terça-feira, 13 de novembro de 2018

ESCRITOR MANUEL RUI: “Não troco este país por outro”


Isaquiel Cori*

Pertence à geração que proclamou a Independência Nacional e esteve no centro dos acontecimentos da época, tanto na qualidade de ministro da Informação do Governo de Transição como de alto responsável do MPLA. Escritor consagrado, autor da letra do hino nacional, Manuel Rui tem opinião qualificada sobre a história recente e o momento actual do país. "Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias", afirma.

Foto de Paulino Damião "Cinquenta"

É autor de letras de músicas, algumas com muito sucesso de público. Como é o seu processo de participação nas músicas?
Eu faço letras em cima de músicas e as pessoas dizem que é difícil. Prefiro que me dêem uma música para eu passar uma letra em cima. A pessoa dá-me a música e eu passo a letra em cima. Ao criar o hino da UCCLA, fiz uma letra que tinha estrofes com x sílabas e depois outra com menos sílabas e o músico meu amigo disse-me que não gostava de trabalhar assim, com sílabas… Eu disse que não era problema nenhum, “dá-me a música e eu ponho o mesmo conteúdo, as mesmas palavras dessa letra nas sílabas que me trouxeres”… O “Pôr do sol”, do André Mingas… eu fui a casa dele e ele disse-me “tenho aqui uma coisa para te mostrar, que fiz agora”… Tocou a primeira frase, pedi-lhe papel e em dez minutos fizemos o “Pôr do sol”: “Tantas vezes o mar já viu…”
Na criação do Hino Nacional a letra também foi feita em cima da melodia?
Foi uma emergência. Dois dias antes da independência, ali em minha casa, no Saneamento, o Rui Mingas com o violão tirou uma frase musical e eu pedi-lhe para repetir enquanto escrevia… Foi assim que surgiu o Hino. Estavam pessoas a assistir, a letra, o Hino surgiram ali mesmo.
O nosso Hino é considerado um dos mais bonitos do mundo…
Sim. Tenho uma enciclopédia de hinos e  falam isso. Falam da letra, da sua intemporalidade: “Unidos lutaremos pela paz, com as forças progressistas do mundo”… Isso é intocável. Quando quiseram mudar o Hino, a Unita quis mudar, fui chamado ao MPLA, com o Rui Mingas, pediram-me para tirar o “Poder popular”; o Rui Mingas não quis. Tirei e fiz outra versão. Foi  João Lourenço quem nos recebeu, na altura. A maka era o “Poder Popular”. Mas o que é certo é que as Constituições dizem que a soberania reside no povo. Isso também é poder popular. Há hinos que são bélicos, falam em canhões e nunca mudaram para mísseis…
O Carlos Lamartine também participou na criação do hino?
Não. O Lamartine não estava. Mas um momento: depois do hino ser aprovado pelo Comité Central [do MPLA] alargado, que incluía os que estavam no Governo e representantes dos comités, era preciso arranjar jovens para constituirem o coro. Mas primeiro fomos à Rádio Nacional para gravar; aí estava também o Lamartine. A Katila e mais gente, inclusive eu também cantei nesse coro improvisado. O Lamartine ficou incumbido de arranjar jovens para o coro. O ensaio foi feito mesmo no 1º de Maio. Será por isso que o Lamartine diz que também é autor do Hino nacional?  Mas isso não me importa. Não me pagaram nada nem eu ia querer direitos naquele tempo. Nem tenho uma pensão. Nem passaporte diplomático tenho.
Não lhe foi atribuída uma patente militar?
Por ser autor do Hino nacional não tenho nada. Tenho uma reforma que nem vou falar na miséria…
Mas está reformado como? Funcionário público?
Não. Trabalhei em vários sítios. Numa empresa eu era consultor e tinha contrato, portanto descontava para a segurança social; a Universidade (ISCED do Lubango, onde cheguei a ser director) fez um papel de má fé, para eu não receber (tenho aí o papel). A Endiama - eu é que inventei o nome Endiama, quando comandava o processo de nacionalização da Diamang, que ocorreu pacificamente, com os accionistas a quem prometemos que seriam parceiros no fornecimento de tecnologia e na compra dos diamantes - fez um papel para a minha reforma, todo mal feito, sem o salário que eu estaria a ganhar actualmente. Olha, o papel está aí atirado. Portanto, não tenho nenhum benefício pelo Hino nacional, tirando as pessoas me alegrarem quando vou ao supermercado: “Desculpe, não é o autor do Hino nacional?” Ou os estudantes virem bater-me à porta, no fim das suas licenciaturas, para me entrevistarem sobre o Hino nacional. Essas são as únicas vantagens que eu tenho. No mais, fechei o escritório de advogados cansado da perversidade da Justiça.
O que é feito do seu projecto 11 Poemas em Novembro, que consistia em publicar todos os anos, em Novembro, um poemário com onze poemas?
Precisava de ter uma pessoa que me arrumasse os poemas. Este ano já vou tarde, mas para o ano vou retomar.
E a antologia dos 11 Poemas em Novembro?
Já saiu uma, dos primeiros cinco anos. Os 11 Poemas em Novembro saíram durante sete anos, queria pelo menos chegar aos dez anos. A periodicidade dos 11 Poemas em Novembro pressupõe pessoas empenhadas. Quem se empenhou nisso primeiro foi o Costa Andrade “Ndunduma”, depois o David Mestre, que então trabalhava no Jornal de Angola. As pessoas não ligam muito às coisas. Fico espantado quando fazem a festa das Edições Novembro… Quem inventou a Revista Novembro? E o jornal? Há um despacho, publicado e está no vosso arquivo: “Encarrega-me o camarada ministro da Informação Dr. Manuel Rui Monteiro, de proceder ao seguinte despacho:  a partir de amanhã o jornal “A Província de Angola” passa a chamar-se “Jornal de Angola”. Assinado: Fernando Oliveira. Depois reunimo-nos ali na descida onde era a “Revista Novembro”. O (Mário de) Alcântara Monteiro, fixem este nome, foi o primeiro director da “Revista Novembro”. As edições dessa revista para saírem eram uma chatice. A luta pelo jornal “A Província de Angola” passou pela explosão de uma bomba já os sindicalistas haviam tomado o jornal. Tem gente ainda viva aí no jornal que deveria contar isso tudo. A televisão, abriu contra o Conselho de Ministros, o Alto-Comissário tuga odiava a comunicação social. Fui falar com Agostinho Neto que deu luz verde e a televisão entrou no ar… mas há quem viva por omissões da história...
Qual surge primeiro: a Revista Novembro ou a Edições Novembro?
A Revista Novembro. Depois era preciso ter uma estrutura à maneira socialista, um kolkhoze, para tomar conta da revista, do jornal… Fizeram tudo para que só houvesse um jornal. Fecharam o “Diário de Luanda” por causa do Nito Alves, enquanto que em Moçambique mantiveram todos os jornais.
O espírito de participação, de engajamento político e cívico da sua geração é comparável com o das gerações actualmente jovens?
Não é comparável porque nós tínhamos a certeza da vitória. Nós éramos Tanu, não éramos Zumbi, personagens do meu último romance  “Kalunga”. E além disso, mesmo na Universidade, em Coimbra, eu tive a sorte de encontrar uma geração de ouro. Grandes poetas portugueses, músicos da craveira de um  Zeca Afonso ou Adriano Correia de Oliveira…
E eram fundamentalmente de esquerda…
Absolutamente de esquerda. Marxistas, a maioria de nós. Marxista-Leninista nunca fui, porque nunca acreditei no centralismo democrático e no governo dos operários e camponeses, que nunca existiu, era tudo uma falácia. Quando começo a conhecer os países socialistas um por um, eu disse: “não quero essa porcaria”. Congelaram o pensamento de Marx. Deixou de haver liberdade.  Havia uma aparente igualdade de satisfação de bens materiais por toda a população, mas as elites tinham as suas lojas próprias. E depois havia os campos de concentração, os delitos de opinião, as prisões… Não sei se vocês souberam, mas parece que a revista do João Melo (África 21) publicou sobre Cuba quando eu estive lá num festival do livro, estavam lá também a nossa ministra da Cultura e outras pessoas do aparelho daqui… Eles fizeram uma edição do meu livro “Quem me dera ser onda”, que lá chegou a ser considerado contra-revolucionário, sem me pedirem autorização, não vi capa nem nada. A TV dava todos os dias o Chaves de meia em meia hora, e o Fidel em fato de treino. Na conferência perguntaram-me o que achava da TV (que felizmente não tinha publicidade). “Acho que é melhor que as outras, pelo menos tem menos merda”, respondi. “Mas falta a voz popular, vocês aqui em Cuba ainda não se libertaram das esquizofrenias recebidas do Leste, como nós em Angola recebemos e foi com vocês mesmo que aprendemos a usar os cartões para comer e beber, e o próprio povo é que destruiu isso, com a sua tendência para as esferas antigas, a troca das coisas, a carne pelo peixe, o feijão pelo milho. Vocês deviam acabar com as esquizofrenias que são do Leste. E o principal, acabar com os delitos de opinião e pôr os presos políticos cá fora”. Aquilo gelou a sala. Houve pessoas da delegação angolana que saíram. Quando cheguei ao hotel, disseram-me: “camarada Manuel Rui, isso não se faz, eles são os anfitriões”. Eu disse: “mas eu sou irmão do povo cubano, que verteu sangue lá em Angola, e eu com os meus irmãos tenho de ser sincero. Há pessoas muito importantes, não são como eu, um Gabriel Garcia Marques, que também já se chatearam com o Fidel e disseram que isso tinha de acabar, tinha de mudar”. Hoje, neste momento em que estamos a falar, estou a rir-me porque a nova Constituição cubana já fala em propriedade privada.

“Neto era um comandante poderoso, com carisma e alto astral”

O apoio dos países socialistas era incontornável?
Os países do Leste, isto temos que reconhecer, apoiavam os movimentos de libertação. Mesmo na ONU batiam-se por nós contra Portugal com os americanos por trás. Só que a determinada altura houve uma espécie de pacto. Houve um aproveitamento da guerra fria. Vieram fazer a guerra fria aqui, experimentar armamento aqui. A segunda batalha com o maior número de blindados, depois da II Guerra Mundial, foi aqui em Angola. Foi uma tremenda estupidez nossa andarmos em guerra uns contra os outros, em vez de conversarmos. Mas como não tínhamos conversado durante a guerrilha, tornava-se impossível conversar com o Savimbi. E quer na UNITA, quer na FNLA, quer no MPLA, os presidentes eram a simbologia do poder e não presidentes de partidos. E estupidamente fomos aceitar aqueles acordos do Alvor, que não serviram para nada, Portugal nem tinha experiência de democracia.  A França quando dá a independência ao Senegal já tinha a democracia e o Senghor já tinha sido ministro da Cultura em França. Foi um erro tremendo, não sabermos conversar uns com os outros. Os colonos deixaram uma economia forte, uma capital que os outros não tinham. Em cada província o colono deixou um palácio, há países que não têm palácios de Presidente assim. Temos uma rede de rios, água com fartura, temos riquezas minerais, temos tudo. Porquê que nos fomos meter na guerra? Se não fosse a guerra não tínhamos esta gente toda que está cá. As pessoas que enriqueceram com a guerra… Eu não imagino a potência que seria Angola. Os sul-africanos diziam, quando conversavam connosco: “Vocês têm coisas que nós não temos. Vocês ultrapassaram o problema racial, até mesmo os problemas tribais vocês ultrapassaram”.
É a insolúvel questão do “se”. Infelizmente não é possível modificar o passado.
Sim. Ainda voltando à questão que colocou sobre o marxismo. O marxismo para mim é uma forma de pensamento para reflectir uma socedade, mas não é uma forma tipo Bíblia ou Corão, que possa incluir todas as soluções, quer espirituais quer materiais de forma dogmática e estacionária. No socialismo não há mudanças e quando as há é para importar o mais perverso do capitalismo.
Não faltaram alertas à sua geração, e mesmo à anterior, sobre o marxismo. Já se tinham publicado livros sobre as purgas, os gulag, a inexistência de liberdade e intelectuais de nomeada no Ocidente demarcaram-se do comunismo.
Sim. Aqui, quando algumas pessoas como eu agarraram nesses livros e os entregamos a pessoas que mandavam, vieram ralhar comigo. Que era contra-revolucionário. Havia pessoas com a cabeça quadrada e outras que utilizavam o marxismo para roubar. O marxismo servia para tudo aqui. Sob o olhar silencioso de Lénine. O problema de fundo é que nós não tivemos pensamento, no sentido de cientistas políticos ou pensadores políticos, como o PAIGC teve o Amílcar Cabral, mesmo o próprio Mondlane ou Samora Machel em Moçambique. É só juntar os discursos do Samora Machel e ver como é que um enfermeiro é um grande pensador. No livro do Óscar Monteiro, que eu fiz a contracapa, há uma parte em que os portugueses estão a bombardear imenso, a matar muita gente, e o Samora faz uma reunião alargada com os quadros todos, os intelectuais estavam todos lá, tinham poucos mas estavam lá todos, no MPLA sempre houve chatice com os intelectuais e divisões (Revolta Activa, etc., etc., etc.). Os intelectuais ponderaram que era preciso mudar a estratégia, ver como é que se deviam posicionar perante a forte resposta colonial; Samora disse: “O que está a faltar à Frelimo é produzir pensamento, todos nós temos que produzir pensamento, produzindo pensamento vamos vencer”. Isto define uma liderança. Agora, tem um aspecto que é inevitável, a nata do pensamento em Angola estava no MPLA. A pouco e pouco essa nata foi absorvida pelo pensamento dos guerrilheiros, dos maquisards.
Qual era o pensamento dos maquisards?
Era uma via muito estreita e empírica do marxismo-leninismo. Um pensamento igualitário, idealista, impossível de alcançar em qualquer sociedade. Enquanto que os outros já pensavam nos erros do campo socialista, já faziam uma reflexão crítica. É tudo bonito dizer que a gente vai reunir para tomar decisões, mas todos nós estamos a pensar que vamos votar na decisão que o chefe quer. Eu nas primeiras reuniões via as pessoas a correr e de repente estava eu sentado do lado direito da cabeceira do Agostinho Neto e era o primeiro a falar; se dissesse asneira estava lixado. Todos fugiam daquele lugar.
A figura de Agostinho Neto era completamente absorvente?
O Neto era o capitão do navio, um comandante poderoso, ele era  cheio de energia.
A isso chama-se carisma…
Não era só carisma. Era alto astral.
Mas essas qualidades não impediam o surgimento de outras vozes, com outros pensamentos…
Sim. Mas é no tempo do Neto que se sai do marxismo-leninismo. Sem dizer nada. Em Moçambique a Frelimo ainda fez uma pequena declaração antes.
Há quem diga com convicção que a morte de Neto em Moscovo terá resultado dessa guinada que ele faz para o centro do espectro ideológico…
Ele começou a observar que os fenómenos, a prática, não era consoante aquilo que ele teria pensado.
Enquanto autor sente-se realizado?
Não totalmente. Podia ter escrito mais. Aqui em Angola não há uma actividade editorial consequente. Não há livrarias, as pessoas não lêem. Os jornais publicam coisas que não são literatura, transformam os amigos em escritores, as pessoas compram os livros desses autores e depois não compram mais, desistem. Se for a um restaurante e a comida não presta, deixo de ir a esse restaurante.
Para si dá para viver da escrita?
Não. Os direitos de autor que recebo, neste momento, vêem mais de fora. Sempre há um disco. O ano passado correu bem, foram três livros. “Os meninos do Huambo” fazem um bocado de dinheiro, por exemplo. Agora quero publicar os meus primeiros livros de poesia, “A onda” e “Poesia sem notícia”. Tenho várias séries de crónicas. Já publiquei duas em livro, “Maninha” e “As Novas da Maninha”. A primeira série de crónicas foi publicada no Jornal de Angola, “O Kikas e o Kocas”, a falar na problemática da alteração alfabética, da ortografia, já naquele tempo. Tenho umas três séries de crónicas no Jornal de Angola, outra naquele jornal Semanário Angolense. Gostaria de publicar em livro as séries de crónicas que estão no Jornal de Angola, com um texto introdutório de uma pessoa que conheça a história do Jornal de Angola.
Como é que o Diário de Luanda desaparece?
Administrativamente. Estava lá o António Cardoso, que era um stalinista, a dirigir. Aquilo era um coito do Nito Alves. À boa maneira do MPLA, em vez de tirarem o Cardoso e o Nito Alves, fecharam o jornal. Para nunca mais abrir.


27 de Maio: “Até agora faz sentido criar uma comissão da verdade”

Naquela altura Estado e Partido misturavam-se, mas era o Partido a mandar no Estado.
Já havia Estado, Constituição, Hino Nacional, Bandeira, mas para o MPLA era como se isso não existisse. Assim, houve um conflito dentro do Movimento, fizeram uma reunião, que devia ser um Conselho de Ministros, mas fizeram uma reunião do Comité Central, onde expulsaram os chamados fraccionistas, democraticamente, quando o golpe já vinha sendo preparado. Nas vésperas do 27 de Maio de 1977 o José Van-Dúnem queria que eu me encontrasse com ele, queria falar comigo. Se eu me tivesse encontrado com ele também tinha desaparecido.
É verdade que fez parte da chamada comissão de lágrimas? Qual era o seu objectivo?
A tal comissão esteve dois dias a trabalhar. O objectivo era ouvir se pertenciam, se estiveram por dentro da organização (do golpe).
Não tinha também a missão de determinar se as pessoas eram ou não culpadas?
Não. E tudo era gravado pela televisão. Não sei se já deitaram fora as gravações. A gente não estava a fazer relatórios a dizer “mata este”, “mata aquele”. Era uma comissão com lágrima no olho, nós estávamos comovidos com aquilo. O Diógenes [Boavida], o [Ambrósio] Lukoki, eu… Estávamos a ser usados como tribunal à margem da lei. Havia um Estado, fizeram uma reunião do Comité Central, expulsaram os homens quando há a tentativa do golpe de Estado, aquilo devia passar para os tribunais, ou militares ou civis, e não ser resolvido dentro da estrutura da guerrilha. Ao contrário do que muitos dizem, que eu andei a torturar pessoas, começamos é a safar as pessoas. Mas o mundo faz-se disso. Havia pessoas que se queriam promover em Portugal e o protagonismo era a vitimização na imprensa.Tudo foi feito segundo a estrutura da guerrilha e era gravado pela televisão, tudo era instrumentalizado. Quando alguém fosse fuzilado dizia-se que foi para uma bolsa de estudo em Cuba. Usava-se essa expressão.
Depois de tudo isso o que é que devia ter sido feito, para reconciliar verdadeira e profundamente as pessoas no seio do MPLA?
Devia-se ter feito uma comissão da verdade.
Ainda hoje faz sentido criar uma comissão da verdade sobre os acontecimentos que se seguiram ao 27 de Maio de 1977?
Até agora faz sentido. Se não a história vai ficar cheia de mentiras. O Nito Alves vai aparecer como um libertador que foi amputado, quando seria uma desgraça se ele ganhasse. Isto seria um Kampucheia, um Cambodja. Houve essa confusão, o desprezo pelas estruturas do Estado, que se vai agravando consoante a guerra que nós tínhamos, na ilusão de que ela se resolveria com tiros, quando afinal dava jeito para alguns que houvesse guerra. É nessa continuidade que não se inventa um esquema económico de  satisfazer as novas exigências e que se cortam verdadeiramente as comunicações humanas, que ainda hoje estão por restabelecer (estamos a caminho disso). É só com essas comunicações humanas que o feijão pode ir de um lado ao outro, que o peixe seco pode ir para o interior, que os medicamentos podem chegar aos hospitais, sem serem roubados, para as pessoas terem consciência de que estão ao serviço da sociedade e não de meia dúzia de ladrões, em suma, para diminuir as desigualdades. Até à entrada deste novo presidente o povo sabia que a economia estava ao serviço dos milionários. O povo sabe tudo. As empregadas dos mwatas contam aos maridos, os maridos contam aos amigos, estes contam nos candongueiros… O povo é que é a Internet. Internet sem fake news.
Voltando à ideia da criação, ainda hoje, da comissão da verdade sobre o 27 de Maio. Qual seria o formato dessa comissão? Ao jeito da que foi criada na África do Sul?
Já falei sobre isso numa entrevista que dei há anos ao Folha 8. A África do Sul fez isso com coisas muito mais graves do que as nossas.
O ponto prévio seria que todo o mundo que se oferecesse a prestar depoimento teria o perdão?
Nós aqui vamos perdoar a quem? O ponto de partida seria a verdade.
Esse processo deveria ser dinamizado sobretudo pelo MPLA?
Sim. E não seria assim tão difícil.
Qual seria a saída para toda essa crise económica e social, com fortes raízes éticas e morais, em que nos encontramos?
A saída seria um socialismo democrático. Não impedir o crescimento da riqueza. As pessoas que têm propriedade privada que a desenvolvam. Essa economia está dependente disso. Está provado que o Estado não pode ser produtor. Mas reservar áreas da economia para o Estado. Áreas que são propriedade do povo. A água é propriedade do povo. Antes de haver MPLA, antes de haver independência, e se este é o continente-berço, antes de se inventar Deus (Deus foi inventado no continente-berço), a água era do povo. Num dos meus contos eu falo nisso. Há áreas que no meu entender não podem ser privatizadas. A água, a energia eléctrica, a indústria diamantífera, os petróleos… Portanto, as infraestruturas de base. Nós só devíamos poder pagar o custo da água acrescido de um milésimo, porque a água custa para chegar às nossas casas. A energia eléctrica também. Mas podemos fazer tabelas diferentes. Lá onde o dinheiro vale mais, por exemplo no Huambo, o preço tem de ser diferente. As cooperativas agrícolas. Os silos. A população produziu, entrega o seu milho, o seu feijão, parte é guardado, parte é comprado e tem as lojas para comprar panos, tem as farmácias… Portanto, há uma economia privada de cariz eminentemente capitalista que visa o lucro mas é controlada, há zonas comerciais com os preços controlados e tratamento fiscal especial, por exemplo os medicamentos não pagam impostos, para serem baratos. O ensino gratuito com livros de graça até um determinado nível e a entrada nas universidades por critérios de meritocracia. Na Universidade já há uma ligação com as empresas e estruturas do Estado. Evita-se a concorrência desleal. Eu sou ministro, agarro no telefone e digo: “Olha, arranja-me um lugar no Ministério das Finanças, o meu filho formou-se em economia”. No tempo antigo só faltaria acrescentar: “Eh pá, o gajo também quer roubar um bocado”. (Risos).
O que pensa de todo esse processo de discussão sobre a implementação das autarquias?
O tempo que se quer dar para fazer autarquias, 10 anos, é muito tempo. Actualmente o poder local nas províncias são pequenos feudos. O governador manda mais do que toda a gente e até pode mandar matar uma pessoa indirectamente.
E a sua opinião sobre a legislação de repatriamento dos activos obtidos ilicitamente? Todo o mundo devia ir para a cadeia?
Acho que ninguém devia ir para a cadeia. A solução do Presidente actual é sábia, resolver os problemas na justiça sem fazer a divisão física entre os cidadãos. Há famílias poderosas que vão ficar incomodadas. Os milionários têm o seu séquito. Cada milionário tem a volta de si umas três mil pessoas. É preciso evitar que a sociedade se deflagre por causa dos actos ilícitos mas que foram consentidos por quem mandava.  As pessoas não foram com uma espingarda ou uma bomba roubar a caixa forte de um banco. Tiraram com a consciência de que era ilícito. E isso de tirar em cima vinha até cá abaixo, onde só se podia pedir uma gasosa. Penso que esse dinheiro tem de voltar para cá mas para ser aplicado em infraestruturas, hospitais, escolas. Se o dinheiro vem e fica nas mãos deles lançam no mercado e vamos todos comprar os dólares. Ou o dinheiro vem e depois dizem-lhes: “você vai fazer uma fábrica de chouriço?” Isso é absurdo. Aliás é absurdo devolver o roubado ao ladrão. Veja o caso Lava Jacto no Brasil. E é preciso fazer a prova e dar o contraditório para não ser inquisitorial. Não me incomoda muito o que foi roubado, mas o que vamos produzir. Agora estamos todos à procura de ladrões. Eu não estou a pensar num Estado-Polícia. Já perdemos o medo de falar. Nos jornais isso vê-se, até no vosso. Agora não vamos inventar outros medos. Um sistema fossilizado é como um balão. Tem de ser esvaziado cuidadosamente para não rebentar. Veja, os garotos compram nos armazéns dos estrangeiros que arranjaram licenças pela mão de agentes do Estado, para venderem na rua, as quitandeiras compram legumes e frutas nos camiões, os medicamentos andam nos mercados. Basta cortar um elemento do sistema, por exemplo, os armazéns, para os miúdos não terem nada para vender e se parar as quitandeiras deixamos de ter a comida à porta (forma subtil de obrigar as pessoas a irem aos grandes espaços propriedade dos donos disto tudo)…
O facto de já haver pessoas detidas faz-lhe pensar em quê?
É impensável, nem em ficção, no romance, eu escreveria que um Fundo Soberano, que é equivalente à Reserva Federal dos EUA, seja entregue a meia dúzia de jovens para gerir. Fazer isto é um crime. Ainda por cima a um filho. Você é presidente de uma República e não vai entregar o Fundo Soberano a um filho. Entregar a gestão da maior indústria que sustenta esta economia, que é o petróleo, a uma filha; a comunicação social a outro filho. Isto tem nome. O outro comprou um relógio a 500 mil dólares. É igual ao Obiang. Aquele relógio do Obiang, filho do nosso ilustre parceiro na CPLP. Mas eu peço desculpa a Dos Santos porque está fragilizado. Ele deveria ser o primeiro a vir a público falar dos erros, porque se se vai melhorar o que está bem é porque no seu consulado também se fizeram coisas boas. Dos Santos deveria voltar à sociedade civil, fazer conferências em universidades, falar com o povo, ter um programa de televisão sobre as suas memórias.

João Lourenço versus Dos Santos

É possível comparar esses dois homens: José Eduardo dos Santos e João Lourenço?
Primeiro no perfil do pensamento, este homem [João Lourenço] estudou História, compreende melhor uma filosofia política de acção, e é marido de uma cientista de economia que já esteve no FMI… Quanto a Dos Santos fico por aqui porque não é positivo falar de pugilistas tombados no ringue, com o desmoronar da sua família seria mais um acto de crueldade. No entanto, sublinho  que  João Lourenço foi um opositor mas com uma consciência dos passos que devia dar. São pessoas totalmente diferentes. Um tolerou ou fomentou o nepotismo, a corrupção e a miséria do povo, o outro é contra o nepotismo, contra a corrupção e diz-se empenhado em resolver os problemas do povo. Isso é interessante. Na fenomenologia política isso é inédito e deve-nos honrar. Dentro do seu próprio partido fazer mudanças que correspondem a uma revolução e as próprias pessoas do partido aceitarem a ideia anti-corrupção, quando algumas delas são parte activa nesse fenómeno da corrupção. Mas isso é saudável porque tem uma inspiração da tradição africana. É bom chamar os mais velhos e traçar um plano de solução que satisfaça os interesses da maioria. Claro que 99,9 % do povo está de acordo com o Presidente. As pessoas que não têm poder, porque  as que têm muito poder económico nem todas estão de acordo com ele, há algumas que já não sabem quando é que roubaram ou quanto é que não roubaram. Mas temo que a questão do regresso da riqueza não vá a bom porto. Por mim era daqui para a frente.
Não haverá um risco de desestabilização por parte da franja que sendo minoritária tem poder real?
Têm poder real e isso é que tem de ser controlado.
Como?
Lembras-te da figura do Tanu, que sem querer tinha poder económico no Quilombo? Mas o Zumbi tinha o poder político. O Tanu é que tinha razão. Se Zumbi o tivesse deixado fazer o que queria, ir pelas encostas atrás dos fazendeiros, a coisa teria sido diferente. E além disso este Presidente é um homem que não cultiva a “estabilidade”, a paralisação, como o outro. As coisas estavam todas em águas mornas. Inaugurar no fim do seu governo obras que ainda não estavam acabadas! Fazer coisas que me parecem inócuas; assim que começou o processo eleitoral o governo devia ser só de gestão corrente e não fazer leis para depois de sair, criar imunidades para si próprio! Não é possível comparar essas duas pessoas.
Como é que vê o futuro deste povo, deste país?
Com optimismo. Por tudo aquilo que a gente já passou, aqui em África não há um país com a estabilidade como a nossa. Posso ir de noite daqui até ao Namibe, daqui até ao Huambo, desde que a estrada me deixe. Já fui de noite daqui até ao Uíge. No Quénia não é possível. Eles têm pequenas aldeias com bares e prostitutas, os camiões ficam ali parados até de manhã, não se viaja à noite. Na Namíbia também já está a ficar assim, na África do Sul está assim há muito tempo. As pessoas querem vir para cá.
Está a advogar a ideia de que os angolanos são especiais?
Não somos especiais. Tivemos uma história diferente. Uma colonização de 500 anos que nos pôs a falar a língua do invasor tal como ele fala ou melhor. As lutas dos reinos contra os colonos. As primeiras revoltas nas minas sul-africanas foram comandadas por um angolano, kwanhama. No Sul os portugueses levaram muita tareia, os kwanhamas nunca pagaram imposto, até ao fim do colonialismo. É todo esse tipo de trama, das lutas, da revolta da Baixa de Cassanje, do 4 de Fevereiro, é o Savimbi que tem a coragem e a filosofia maoísta de se encontrar com os portugueses para negociar, a avalanche toda da poesia de Neto, do Viriato da Cruz, etc., etc., em paralelo com os grandes poetas da Negritude que estava a acontecer em França, é a origem do MPLA, por exemplo, em que os estudantes fogem de Portugal para depois descerem para o Marrocos para fazer treino militar e ir para a guerra… Tudo isso é diferente de receber a independência através de um papel. Fazendo a soma disso tudo, aí está a nossa endurance, que faz de nós a única ex-colónia que vai bater o pé ao ex-colonizador. Chegar lá e dizer, “o meu processo não fica aqui, vai para Luanda”. Tudo isso aponta para a singularidade deste país, mas também para a singularidade do Magreb, da África do Sul, etc., etc. Outro fenómeno é a liberdade religiosa. Não troco este país por outro.

 *Esta entrevista foi originalmente publicada na edição de 11/11/2018 do Jornal de Angola.

ESCRITOR MANUEL RUI: “A minha escrita é uma busca da oratura”


Isaquiel Cori

No quadro de uma abordagem a Manuel Rui que se prolongou no tempo (com várias conversas ao longo de mais de três meses) e que a publicação do seu último romance, “Kalunga”, iria concentrar as atenções, se foi cristalizando na minha mente a intenção de revitalizar a ideia concretizada em “Pessoas com quem falar I” (UEA, 2004) – co-autoria com Aguinaldo Cristóvão – um livro que reúne entrevistas a escritores angolanos. Enviei uma bateria de perguntas a MR e ele as respondeu com a maior gentileza e boa vontade. Parte deste diálogo está publicada na edição de 11/11/2018 do Jornal de Angola e publico-o aqui na totalidade, neste blogue que também é um arquivo. Vai chegar o dia, tenho fé, em que tanto esta conversa com MR como outras com outros autores constantes agora e posteriormente neste blogue serão publicadas em livro. Refiro-me a autores consagrados ou não, velhos ou novos. “Escutemos” MR a propósito do seu romance “Kalunga”.


Qual é a génese deste romance? Como é que a ideia dele lhe surge?  Tem a ver com o Hino Nacional, de cuja letra é o autor?
Foi a necessária desconstrução das invasões a que chamaram Descobrimentos. Era um encontro sobre as antropologias nossas, a dos saberes escravizados, o epistemicídio ou genocídio de nossos saberes ancestrais, a necessidade de eliminar a linha abissal e lutar por uma ecologia dos saberes. Cada um comprometeu-se a produzir um texto para uma revista. Atempadamente enviei o meu que se intitulava “Roteiro para romance oral num terreiro de candomblé em Salvador.”
Era uma poética sobre a minha enigmática existencialidade cruzada com a de uma mãe de santo descendente de escravos idos daqui. O texto não correspondia à intencionalidade científica da revista. Ainda bem. Descaracterizei mais ainda as poucas pontas de cartesianismo e fui para um grande congresso da Universidade da Bahia, extensão de Seabra, muitos participantes e cerimónia de abertura com hinos nacionais de cada país. No dia seguinte apresentei o meu texto para uma pequena multidão em arquibancada ao ar livre. Foi um sucesso de emoções e a maioria de alunos e professores eram negros. Outorgaram-me o título da comenda Jorge Amado. No texto eu aparecia vivendo num terreiro de candomblé. Ali estava uma mãe de Santo de Salvador que integrava o Conselho Científico da Universidade. E o que eu narrava no meu roteiro, tornou-se profecia. Fui para o terreiro da mãe, no Engenhão, favela de Salvador onde naquele alto existira antigamente um engenho de escravos fazendo açúcar. Passei lá, com minha mulher, quinze dias. No romance, quando Tanu, o chefe dos guerreiros que no início se chamou Elavoco, esperança em umbundo, se alberga num escondido terreiro de candomblé, pede à Mãe papel, pena e tinta para escrever rascunhos. São aquele roteiro antigo agora retransformado com todas as interrogações entre ele e a mãe, como eu, nossas distâncias e proximidades. A Mãe não aceitava notas de rodapé para o cartesianismo não contaminar os nossos mistérios.
O drama existencial que eu impunha ao texto em diálogo com a “Mãe de Santo,” eu e ela “produto” do mesmo opressor que ao mesmo tempo nos obrigou a estarmos unidos por um fosso a desvendar pelo lançar os búzios no ritual do candomblé. E o que falava no texto, viver quinze dias num terreiro, havia de acontecer como se de uma profecia e seu cumprimento se tratasse.
Não tem nada com o Hino Nacional, que é a afirmação vitoriosa da identidade em construção, o amor pela nossa terra, pela paz e pelo progresso, depois do dilúvio. Em Kalunga, é durante o dilúvio eu e a Mãe demandando nossa e nossas existencialidades, descobrindo o que não foi escrito ou foi mandado escrever de forma a que o maior crime da humanidade fosse apresentado como uma glória civilizacional de expansão da cruz e da espada.
A linguagem adoptada pelo narrador em Kalunga é substancialmente diferente da usada noutros romances seus.  A que se deve essa estratégia de escrita tão diferente dos seus livros anteriores?
Entendamos que o tempo em que a humanidade viveu sem escrita é desde o infinito ao contrário. Quer dizer que logo que o homem descobriu a fala, nasceu a comunicação. Ainda sem escrita o ser humano tinha linguagem, único modo de ser do pensamento, sendo a língua a parte social da linguagem. Escrevo no berço da humanidade, portanto, onde primeiro se pensou o sobrenatural como os Deuses, os ancestrais e formas de com eles se comunicar (como as senhoras da casa fonte espiritual da embala e conselheiras do soba Lukamba). É um tempo com imensa acumulação de pensamento ancestral, transmitido de geração em geração pela palavra que dá a arte de contar pela criatividade e memória. A minha escrita é uma busca da oratura, escrevo como se estivesse a contar e o meu leitor me oiça como vozes de silêncio com todos os possíveis elementos para a linguagem se sobrepor à escrita. Eu, narrador, escrevo palavras em umbundo sem notas de rodapé porque os significados descobrem-se dentro da própria narrativa, pelo significante. Em Kalunga estou a falar escrito sobre o que nunca foi escrito. Então, eu posso assumir a minha imaginação para rearrumar o caos em que o invasor me colocou. Penso não tratar-se de uma estratégia de escrita mas de uma escrita que se deixa, aparentemente, levar por si, com mistérios, símbolos e a preocupação de segurar o leitor pela poética do vento ou do luar com os ritmos das línguas originárias.
Teve algum trabalho prévio de presquisa documental ou outra antes de começar a escrever Kalunga?
Muito. Ainda guardo imensa papelada. Óbvio que para falar do Quilombo dos Palmares e do Brasil da época informei-me à exaustão sobre aquela figura de descendentes de angolanos e que nunca havia sido escravo. Devo dizer que tracei um plano que depois se foi destruindo pela caminhada de cada personagem mas ainda antes do primeiro terço “desenhei” os capítulos. Daí para a frente vivi até a respiração de cada personagem, inspirei o aroma do mato, falei com elefantes e bebi água cantando por entre as pedras.
Os personagens Tanu e soba Lukamba são baseados em personagens históricos ou são inteiramente fruto da sua criatividade de escritor?
São de minha invenção mas muitas outras personagens terão existido com mais valor, coragem e determinação. Repare, cada personagem pode dar um missosso, uma estória, como o rio Kwanza, os seus filhos, afluentes, cada um tem uma narrativa que desagua no romance. Na oratura há também a repetição para frutificar a memória. Também aqui no Kalunga. E tem o misterioso mergulho de Tanu e a sereia de Kalandula, depois, no fim do romance, Tanu é a invisibilidade de um espírito superior que faz elevar-se do mar Iemanjá, deusa das águas, enorme e iluminada para temor e estupefação dos soldados e fazendeiros. Aliás, importa comparar os dois quase estereótipos de filosofia revolucionária que decorrem do pensamento de Tanu – que veio resgatar seus pais – e de Zumbi que pretende construir a primeira república multirracial do mundo. Os angolanos conseguiram viajar livres num daqueles barcos de escravos tendo para isso corrompido o comandante da embarcação com pepitas de ouro. Tanu e seus companheiros desembarcaram com uma quantidade de produtos que nem um armazém de um grande fazendeiro. Chegaram com poder económico em contradição com o poder político de Zumbi. Tanu queria atacar os fazendeiros, montar emboscadas. Zumbi, pelo contrário, tinha argumentos, não autorizava que os angolanos desencadeassem operações militares. Parece que Tanu tinha razão…
Tanto na história como no seu romance ressalta a relativa “facilidade” com que o cristianismo foi adoptado. A visão e os valores do cristianismo seriam mais fortes e atractivos que os das religiões ancestrais africanas?
Primeiro temos de falar em escravo, trabalho escravo e escravatura, pois uma das “lavagens” do crime é dizer-se que quando os invasores chegaram já os africanos tinham escravos. Escrava é qualquer pessoa forçada ao domínio de outra e privada da sua liberdade ou prática social em que um ser humano tem direito de propriedade sobre o outro. Aconteceu em vários continentes depois das guerras os vencidos ficarem a trabalhar para os vencedores, em regime de escravatura. Mas nada de confusões porque em Kalunga não é de escravatura que se fala mas num sistema: o esclavagismo, também designado por Holocausto da Escravidão ou Maafa (grande desastre) em língua suaili. O sistema tinha estruturas e estabelecia a escravatura como parte fundamental da sua organização económica. Outras estruturas são as artes náuticas para o efeito aperfeiçoadas, a logística e o apoio da Igreja, principalmente da Ordem dos Jesuítas. Singular e único foi o transbordo massivo de milhões de pessoas arrancadas do seu continente para outros. Estima-se que quinze por cento terão morrido na viagem ou seja, entre 1500 e 1900 cerca de quatro milhões. Entre 1440-1640, cerca de duzentos anos, os portugueses quase tiveram o monopólio da escravidão. O cristianismo foi imposto e a inquisição queimava na cruz do seu tribunal quem não rendesse obediência ao Deus cristão. Esta deslocação massiva e forçada de populações para outros continentes para serem espalhados por plantações ou minas, redunda na destruição de suas identidades e a corajosa reinvenção de uma nova maneira de ser e estar.
A religião é adoptada quando é imposta e está ligada ao poder. O mesmo se passa com as línguas. A língua portuguesa foi imposta. Mais tarde, já no séc. XIX, angolanos letrados apropriam-se da língua. E hoje é a língua dominante porque é a língua do poder. Quem não souber falar português dificilmente arranja emprego numa cidade. A história deve ser contada e não mandada escrever. A África, os seus filhos roubados foram a base da acumulação primitiva de capital, primeiro passo para esta globalização. Estou a escrever isto e a lembrar-me, arrepiado, do bisneto do soba a quem haviam levado de escravo o filho e a nora. Falava o miúdo que se o mar fosse por terra ele ia lá resgatar a sua avó e o seu avô.
A época africana pré-colonial parece um filão para a imaginação literária, na medida que quase tudo se confunde com os mitos. Obras muito bem conseguidas ambientadas nesse período são “A Konkhava de Feti”, de Henrique Abranches e “O Feitiço da Rama de Abóbora”, de Cicakata Mbalundu (Aníbal Simões). Em “Kalunga”  a Mbanza Lukamba ainda pode enquadrar-se no tal período. Quais são os desafios que no seu caso encontrou para dar vida a cenários, rituais, hábitos e costumes de comunidades daquele período?
Tudo é um filão para a arte. Uma simples lágrima. Uma pacata, mítica e simbólica família de elefantes. Em Kalunga era preciso a força da natureza, a cumplicidade da chuva e da noite, o “caminho das estrelas.”
A intenção de imaginar sobre a imaginação da arte de contar e usá-la como instrumento de luta. Assim faz Tanu cada vez que conta o destino dos portugueses que o soba negociou a liberdade comprando o silêncio sobre a embala. Uma vez foi a caravela (o outro que é preciso conhecer) que se partiu num rio com os cadáveres dos marinheiros pendurados em embondeiros; outra o comandante e seus homens com o ouro que o soba lhes deixara levar, instalam-se nos subúrbios de Loanda e acabam em prósperos comerciantes. Desta vez a sobreposição de missosos. Afinal a oficina da escrita é o laboratório interior das palavras que podem ser posicionadas como artistas de teatro num palco e representar o papel que eu laboro a cada instante.
Há um imenso aproveitamento narrativo da natureza, do ambiente. A floresta, com a  sua fauna, além de cenário das acções humanas acaba também por ser personagem com vida própria. Isso era inevitável, já que estamos a falar de sociedades muito marcadas pela ruralidade e  praticamente recolectoras?
Não é um aproveitamento mas uma navegação pela existência, a profundidade da vida reconhece-se pela beleza. E só há beleza se houver quem a sinta. Contra as caravelas, as armas de fogo e todo o arsenal esclavagista, a idiossincrasia dos Elavoco é demasiado poderosa pelas alianças naturais. É preciso espíritos como os de Kativa ou os da terra sem nome. A sabedoria ancestral contra a força bruta. Os elefantes são inimigos dos invasores e ensinam caminhos aos Elavoco. A cadela pisteira é uma divindade e a sua morte é celebrada como se de uma pessoa se tratasse, um óbito e procedeu-se a uma matança de todas as cobras que possível foi encontrar no capim da embala. Também os sucessivos cágados, reserva de saber que emite sinais magnéticos ao seu dono.
A expansão ocidental, no romance personificada pelos portugueses, o tráfico negreiro transatlântico, a aculturação e o declínio das sociedades africanas… Aquilo que alguns chamam a primeira globalização. Uma das consequências humanas dessa globalização é a mestiçagem, que tanto marca o Brasil como Angola. Apesar do estranhamento inicial (veja-se o caso do bebé Ousio, no romance) a mestiçagem é um enriquecimento da humanidade. Pode comentar?
O que aconteceu com o nascimento da menina filha do pajem do capitão invasor rendido e de uma rapariga da embala é outra simbologia para a temperatura mental de Lukamba… mais a novidade dos olhos da menina. Para o soba eram duas pessoas e mais uma terceira, como acontece nas flores diferentes mas flores.
Agora, se eu posso comentar. Estou-me a rir porque se eu não existisse não existiria este romance Kalunga! Nada! Podia ser escrito por um escritor albino. Aliás, mais importante que o espermatozoide e o óvulo é a mestiçagem entre culturas. Aproveito para lhe recordar que a mãe de Santo revela a Tanu que o pai dele deixara uma filha da barriga da filha do patrão, igualzinha à menina que ficara na Lukamba. Só que jamais Tanu poderia vir a conhecer a sua irmã que frequentava nobres salões de piano. Mais ainda, era tudo um círculo invisível porque fugia simbolicamente da soldadesca e fazendeiros que viam nele um “feiticeiro” e depois porque Tanu era um espírito. Um espírito que fez erguer das águas o meu Orixá para o deslumbramento de todos a olharem Iemenjá que abria um clarão de luz no céu.
Este romance traça um percurso memorialístico de ida aos primórdios da história para tentar não só compreender algo mas também construir algo. Esse algo é a identidade nacional?
Mais do que isso. Um monumento a erguer ao escravo… uma boa parte dos grandes palácios erguidos em Portugal, Brasil e não só, têm suor e sangue de Angola.
Na forma como os portugueses cativos são tratados pelo grupo Elavoco e nas falas do padre Matias fica patente que as relações entre as pessoas e os povos está sempre mais um passo a frente das entre os Estados. Sente que isso ainda hoje é verdade?
Sim. O mundo não são as duas guerras mundiais e as dos dias de hoje nem dos homens que as inventaram. O mundo é Gandhi, Cristo, Mandela.
“A língua portuguesa é uma vitória que não podemos negar e há-de ser importante quando no futuro já não estivermos cá, podermos fazer a guerra com palavras”. Essa premonição, na sua opinião, concretizou-se?
Sim. A língua não é propriedade mas posse, usufruto. E com ela pode-se traçar uma marca de linguagem para que ela se localize num espaço. Abra o Kalunga e percebe que é um romance angolano em que a língua é só a parte social da linguagem.
Sei que Kalunga tinha muitos mais capítulos e teve de eliminar alguns. Isso por exigência do editor ou vontade própria do autor?
Vocês sabem tudo. Não direi mais capítulos mas texto. Foi depurado. Faço sempre. Dois editores quiseram tocar em textos meus e mandei-os para antes do parto. Queriam “corrigir” o meu português. Eu que escrevo o português de “lei” melhor do que eles.
Os portugueses trouxeram a escrita, a Bíblia, as armas de fogo, aguardente… em troca de escravos, marfim, ouro… Excluindo os escravos, hoje passados vários séculos parece ter mudado pouco essa lógica comercial… O que se lhe oferece dizer?
Deixe-me rir! Meta-se num avião e vá corromper um procurador tuga! Está diferente…
Não fosse a escravidão, factor que degradou historicamente as relações entre europeus e africanos, a existência em África, tomando como exemplo o Reino de Lukamba, teria sido idílica?
Não se pode voltar ao antes de. E se Hitler não tivesse existido…
O padre Matias aparece cheio de bondade, uma espécie de colonizador “relutante”, mas sabe-se que a religião foi um dos agentes mais eficazes da penetração e dominação coloniais. A construção desse personagem reveste-se de uma perspectiva irónica?
O padre Matias é o símbolo dos portugueses e religiosos que se opunham ao sistema. O símbolo dos homens de bem. É também um espírito a povoar o diário que contava a história verdadeira e foi destruído bem como o acervo de medicina ervanária também queimado pela imbecilidade dos jesuítas, simboliza também livro de ervanária, o respeito pelo outro para que possamos ser todos nós.
Para quem escreve? Para si? Idealiza um leitor?
Primeiro para mim. Para meu prazer. Depois para prazer dos leitores, uma espécie de orgasmo devolvido. Como disse no lançamento: Agora costumo conversar com o romance. Antes do fim, quando o escrevia, cheguei a pensar que deveria morrer e o romance ser concluído por outra pessoa. Afinal era um resgate para sempre incompleto, estou a ver as caixas de ervanária, os calhamaços com memórias que o padre encadernava e continham a quase verdade verdadeira da escravatura como prática e o esclavagismo como sistema. Converso com o romance e, nos rascunhos, a mãe lançando os búzios sobre a mesa de toalha branca, o búzio que caiu ao chão e Tanu, como eu não apanhou. A omissão de dizer à mãe que lá em Angola os búzios eram moeda, os zimbos e com eles se compravam e vendiam escravos que eram trocados por ouro com que também se trocavam escravos. O vértice daquilo tudo era o português. Eu agora mesmo, aqui, a conversar com o romance, o barco, o mar e a capoeira. E os mistérios. Os dois bornais cheios de pepitas de ouro que Tanu deixou nos aposentos lá no terreiro onde se escondera da perseguição da soldadesca dos fazendeiros, o governador do Recife que mandara cortar a cabeça de Zumbi, espetada num pau e exposta numa praça para os fazendeiros verem. E a cabeça a desaparecer para susto dos brancos. Zumbi era um espírito. Como Tanu. E eu aqui a lembrar-me do princípio do primeiro rascunho escrito por Tanu que não sei se ainda existe lá no terreiro da Mãe de Santo. E lembro-me que dizia assim: (1º rascunho) “Eu nunca devia ter atravessado o Oceano Atlântico para arranjar maneira de me ensarilhar e perder uma parte da minha já pouca felicidade por me descobrir em transbordo de mistérios do reverso de minha reinvenção ancestral, do outro lado do mar moradia da Kianda e da sereia de Kalandula. Isto será o fim do romance sem princípio. AXÉ!”
Uma curiosidade particular: as mocas - uma espécie de armas de arremesso - que são usadas no romance, existiram mesmo?
Ainda existem. Eu já tive uma coleção mas depois fui oferecendo… O caçador leva a zagaia, as flechas, uma moca e à cinta uma faca com bainha de pele de uma cabra do mato, por exemplo.
                                          FOTO DE: PAULINO DAMIÃO "CINQUENTA"

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

O QUE É QUE JOÃO LOURENÇO VAI FAZER DO MPLA?


Isaquiel Cori

Vem aí o congresso do MPLA. A actual situação de bicefalia, com um Presidente da República que não é o do MPLA (ou um Presidente do MPLA que não é o da República) vai finalmente acabar. João Lourenço, candidato único, vai ser eleito presidente do MPLA.
Essa bicefalia que vai chegar ao fim tinha todo o potencial de dar perigosamente para o torto. Tal não aconteceu, a meu ver, porque José Eduardo dos Santos velho, cansado e doente, não tem mais o ânimo para envolver-se em extenuantes articulações políticas e não goza do respeito nem do medo que infundia na maioria dos dirigentes.  
JES fez do MPLA tudo o que queria. Rarissimamente foi contestado, a sua vontade era unanimemente caucionada. A famigerada política da acumulação primitiva de capital, cujos resultados demandam agora uma cruzada contra a corrupção, não foi concebida no calar da noite, na clandestinidade.
Foi proclamada como uma política de Estado. E diria mais: foi uma opção de regime. Muitos ganharam com essa política, seja através de transferências directas de benefícios económico-financeiros, seja através do aproveitamento oportuno (estar no lugar certo, no momento certo) do ambiente e da mentalidade do “salve-se quem puder” típicos da correria desenfreada e amoral pelo enriquecimento. (O fenómeno da “acumulação primitiva de capital” está devidamente descrito na literatura científica).
JES não esteve sozinho. Teve o apoio total no Estado e no partido MPLA.
A minha maior curiosidade relativamente ao próximo congresso do MPLA é saber a natureza do partido que dele vai emergir. O partido que endeusa o seu presidente, com dirigentes dispostos a passar-lhe cheques políticos em branco a troco de favores pessoais e de benefícios económico-financeiros? Ou um partido com dirigentes individualmente tão corajosos como o seu presidente e por isso sem medo de eventualmente o contrariar? A coragem de João Lourenço vai medrar e fazer escola no seio dos dirigentes do MPLA ou vai confinar-se só e unicamente a ele?
E mais do que tudo isso: com que tipo de partido o novo presidente do MPLA vai querer contar? O que é que ele, na verdade, pretende que o MPLA seja? Ou melhor ainda: o que é que o presidente João Manuel Gonçalves Lourenço vai fazer do MPLA?



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

UM PASSEIO PELA BAIXA

Isaquiel Cori
                                                            

Quem como eu gosta de deambular por aí incógnito pela cidade, a apreciar a paisagem urbana e a fauna humana, depara-se com mil e uma cenas ora caricatas, ora dramáticas, ora até mesmo trágicas.
A dinâmica urbana luandense oferece, aos mais atentos, que não se deixam mergulhar inteiramente na urgência do quotidiano, momentos de autêntica revelação. Há dias fui caminhando pelo perímetro da sede da Sonangol, o Monumento ao Soldado Desconhecido, o Museu da Moeda, o Hotel Globo, a sede do Governo Provincial e a Mutamba, à hora do almoço, num desses dias de sol fraco, a cheirar chuva, e um sentimento de nostalgia me foi invadindo, a noção que tinha do tempo recuou para muitos anos atrás e lembrei-me de quando, muito mais moço, vinha à Mutamba.
Naquela altura a viagem a partir do meu Kassequel do Lourenço era feita a pé ou ensanduichado no autocarro “25”, que ia sempre, mas sempre mesmo, atulhado de passageiros. Não éramos tão "evoluídos" semanticamente: muitos de nós referiam-se àqueles meios automotivos como "maximbombos", sinal de que ainda estávamos muito próximos culturalmente das nossas origens rurais.
Ir à Baixa, para nós da periferia, era um acto de suma importância que levava a um ritual de preparação higiênica, ao uso de roupas lavadas e engomadas e de calçados bem limpos e engraxados. Andávamos pelo centro da cidade com o maior cuidado, para evitar ser atropelados pelos carros nas vias praticamente sem engarrafamentos.
Tudo convergia para a Baixa. A Mutamba era o núcleo duro de Luanda, a zona mais sofisticada e cosmopolita, o farol de Angola. Para tirar fotos tipo passe, fotocopiar documentos, tratar o Registo Criminal, frequentar um curso básico, procurar emprego… para quase tudo o que a burocracia exigia, ir à Baixa era como a morte: o dia de fazer a viagem para lá chegava sempre, mais cedo ou mais tarde.
Hoje o estatuto urbano, administrativo, burocrático e político da Baixa mudou substancialmente. Outras centralidades diluíram a sua importância mas continua a ser um destino obrigatório diário para milhares de citadinos. Basta referir como prova, dia sim e dia não, ou dia sim e dia sim, os engarrafamentos matinais e vespertinos.
Empresas e fortes grupos de interesse imobiliário fizeram erguer, com vista para a baía, sufocando ou destruindo edificações antigas com muita história e estórias para contar às novas gerações, prédios desenhados em série num atelier qualquer de arquitectura deste planeta global, sem a mínima absorção da visão de mundo local.
De facto, a Baixa está completamente mudada. Os edifícios são tão altos que chega a ser impossível enxergá-los de baixo ao alto: os novos prédios são “outros” habitantes da cidade, quais dinossauros espelhados e petrificados apanhados na vertigem de um fugaz e insanável cataclismo.
A fauna humana também está mudada. À hora do almoço, além dos vendedores ambulantes, os rapazes que indicam lugares para estacionar, as zungueiras que se sentam à sombra dos prédios com as suas mercadorias e das kínguilas disfarçadas de vendedoras de cartões de saldo de telefone, vejo jovens vestidos a rigor - fato e gravata - a andarem em grupos em direcção aos locais onde almoçam. São funcionários de grandes empresas, com ar nitidamente próspero e seguros de si mesmos.
É muito raro ver crianças abaixo dos cinco anos no centro da cidade, sinal de que a maioria das famílias passou a viver nas zonas da periferia. Velhos, muito menos, sumiram completamente: o centro da cidade está tomado por jovens, uns desvalidos da sorte, outros nas asas da aparente prosperidade. Maior contraste não poderia haver.
Deambulando por aí, na Baixa luandense, entretanto, ainda é possível visionar locais em que o ontem e o hoje se encontram e convivem pacificamente um ao lado do outro, ou até mesmo misturados. É o caso da zona dos Correios, em que o velho edifício público reabilitado mantém perfeitamente a forma antiga ao lado de prédios novos, modernos.
Daí, cidadão incógnito entre o prédio da Marinha, também reabilitado, e o Monumento ao Soldado Desconhecido, olhando para a baía, vêem-nos à lembrança canções antigas que falam de uma Luanda com ecos festivos a prolongarem-se pela noite e Ilha adentro, e ressonâncias de velhas e saudosas alegrias no caminho da praia a confrontarem o tempo, a morte e a própria vida.


LUIS VISCONDE OU QUANDO A MÚSICA FAZ SONHAR


Isaquiel Cori

Nessa de tirar proveito das adversidades, transformar o negativo em positivo, na esteira das teorias motivacionais - ou de auto-ajuda - de que o país já conta com alguns palestrantes de monta, estava eu no engarrafamento de Luanda debaixo de chuva e pus-me a escutar um CD de música angolana antiga. Cismei imediatamente com “Chauffeur de praça”, de Luís Visconde. Passei então toda a viagem a escutar repetidamente essa música.
O resultado foi ficar completamente imerso na canção, cuja letra, simples como tudo o que é bom, fala de um jovem que tinha pressa de ver a amada que vivia num “subúrbio” de Luanda. A canção põe-o a mandar parar um táxi, todo ansioso, como aliás qualquer apaixonado estaria. O chauffeur, hoje chamamos motorista, reclamou quando soube que o destino era o “subúrbio”. E não era para menos. Já naquele tempo Luanda quando chovia era um desastre. O subúrbio, aqui tiro as aspas para o chamar musseque, depois de uma carga de água ficava atravessado por riachos que depois formavam lagoas nas vias de acesso. O trânsito automóvel (que não se compara com o de hoje) era penoso, só os mais corajosos se atreviam a meter lá o seu carro. Os taxistas fugiam. Os moradores saíam à rua com botas impermeáveis de borracha e procuravam com todo o cuidado pedaços de solo duro onde pisar. “Tempo chuvoso no subúrbio não vou / Pois sou chauffeur de praça e não barqueiro”.
O refrão  “Se você quer ver seu amor, atravesse a lagoa a pé! / Não vou partir meu popó / só porque você quer dar show!” é muito elucidativo, mas também levanta várias interrogações. Ao que pude apurar, a música foi editada em disco em 1968. A letra é de Chabanu. Grosso modo, podemos então presumir que a cena narrada e cantada aconteceu, real ou imaginariamente, na Luanda daquela época. Como é sabido, então os taxistas eram os “colonos”, que tinham o monopólio do exercício dessa pofissão. O da canção o era, como fica bem claro na forma como o cantor o interpreta a falar. O jovem apaixonado vivia obviamente no centro da cidade e namorava com uma jovem do musseque. Eram de condições sociais diferentes.
Não tenho idade para saber de ciência própria dos pormenores vivenciais daquele ano. Em 1968 eu estava a engatinhar e ainda chorava e reclamava, com toda a soberania, pelo colo da minha mãe. Mas estando aqui no espaço de uma crónica, nada nos impede de imaginar tudo o resto. A canção diz que o jovem lá conseguiu convencer o taxista a ir musseque adentro, contra lagoas e riachos, ao encontro da amada. (“Então chauffeur, dominado por mim / Na borracha puxou atravessando lagoa). Mas quem era aquela moça, tão bem e intensamente amada? Como se chamava? Morava em que subúrbio? O que fazia na vida? Como o jovem citadino a conhecera?
A letra de Chabanu tem todos os condimentos para incendiar as mentes mais curiosas e imaginativas. A moça chamava-se Josina. Era uma negra de pele e cabelos escuríssimos, olhos castanhos. Conheceu o jovem da música quando ia às aulas de dactilografia, na Baixa. Começaram a namorar há pouco menos de dois meses, depois de quase seis meses de convencimento por parte do jovem.
Assim que saltou do táxi, vencido o obstáculo maior que era a lagoa, o jovem enfiou-se numa rua que poucos passos depois se converteu em vários becos. A chuva parara de manhã mas ainda caíam uns pingos. (A canção não diz nada a respeito, pelo que vamos considerar que o subúrbio/musseque era o Rangel).
Josina, que estava com as irmãs a retirar a água do quintal para a ruela, ficou completamente surpreendida e até mesmo envergonhada quando viu o jovem (aqui, para o efeito, Alencar). E não era para menos. Estava descalça, o cabelo todo destrançado e despenteado. Quis ir a correr para dentro mas não conseguiu, não deu mais tempo.
- Ó amor, estou aqui, sou eu – disse Alencar.
- Ei, pôssas, apareces assim, não te esperava, com a chuva toda que caiu.
-  Nem me apercebi que choveu. Enchias o meu coração, os meus olhos e a minha cabeça. Tinha de te procurar.
Josina não sabia o que fazer. Não podia mandar Alencar entrar e também não podia continuar a conversar com ele aí, à porta. O pai chegaria a qualquer momento.
A crónica termina com Josina nesse imbróglio.