sistema político, representantes do núcleo duro do poder no país chamaram-nos e obrigaram-nos a fazer as pazes: em nome dos “superiores interesses do Partido, da Nação e da Paz”. Um círculo muito restrito da província, em que se situava Reinaldo, por dever de ofício, continuava a receber os principais semanários da capital do país.
        Mais do que as notícias em si Reinaldo procurava extrair do diário oficial os sinais, as tendências. Era-lhe importante sondar a linguagem, descodificar o grafismo, ler as fotos e as legendas. As páginas de publicidade, muitas vezes, acabavam por ser mais significativas que as notícias, diziam mais das dinâmicas políticas, sociais e económicas e tornavam mesmo o jornal indispensável para todo e qualquer funcionário público. 
        Não menos importantes para Reinaldo eram as páginas de necrologia. Ele que conhecia muito bem a elite social, económica e cultural da capital do país, onde se movera ao longo de quase toda a vida, deparava-se frequentemente, naquelas páginas, com o rosto de alguém que partira para o outro mundo. Não tendo medo da morte, respeitava-a, porque punha todos de sentido e tudo em perspectiva: estamos todos de passagem, não importa a riqueza ou o poder que se tenha. Por isso valorizava imenso a vida, essa carruagem colorida e cheia de sonoridades que ninguém sabe quando e onde vai parar. 
        Enquanto lia, Reinaldo Bartolomeu esticava mecanicamente o braço para alcançar um pedaço de pão, uma fruta ou outro alimento qualquer. Mastigava devagar, completamente entregue às escolhas nutricionais da mulher.
        - Algo de novo? Como está o país?
        - Tudo velho, filha. Pelo menos, de momento.
        - Como assim, de momento?
        - O importante é absorver as notícias. No momento certo a mente devolve-nos o que absorvemos na forma de sínteses informativas, saberes intuitivos.
        - É o teu trabalho, sei, mas…
        - Papá, papá, quando eu crescer também quero ser bufo!
        Vindo do quarto a correr, portador de uma energia inusitada para quem acabava de saltar da cama depois do sono nocturno, Andrezinho, o filho caçula, irrompeu na cozinha com a soberania imperial das crianças mimadas.
        - Eh, pá! – Reinaldo esticou-se todo, como uma cobra ao ataque, deixou o jornal escorregar para o chão, as folhas soltas espalhadas. – Anda cá, Andrezinho, o que foi que você disse?
        - Quando eu crescer quero ser bufo, papá! – reafirmou.
        - Você sabe o que é isso?
        - Sim, quero ser assim como o papá e o avô. E também como o vizinho Manecas e a mulher dele. E como o tio Caldeira e a mana Domingas. Ah, e a prima Deizi e o marido dela…
        Reinaldo respirou fundo. Outra maka mais! Andrezinho tinha sete anos. Era muito espevitado mas acabava de ultrapassar todas as marcas. 
        - Quem anda a te dizer essas coisas? Vá, diga!
        - Ninguém, papá, eu sei mesmo sozinho. Ninguém me disse.
        Nunca se sabia. Tinha de ficar mais atento, abrir uma nova frente de vigilância, agora tendo como alvo o próprio filho. Era uma tarefa a não delegar a ninguém. Ele próprio a levaria a cabo. O inimigo estava em todo o lado, infiltrava-se em todos os lugares.
        - Trata mas é de estudar. Estudar é o teu trabalho. E vais ter de me dizer com quem andas a conversar.
        - O que é isso, Reinaldo, deixa o miúdo em paz. Ele é inocente.
        - Até pode ser inocente, mulher. Os inocentes são, precisamente, o maior risco. Podem ser utilizados sem sequer perceberem.
        - Ora, o Andrezinho acompanha as conversas aqui em casa e nos lugares onde vamos. Ele é apenas uma criança. Não o ponhas nesse mundo sombrio em que te moves.
        - Ai é? Vamos ver. Se cheguei até onde estou é porque nunca deixei uma ponta solta.
        - Vai para o quarto de banho, já.
        Andrezinho foi para o quarto de banho, todo contrariado. Reinaldo pensou seriamente na família, nas amizades e na vizinhança. Na sua ascendência e nas suas relações passadas e actuais, era bem verdade, tudo tresandava a bufaria. Na família havia uma verdadeira dinastia de bufos. Até onde ia o seu conhecimento um antepassado seu fizera parte do círculo de confiança da rainha Njinga Mbande, encarregando-se da sua segurança pessoal. A informação fora-lhe dada, inadvertidamente, por um velho tio na noite triste e festiva de um óbito em Malange. Quisera aprofundar os detalhes, saber mais de tão ilustre antepassado, mas tanto o excesso de trabalho como a morte do velho cortaram tal possibilidade. Foi aos arquivos, aos livros de História disponíveis, mas não encontrara rastos do parente. O que era compreensível, pois a narrativa da história de Angola pré-colonial é, fundamentalmente, a gesta de reis, rainhas e grandes chefes tribais.  
        As informações a respeito do tempo colonial eram mais profusas e claras. Durante a luta anti-colonial teve parentes seus a operarem, ao mesmo tempo, como agentes da PIDE e das forças clandestinas do MPLA. Essa condição dúbia, de prestadores de serviços valiosos tanto a um como ao outro lado da barricada, colocou alguns desses parentes em posição privilegiada por altura da eclosão da independência nacional. Não por acaso, um dos mais altos dirigentes da antiga DISA era um tio seu, primo da mãe. Igualmente não por acaso, um outro tio, irmão da mãe, também da DISA, estava entre os mortos do 27 de Maio de 1977. Era mesmo como o Andrezinho dissera: os seus parentes mais notáveis faziam parte das várias estruturas dos serviços secretos. Alguns sobrinhos já estavam a trilhar o mesmo caminho: além de um bom emprego, era uma questão cultural incrustada no sangue.
        - Precisamos ficar atentos ao Andrezinho.
        - Vai, deixa o miúdo ser criança. Não o metas nas tuas obsessões.
        - Vamos ver no que é que isso vai dar, filha. Estou muito preocupado.