terça-feira, 28 de dezembro de 2021

ESCRITOR LUÍS FERNANDO “O cronista é um narrador apressado e animado da História”

Acaba de alcançar um feito porventura inédito: num único acto publicou dez livros. São sete de crónicas, um de contos, um romance (reeditado) e um de ensaios. Mas já tinha uma bibliografia composta por títulos como “A Saúde do Morto”, “Clandestinos no Paraíso”, “Silêncio na Aldeia”, “Notícias do Palácio - O primeiro ano do mandato do Presidente João Lourenço”, e outros. Já era sabido, mas o multilançamento recente confirmou a predilecção do escritor Luís Fernando pela crónica, género de que fala com a paixão e o conhecimento de quem o cultiva há mais de trinta anos. Na entrevista que se segue, iniciada pelo Whatsaap e finalizada por email, Luís Fernando exprime-se sobre a sua escrita e  o desempenho profissional dos jornalistas. E faz uma revelação: “Neste momento, para mim, a criação literária está suspensa (...) pela razão mais do que previsível: não resta muito tempo disponível”

 

Isaquiel Cori

 

É incomum, em qualquer parte do mundo, um autor proceder ao lançamento simultâneo de dez livros. Por que procedeu assim? Não pensou na possibilidade de confundir os leitores, diante de uma oferta tão vasta? 

Observação interessante, de facto! Não sei mesmo se existirá registo de um acontecimento deste noutra latitude da geografia mas deixe-me dizer-lhe que foi uma situação meramente circunstancial. Eu fui produzindo ao longo de anos (doze ao todo, entre 2004 e 2016) textos diversos para livros e que foram chegando à mesa de trabalho do meu editor, Arlindo Isabel. Diversos factores, de entre eles o financeiro, fizeram com que a editora Mayamba não pudesse ir terminando os livros à medida que ia recebendo os originais e tudo se foi acumulando… 



Desta vez, e aproveitando a data expressiva do meu aniversário (60 anos), a editora achou que ficaria bem um esforço especial para se colocar no mercado tudo o que tínhamos de textos engavetados e lançámo-nos à procura de patrocínios. Entidades com alguma folga financeira aceitaram o desafio e usando a sua quota do que se conhece como “responsabilidade social” das empresas, financiaram a produção dos dez livros e, desse modo, foi possível ter, num único acto, a apresentação das dez obras. Foi um record pouco habitual… 

Se os leitores não se confundirão com tão grande oferta em simultâneo? Acredito que não, porque embora tendo sido muitos livros, não foi assim uma diversidade de géneros tão grande. Por exemplo, sete dos dez livros são crónicas. Depois, há a minha estreia no conto, um romance reeditado e, por último, textos de apresentação de livros que resolvi compilar, algo como rápidos ensaios de Literatura.   

 

As suas crónicas são trabalhadas com o sentido de oportunidade, o olhar e a sensibilidade do jornalista, mas o texto resultante é claramente literário, é literatura. É por isso que tem a preocupação de tão logo resgatar as suas crónicas do arquivo dos jornais para o livro? 

Exactamente! As minhas crónicas escrevi-as originalmente para páginas de jornais mas mal ganhavam a forma de mancha impressa, texto impresso, qualquer leitor percebia sem esforço que o que tinha em mãos era Literatura. Por isso, recusei-me sempre a ver as minhas crónicas a morrerem vítimas da doença efémera associada às notícias dos jornais, achava isso uma injustiça e um desprezo ao valor da obra literária. Atenção: não pretendo com isto dizer que se danem os jornais e as suas colunas, os seus escritos, e que viva para sempre a Literatura! Nada disso! Mas a rapidez com que resgato as crónicas que publico em primeira mão em jornais para passarem a livro tem realmente a ver com essa observação que faz com grande acerto: se as crónicas são nitidamente textos literários, então que passem a livro, que é lá o habitat da Literatura! 

 

Enquanto cronista quem são os mestres que o inspiraram ou que ainda o inspiram?  

Fiz-me cronista sem dúvidas depois de descobrir essa vertente criativa no colombiano Gabriel García Márquez em Cuba, na década de 80, no jornal “Juventud Rebelde”, onde partilhava uma coluna ao domingo com outro grande escritor, cubano este último, Enrique Nuñez Rodríguez. Aprendi com ambos a perceber que qualquer tema, facto ou episódio banal do quotidiano pode ser transformado em tesouro de leitura, numa relíquia literária, pois o valor da peça não era tanto ou somente o relato em si mas o modo como tudo era descrito. Indiscutivelmente para mim a crónica tem a sua chave, o seu segredo, o seu lado delicioso, no modo como a palavra é burilada, como a descrição é feita. Tem de existir fascínio no modo como o cronista relata aos outros aquilo que a sua sensibilidade captou e elegeu como motivo bastante para ser narrado.  

Concretizando a resposta: os meus mestres, a minha inspiração mais firme e acabada, chamam-se Gabriel García Márquez (colombiano) e Enrique Nuñez Rodríguez (cubano). 

 

O prazer que deriva da leitura das suas crónicas terá correspondência com o prazer com que as terá escrito? Ou o prazer da leitura esconde muito trabalho e esforço de escrita, algum sofrimento mesmo? 

Acredito que exista um alinhamento perfeito entre o prazer da escrita e o prazer da leitura, da fruição, das crónicas que escrevi e agora estão definitivamente agrupadas em livros. Não se esqueça que só se é cronista se se for apaixonado pelo género e não existe outra maneira de se gostar profundamente da crónica se não for, primeiro, por via da leitura. Ou seja, temos antes de gostar de crónicas lidas algures para nos propormos o desafio de querermos fazer, também, algo que se aproxime, que iguale ou que supere aquilo que nós lemos de outrem. Portanto, é só prazer, é só satisfação plena, no ciclo completo da crónica: feliz ao escrevê-la, feliz em igual proporção ao ler o resultado! 

 

Os factos e as pessoas das suas crónicas são sempre verdadeiros? 

Em 99% das crónicas que escrevi, elas correspondem a factos reais e a pessoas reais, de carne e osso. Pode acontecer que um ou outro detalhe seja apimentado com uma boa dose de ficção mas não é isso que representa a espinha dorsal do texto. O cronista é, em boa verdade, um narrador apressado e animado da história, seja a que faz a mundivivência das comunidades seja a outra, a de interesse global, a História com H maiúscula.  

 

Já lhe aconteceu estar a pensar ou a escrever uma crónica e depois concluir que não, que está diante de matéria para ficção? 

Incontáveis vezes. Há crónicas que percebi desde o primeiro momento que nunca chegariam a sê-lo porque o género tem a característica de ser um relato breve, rápido, e essas, para serem absorvidas, precisariam de maior desenvolvimento, mais espaço, textos mais volumosos com relatos mais detalhados. O meu romance “A Cidade e as Duas Órfãs Malditas” nasceu de uma tentativa inicial de se escrever uma crónica para relatar a saga de duas irmãs que passavam doenças venéreas à rica burguesia da Luanda do século XIX. Entendi que seria puro desperdício esgotar num texto com umas poucas linhas uma história rocambolesca que valia a pena mostrar de forma híbrida: metade factos reais e metade ficção ao sabor da criatividade do escritor.    

 

Quando é que o ficcionista entra em cena? Quando é que sente que é hora do romance acontecer? 

Simples: quando os limites da crónica “alertam” o escritor que não vai conseguir partilhar com os seus leitores a sua experiência. Porque a Literatura não é outra coisa senão o desejo quase irreprimível de contar às pessoas aquilo que sabemos e achamos digno de ser distribuído por todos. Um escritor é, no fundo, um filantropo: dá parte do que tem aos demais! 

Um tema que precise de mais do que uma ou duas crónicas para ser “oferecido” aos leitores é o primeiro sinal de que se pode estar diante de matéria-prima que pode servir para algo maior, mais espaçoso, mais volumoso: um livro!  Não custa muito ao escritor “cheirar” isso, descobrir o ponto em que deve abandonar a ideia da crónica e lançar-se no desafio de escrever um romance, uma novela, um ensaio ou qualquer outro género.   

 

Falemos um pouco de jornalismo. Como vê o desempenho dos seus antigos colegas de profissão? De quando em vez sente saudade de exercer a profissão? 

Sabemos todos que existem profissões viciantes e o Jornalismo é uma delas…no bom sentido, diga-se! É claro que nunca se deixa de ser jornalista, por mais que deixemos de frequentar o mundo fascinante de uma Redacção. Vivemos o Jornalismo de mil maneiras, uma delas é -estando fora do activo -, transformar-se numa espécie de revisor caçando as gralhas dos jornais, ou de leitor-crítico, que não espera apenas encontrar a notícia e a reportagem nas páginas dos diários ou semanários, mas se pergunta se aquela notícia está bem elaborada e se aquela reportagem, se fosse eu a fazê-la, teria tido aquele ângulo de abordagem.  

Mesmo longe do lufa-lufa da Redacção, o nosso vínculo com essa oficina da escrita urgente não se quebra totalmente. Deixamos de estar fisicamente na Redacção, é verdade, mas o nosso espírito viaja para lá e, vez por outra, “vemo-nos” sentados de colete e computador a fazer o que fizemos ao longo de uma vida. Continuo a acompanhar os meus colegas, sobretudo os que fazem rádio e os que publicam em jornais, que são os dois mundos principais daquele que é o meu percurso de mais de 40 anos como jornalista.  

Como os vejo? Do mesmo modo como nos meus tempos de jornalismo activo: os dedicados, os que se esforçam e não olham para a profissão como um mero emprego que dá salário ao cabo de 30 dias a rabiscar o livro do ponto, têm futuro, hão-de singrar na sua caminhada, o futuro falará deles e por eles. Os outros, os que estão na profissão errada e não vivem o Jornalismo do único modo que a profissão permite que se viva – com paixão, com intensidade, com entrega absoluta – hão-de acabar como é esperado que acabem: ignorados, esquecidos, sem glória. Simplesmente desaparecerão do espaço público, por mais que se arrastem nas Redacções por dezenas de anos! 

 

Não acha estranho que o jornalismo angolano actualmente forneça tão poucas individualidades para a literatura? Na sua opinião a que se deverá isso? 

A explicação é simples: reduziu enormemente o rebanho – se me permitirem o termo simpático – dos que viviam as Redacções e a profissão como um sacerdócio. O romantismo dos que consideravam o Jornalismo, como Gabriel García Márquez, a “profissão mais linda do mundo”, anda à míngua, perdeu-se no emaranhado de problemas existenciais do nosso tempo e as Redacções foram invadidas por pessoas em busca de remuneração para as despesas do lar, as contas da família. Não é destes grupos de “operários” do Jornalismo que nascerão os novos David Mestre, Ernesto Lara Filho, Alfredo Bobela Motta, Ernest Hemingway, Machado de Assis, José Saramago, Gabriel García Márquez ou Monteiro Lobato, que tinham as Redacções como espaços oficinais e de cultura, onde o debate era elevado e a tempo inteiro. Nas Redacções, hoje, olha-se para o relógio com pressa de se ir para casa e, no dia seguinte, com o jornal a circular, muitos dos nossos colegas nem sequer se dão ao trabalho de ler o que eles mesmo escreveram, para comparar o que mudou entre a versão entregue ao editor e as alterações que este introduziu eventualmente… 

 

O facto de estar tão próximo do poder político, onde por norma vigora o politicamente correcto, de alguma forma condiciona a sua liberdade de imaginação e de criação literária? 

Neste momento, para mim, a criação literária está suspensa, não por qualquer condicionalismo derivado do que chama de “politicamente correcto em vigor” mas pela razão mais do que previsível: não resta muito tempo disponível. Dirão alguns: mas escreveste o livro Notícias do Palácio? Pois foi precisamente a experiência dura de fixar em livro a experiência governativa de um ano frenético, de muita actividade diária, profundo envolvimento em diplomacia, que me lançou o conselho amigo: poupa a pouca energia que te sobra para a atenção à família e volta a escrever um dia, sem as ocupações profissionais de agora. Acatei o conselho! 

 

Os seus livros “Angola: Memórias da Transição Política - De José Eduardo dos Santos a João Lourenço” e “Notícias do Palácio – O primeiro ano de mandato de João Lourenço” fundam uma narrativa sobre o poder que certamente irá influenciar a visão histórica. Esse projecto terá continuidade enquanto estiver a trabalhar no Palácio? 

Fui motivado, nas duas experiências, pelo exasperante vazio que reconheci existir no relato da nossa vida governativa, do nosso ambiente político. Assustei-me enquanto cidadão não conseguir, por exemplo, encontrar em livro ou outro suporte qualquer, a narrativa de um 15 de Março de 1961 na perspectiva dos protagonistas da acção, um facto histórico de enormíssima repercussão sobre a vida de todo o Norte de Angola, que levou a ter uma estrada asfaltada com mais de 300 km a permanecer fechada por décadas (Luanda-Uíge, via Úkua-Piri…). Tudo o que se pode encontrar é o relato feito por portugueses, a mostrar uma visão unilateral daqueles factos dramáticos… 

É claramente um caminho a prosseguir, o sermos nós próprios enquanto protagonistas ou testemunhas da História fazer o seu relato. Sonho com livros que muitos dizem andar a escrever sobre heróis nossos, grandes figuras das nossas guerras, batalhas, acções épicas… 

O certo é que há muito pouca literatura com esse perfil – relato histórico – a chegar às livrarias, às bibliotecas, e muitos dos que têm coisas a dizer, vemo-los partir uns detrás de outros sem que o legado escrito fique. Com muita pena e muita dor, confesso.  

Eu quero fazer a minha parte, contribuir humildemente com o meu olhar à volta. Neste momento, como já o referi antes, sobra pouco ou nenhum tempo para escrever, pelo que não há, para já, como contar com novo livro meu, naquela linha ou noutra qualquer. Mas dispondo de tempo, um dia no futuro, é evidente que surgirá a sequela de Notícias do Palácio. Até já tem título. Vai chamar-se “Servir”.   

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Perguntas de algibeira 

 

Qual foi o último livro que leu? E o que está a ler? 

“Sua Excelência de corpo presente”, de Pepetela. Estou neste momento a ler, na versão original em espanhol, “La Parábola de Pablo”, um ensaio interessantíssimo sobre o narcotraficante Pablo Escobar.  

 

Que livros e autores recomenda para este final de ano? 

“Tio Jorge e outros quês”, contos de Manuel Rui; “Contos de Natal”, de um grupo de autores como Cremilda de Lima, Eduardo Águaboa e Onélio Santiago.  

 

E que discos e cantores? 

 “The Soul Music of Angola”, de Afrikhanita e qualquer disco de Paulo Flores, o cronista da voz 

 

Qual foi a última exposição de arte que visitou? 

Guilherme Guizef, uma combinação de pintura e escultura, no Museu da Cerveja, em Lisboa. 

 

E a última peça de teatro que assistiu? 

“Clandestinos no Paraíso”, pelo grupo Twana Teatro. 

 

Tomessa é um sonho,  uma ideia, um mito, uma história de infância? 

Tudo isso. E mais: o alfa e ómega de Luís Fernando, o princípio e o fim do ser que eu sou!  

 

Quando pensa em Cuba hoje, o que lhe vem à memória? 

A vibrante cidade cultural que é Havana, mesmo faltando o pão e o arroz… 

 

Qual é o lugar em Luanda onde mais gosta ou gostaria de estar? 

Na Ilha do Cabo, virado para o mar infinito. Porque inspira e faz os genes da Literatura “andarem às turras” nos labirínticos caminhos do cérebro. 

 

E fora de Luanda? 

Uíge, em tarde de chuva. 

 

E no estrangeiro? 

Times Square, provavelmente o centro do mundo. Cidade de Nova Iorque, onde João Kyomba se perdeu definitivamente, na sua versão feiticeiro boémio…  

 

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Perfil breve

 

Luís Fernando nasceu na aldeia de Tomessa, província do Uíge, em 1961. Jornalista desde os 17 anos, trabalhou por mais de década e meia na RNA, onde foi sucessivamente sub-chefe de Redacção, re-writer, correspondente em Havana e director de Informação. Durante 12 anos foi director-geral do Jornal de Angola. Dirigiu o semanário O País (hoje diário) por cinco anos, desde a sua fundação em 2008. Foi administrador executivo do grupo Media Nova.

Em 2011 foi vencedor do Prémio Maboque de Jornalismo.

Membro da União dos Escritores Angolanos, actualmente Luís Fernando é secretário para os Assuntos de Comunicação Institucional e Imprensa do Presidente da República.

JOSÉ LUÍS MENDONÇA “O primeiro deus na Terra foi a Mulher”

 


Tem novo livro no mercado, o poemário “Software Carnal”, com chancela da editora Kalunga. José Luís Mendonça, em nótula autobiográfica constante do livro em referência, apresenta-se assim: “homem de profissão, jornalista por concessão e poeta por distracção”. É detentor de vários prémios literários, nomeadamente Prémio Sagrada Esperança (Chuva Novembrina”, 1981, e “Quero Acordar a Alva”, 1996);  Prémio Sonangol de Literatura (“Respirar as Mãos na Pedra”, 1990); Prémio dos Jogos Florais do Caxinde (“Se a Água Falasse”, 1997); e Prémio Angola 30 Anos (“Um Voo de Borboleta no Mecanismo Inerte do Tempo”, 2005). Actualmente  consultor na empresa Edições Novembro,  dirigiu e editou, durante sete anos, o jornal Cultura. Licenciado em Direito, José Luís Mendonça é o vencedor do Prémio SADC de Jornalismo 2021. Na entrevista que se segue Mendonça fala do seu novo poemário, do possível impacto das redes sociais e da Internet na evolução humana e na própria poesia. E explica as razões que o fizeram abandonar tanto a União dos Escritores Angolanos como a Academia Angolana de Letras

Isaquiel Cori

“Software Carnal”, o título do seu novo poemário,  suscita logo à partida várias questões sobre a interligação do humano com a inteligência artificial ou a influência da computação nas nossas vidas. E faz lembrar aqueles personagens do cinema, os cyborg, meio humanos meio máquinas. É sua opinião que a humanidade realmente caminha para aí?

Obviamente. Vivemos num contexto global dominado pela hipermídia digital e o seu fruto civilizacional, o Homo Zappiens (nome proposto por Wim Veen e Bem Vrakking, 2009, para aqueles que nasceram a partir do início da década de 1990) – “primeiros seres digitais”. Por força desta realidade, que o próprio Homem criou, toda a nossa evolução, agora, suscita em nós, um processo de automatismo. Como um chip incrustado no olhar. Em “Software Carnal” eu digitalizo os versos, com recurso ao software inamovível e desconhecido da origem da Vida, misteriosamente oculto no corpo humano, mas com maior representação no da Mulher. O corpo da mulher é um hino à misteriosa e infinita expansão do Universo que aqui, neste lugar chamado Terra, se reedita no ventre expansivo em tempo de gravidez, nos olhos húmidos e luminosos da Mulher dotados da ciência maternal de ver e na sede dos dedos a tactear a liquidez das coisas que nos rodeiam.

 

Vozes há que se interrogam sobre o verdadeiro impacto das redes sociais na evolução humana, que passaria a depender sobremaneira de imagens projectadas e de associações determinadas por algoritmos, esvaziando-se cada vez mais a vida de relação e de proximidade física. Você também vê assim as coisas?

Vejo e não vejo. Vejo, porque paulatinamente me vejo submerso nessa onda universal de decomposição electrónica dos afectos. Hoje, a sociedade humana caiu na monetarização do pensamento. Tudo é vendável. Até a própria alma. Porque se perdeu muito do humanismo próprio do Sapiens, (trans)ferido para o Zappiens. O Zappiens é perigoso contra si mesmo.

 

Um amigo jornalista, comentando o caso de vários jornalistas forçados a aposentar-se,  um dia disse que eles estariam mortos se as redes sociais não existissem. Pessoalmente sente que as redes sociais lhe deram um novo fôlego?

Verdade absoluta. Veja que eu ganhei o prémio SADC de jornalismo pelo meu artigo publicado num órgão online. Embora não ganhe nada, em termos salariais.

 

O mundo e a vida tal como se apresentam nas redes sociais têm um viés bastante fragmentado e o conjunto de postagens é comparável a um interminável fluxo de consciência, a mais das vezes surrealista. São as redes sociais verdadeiramente o reino da liberdade humana?

No caso de Angola, onde o ANGOSAT se perdeu e ninguém diz como não foi possível reproduzir outro satélite com o reembolso do dinheiro pago, onde o público maioritário não tem acesso às redes sociais por falta de internet, aqui esse reino da liberdade é acessível a uma pequena franja de pessoas, mas essa pequena franja reproduz o pensamento da maioria e os interesses dos grupos político-religiosos. É uma espécie de selva contemporânea, onde se digladiam verdades, horrores e mentiras sem paralelo…

 

Não teme que algum dia os poetas venham a ser substituídos por programas de computador?

Temo e bastante. O plágio é um indício dessa transformação computacional. Você observa como o livro perdeu o seu valor de artefacto do conhecimento em Angola e quase por todo o lado. Até já se fazem pinturas e comida pelo computador. É o progresso. Só falta criar o ser humano numa máquina, com um cérebro de chip electrónico. A Poesia só pode ser salva pelos verdadeiros poetas, os homens e mulheres hiper-sensíveis, que ainda a cantam e escrevem à mão.

 

“Software Carnal” é mais um tributo seu à mulher. Está visto que para si a mulher é um tema absolutamente inesgotável...

Na verdade, é inesgotável. O primeiro deus na Terra, há mais de 30 mil anos, foi a Mulher. O ser humano espantava-se de ver a mulher parir filhos. Dos seus seios brotava leite para amamentar esses filhos. Nessa época, a Mulher foi endeusada. Foi a Revolução Agrícola, há 15 mil anos, que destronou a Mulher do seu templo de adoração. Com o sedentarismo e a criação de animais, o homem observou que, no reino animal, o macho tem uma função seminal e que os filhos não eram apenas obra de forças misteriosas. Foi quando nasceu o sentimento de paternidade e a apropriação, pelo homem do lugar divino. Por isso é que Deus é macho, é representado como um Pai. E o Filho de Deus nunca podia ser do sexo feminino. Eva sairia de uma costela de Adão. Mas o rei Salomão volta a adorar a deusa chamada Mulher, nos seus cantares. E do mesmo modo, eu assim a represento em “Software Carnal”.

 

A mulher nos seus poemas aparece ora como objecto de desejo, a detentora do “software carnal da origem da vida”, ora como a expressão da beleza ancestral. Há na sua vida uma musa inspiradora, ou os seus versos partem de um olhar para a mulher no geral?

Muitos dos meus versos têm uma fonte carnal, palpável, sangrante. Outros têm uma fonte onírica, é o imaginário apenas. Se eu não fosse um ser vivente e pensante não haveria os poemas do sujeito poético que me nasce a todo o instante. É verdade que certas mulheres, em determinadas fases da minha vida me encheram o coração de maresia, outras me beberam o tutano dos ossos, como se eu fosse um javali leiloado na savana pelo êxtase feminino. Hoje, nem sei mais onde se acumula todo o pó dessas atracções súbitas, umas, diferidas no tempo, outras, inacontecidas, outras ainda, a memória que me assola é de uma monumental geometria, parece Deus se repetindo em Criação.

 

Quais são, na sua opinião, os pontos fortes e os pontos fracos da instituição Literatura Angolana?

A instituição Literária Angolana subsiste submersa em mitologias pré-fabricadas na Casa dos Estudantes do Império, subvertidas pelo Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e pela revista Mensagem, de pouca duração, e recicladas com a independência e o slogan da arte ao serviço da revolução. Portanto, a Instituição Literária Angolana, cá dentro, tem um templo chamado UEA fundado sobre alicerces político-partidários, e esse electrólito disfuncional, para além de ficcionar lugares cimeiros no campo da literatura angolana, é um elemento de decomposição da criatividade do escritor autóctone. Tal como o jornalismo, a literatura só produz excelência num ambiente de liberdade de expressão e de alta tecnologia do artefacto chamado texto. Perante esta realidade (e já terei o troco dos Guardiões do Templo daqui a pouco), ergueram-se vozes criadoras contrárias ao status quo, que usaram e abusaram desse estatuto, tendo, na sua maioria, produzido outras lavras literárias com reconhecimento exógeno, visto que, aqui no país, há, até hoje, uma certa aversão ao escritor “rebelde”, quando, sem rebelião, não pode haver literatura digna desse nome.

 

Está na reforma, fechou-se um longo ciclo da sua vida profissional. E parece que inaugurou um novo ciclo na sua vida, mais libertário e voltado para as realidades da sociedade civil...

O jornalista, tal como o professor, não vai nunca para a reforma. Se não escrever para os órgãos das Edições Novembro, minha empregadora, hei-de escrever para outros. Mas, na realidade, fabriquei recentemente um novo romance histórico e, para além, do “Software”, um novo livro de poemas.

 

Se debruça sobre que época histórica, o seu novo romance?

Outra vez a Independência, o 27 de Maio e a Covid de hoje com as suas nuances totalitárias. É que está muita coisa por resolver na nossa Independência e está muitíssima coisa por assacar do 27 de Maio, a sua essência, o seu fundamento sociológico e humano, que foi a inauguração do sistema de tortura legalizada pelo seu não reconhecimento oficial. Sobre a Independência, o romance explora o poema “Havemos de Voltar”, de Agostinho Neto, para mostrar até que ponto existe uma extrema dissonância entre os conceitos e imagens ali expressos e ao que realmente não houve até hoje o Povo de voltar. De igual modo, o problema já aflorado em “O Reino das Casuarinas” e em “Se os Ministros Morassem no Musseque” (um e não o mesmo romance) de não haver Independência nem desenvolvimento sem a verdadeira integração e inclusão económica e política de todas as ex-nações que o colonialismo ficcionou num só mapa sob o império da língua portuguesa.

 

O JLM nos últimos anos tomou decisões fundamentais na sua vida, que não sei se já terá tido a ocasião de explicar publicamente. Refiro-me ao facto de ter abandonado a condição de membro da União dos Escritores Angolanos e de se ter afastado da Academia Angolana de Letras. A que se deve esse recuo?

Não foi um recuo. Foi uma conquista para a minha liberdade de pensamento e de criação. A UEA, tal como as outras agremiações criadas na era inicial da Independência, continuam a ser apêndices do partido no poder e, até, estrictamente vigiadas pelos Serviços de Inteligência. Para provar o que digo, é só ver que a UNAP (União Nacional dos Artistas Plásticos) tem, à frente da Assembleia Geral, um escritor, membro da UEA. Para salvaguardar o quê?

 

Deve-se então inferir que, supostamente, os membros da UEA têm ligações aos Serviços de Inteligência, ao ponto de alguns deles serem “destacados” para vigiarem outras classes de artistas?

A questão não é assim tão directa! Não se trata de uma delegação dos Serviços de Inteligência dentro da UEA ou das outras associações como a UNAP, que já citei. Trata-se, isso sim, de um controlo partidário, coadjuvado pela Inteligência. O caso do meu irmão Zacarias Musango é paradigmático. Em 2018, a UEA fez de tudo para que a minha pretensão – de fazer justiça a um inocente – não fosse avante, para salvaguardar a Polícia. Para que se fazem coisas deste género? É preciso chegarmos a este ponto, porquê? Até ficaria bem para a corporação desligar-se desse crime, condenando os seus verdadeiros autores! Veja que, quando eu pedi assinaturas dos membros da UEA para realizarmos a assembleia extraordinária para redigirmos a moção de repúdio, tive o apoio de 13 confrades, incluindo Pepetela e Maria Eugénia Neto. Mesmo assim, faltaram 2 assinaturas, para as 15 necessárias e não fizemos a assembleia extraordinária. Nessa ocasião, o ex-secratário-geral convocou a TPA para uma conferência de imprensa na UEA, onde pôs a falar a pobre da viúva – vejam lá! – ladeada por um familiar desta, das FAA e fardado – mas que aberração! – e este oficial das FAA é que falou o seguinte: “Nós, familiares do falecido, não queremos que usem o nosso irmão para resolverem os vossos conflitos na UEA” (mais ou menos isso). Eu e o irmão do falecido, que também é guarda e nunca foi entrevistado, ainda tentamos pedir à TPA para usar o contraditório, mas a TPA não aceitou. Este foi também outro motivo que me levou a sair da UEA. As pessoas que me conhecem sabem que eu não sou desse género, de convocar uma assembleia extraordinária para tomar o poder seja lá onde for, não tenho esse feitio, nem sequer me vejo a dirigir a UEA, não me interessa, o assunto resvalou, por criação conjunta da UEA-TPA, de um assunto de crime de homicídio preterintencional, para um assunto de luta pelo poder na UEA. Mas que imbecilidade! Com todo esse imbróglio, é fácil de ver como há interesses do Estado (que também desconheço!) inseridos na gestão de uma associação meramente literária. Valha-nos Deus, Virgem Santíssima! Mas para quê mantermos este estado de coisas, 40 anos depois da independência, quando o Muro de Berlim há muito foi derrubado! É preciso ter tomates para libertar a Arte!

 

Voltando à questão do abandono da UEA...

Eu abandonei a UEA, e não entro no seu quintal sequer, porque um meu irmão, Zacarias Musangu, guarda daquela associação foi torturado até à morte numa esquadra da Polícia no Cassequel. Foi acusado pelo chefe da polícia de ter  roubado a placa de uma viatura estacionada na UEA. Durante o dia. E foi raptado pelo chefe da esquadra do Cassequel, porque se a autoridade leva detido um cidadão, sem mnandado de captura, está a violar a Constituição e Lei Penal. Está a violar um direito fundamental do cidadão. É rapto. E o meu irmão ficou lá detido três dias e não apareceu nenhum procurador da PGR, nem advogado. Estes só apareceram um mês depois da morte da Zacarias Musangu, porque eu, que estive fora na altura da detenção e morte do meu irmão, no meu regresso fiz um certo “barulho”, na minha coluna do Jornal de Angola. Só assim é que entraram em cena uma procuradora e o advogado da UEA. Para fazer nada. Simplesmente para consolidar a “pureza” da autoridade policial. Mas nunca se provou que Zacarias foi realmente culpado. Neste caso, como Zacarias esteve sob custódia do Estado, o Estado, através da PGR ou do Ministério do Interior, tem a obrigação de indemnizar a viúva e os quatro filhos do meu irmão Musangu. Só depois dessa indemnização é que talvez eu entre na UEA. A indeminização deve atingir a soma de 80 milhões de kwanzas. O Estado deve pagar 80 milhões de kwanzas, 40 milhões pelo nojo da viúva, para ela acabar a casa que o marido não concluiu e uma espécie de compensação pela perda irreparável da vida do seu marido. Dez milhões para cada filho órfão, para continuarem os estudos e se formarem. Quando eu regressei do exterior, em 2018, e sugeri a tal moção dirigida ao Ministério do Interior, de repúdio pela morte sem necessidade de um homem sem culpa provada, a direcção da UEA insurgiu-se contra mim. Eu não ponho os meus pés na UEA, porque, segundo a nossa tradição, o meu irmão virou Kanzumbi, quando por lá passo, vejo-o a chorar lágrimas de sangue no parque de estacionamento onde foi detido pela Polícia. Enquanto não se fizer justiça para com a viúva e os filhos (indemnização do Estado), ele lá estará a chorar, já não pela própria morte, mas pela sorte da mulher e dos filhos.

 

E por que saiu da Academia Angolana de Letras?

Saí também da AAL, porque não podia encarar os mesmos membros que também são da UEA, os que se opuseram à minha proposta. Não concebo um escritor que não seja humanista. Um escritor conivente com a morte gratuita de pessoas é tudo, menos escritor. Esta sua pergunta levanta uma das questões mais cruciais da História da nossa Angola: a tortura. A tortura, proibida pela Declaração dos Direitos do Homem, é um assunto que deve ser amplamente e exaustivamente debatido e resolvido pelo MPLA, que é quem manda em Angola.

   

Naturalmente não se pode impor uma suposta maneira ideal de se ser escritor. Mas, na sua visão, hoje, em Angola, como é que os escritores deveriam exercer o seu papel?

O escritor é uma voz crítica. Se recordarmos o papel que o romance de Luandino Vieira, “A Vida Verdadeira de Domingos Xavier”, teve no contexto da luta de libertação, como se pode, hoje, em país independente, ver repetir-se a mesma morte de outro Domingos Xavier (Zacarias Musangu) na cadeia, e ficar indiferente? Não há duas versões da forma de ser-se escritor. Ou se é pela Vida, ou se é um fantoche do sistema, pelo dinheiro.

 

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software carnal

 

a expansão do universo

se convalida em cada átomo

da tua bunda astronómica

 

beijo cada partícula

desse cosmos liquefeito

onde gravitam dois planetas exóticos

em simétrica rotação 

 

mordo essa beleza ancestral

esse registo abobadado

de trezentos milhões de anos de evolução.

 

na tua bunda lateja

o software carnal da origem da vida.

 

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o anjo e o pão

 

vi-te passar de mabela

como se foras um anjo

 

vi-te deixar a estrada

como se foras um anjo

 

vi-te chegar de mansinho

como se foras um anjo

 

e te olhei sem te ver

como se foras um anjo

 

e te beijei de lencinho

como se foras um anjo

 

abriste as portas do templo

como se foras um anjo

 

me rasgaste os vestidos

como se foras um anjo

 

me deitaste na mesa

como se foras um anjo

 

e me comeste ali mesmo

como se eu fora o teu pão




 

 

terça-feira, 25 de maio de 2021

FILÓSOFO E ESCRITOR LUÍS KANDJIMBO “As elites políticas africanas têm hipotecado o futuro do continente”




Um dos intelectuais angolanos mais respeitados em África, o Professor Luís Kandjimbo tem dedicado parte significativa do seu tempo à reflexão sobrequestões filosóficas e literárias numa perspectiva endógena. Na entrevista que a seguir se publica, a propósito do 25 de Maio, o Dia de África, Luís Kandjimbo afirma que “as elites políticas são responsáveis pelas catástrofes que devastam o continente”, isto porque “se deixam seduzir por teorias monistas e eurocêntricas, suportadas por uma ignorância epistémica das complexas realidades continentais”



 ISAQUIEL CORI

África continua por realizar o seu desígnio de independência económica e  desenvolvimento. O que é que impede ou dificulta a realização desse desígnio?

As razões são múltiplas, multiformes. Aparentemente, os problemas económicos do nosso continente resumem-se simplesmente ao conceito monista de   “desenvolvimento”. Isto quer dizer que a ausência de “desenvolvimento” é a causa da miséria existencial e material dos africanos. O que é o “desenvolvimento”, afinal, se se perder de vista a dimensão ética da economia? A resposta e a compreensão da problemática referente à independência económica de África, deve ter o seu verdadeiro centro na condição existencial das mulheres e dos homens que povoam o continente. Por essa razão, integro aquela legião de africanos que não reduzem a existência dos humanos  à quantificação dos bens instrumentais que devem estar ao seu serviço. Portanto, se a independência, a autonomia, a autosuficiência das comunidades humanas é mais complexa do que o reducionismo economicista parece fazer crer, então o que pode conduzir à realização desse desígnio não pode ser encontrado nos modelos filosóficos, culturais, políticos e económicos que se tomam de empréstimo ao Ocidente e, mais recentemente, ao Oriente. Como dizem alguns por aí, em África não se inventou nada. A “roda já foi inventada”. Isto é uma manifesta amnésia acerca do símbolo da justiça, a balança, por exemplo, que foi inventada no Egipto Antigo. Por isso, o centro do problema está por desvendar porque ele reside, em primeiro lugar, na compreensão do Homem na sua plenitude e que os modelos económicos devem servir. Quer dizer, há aí um imperativo cultural, em primeiro lugar, já que o Homem é antes de mais um animal cultural. Do ponto de vista conceptual, há que contar irrevogavelmente com o carácter endógeno dos aparatos teóricos, calibrando as ferramentas analíticas suportadas por cabeças assentes em vértebras próprias, nossas, que não sejam próteses. Na história intelectual continental estas ideias têm os seus clássicos. De igual modo em Angola.

Dir-se-ia que África tem sido “traída” pelas suas elites políticas?

Nada seria mais exacto, se não respondesse afirmativamente. As elites africanas, especialmente as elites políticas, têm hipotecado o futuro do continente, quando preferem os discursos dissonantes da dependência, paradoxalmente, como se o desenvolvimento económico de uma comunidade histórica fosse susceptível de reprodução fundada no expediente do “copy paste”. As histórias do pensamento económico ao nível global, particularmente a filosofia da economia, fornecem muitos exemplos que desvendam o perigo das generalizações teóricas e metodológicas. Por aí, fica provada a inexistência de uma validade universal dos actuais fundamentos e receitas do neoliberalismo. Como se sabe, a falência daquela teoria eurocêntrica do alemão Max Weber, segundo a qual o sucesso do capitalismo ocidental tinha a ver com a ética protestante, foi uma consequência dos casos de desenvolvimento económico bem sucedido em países e territórios da Ásia, tais como o Japão, a Índia, a China, a Coreia do Sul, Malásia, Hong Kong e Singapura. Estes são bons exemplos da dúvida que deve ser cultivada sobre a validade universal das filosofias políticas, económicas ou culturais ocidentais. Por isso, as elites políticas são responsáveis pelas catástrofes que devastam o continente, na medida em se deixam seduzir por teorias monistas e eurocêntricas, suportadas por uma ignorância epistémica das complexas realidades continentais.

Nos textos que tem publicado aos domingos aqui no Jornal de Angola tem mostrado que o continente possui uma série de pensadores originais e que se posicionam nos grandes debates filosóficos globais. Nesse aspecto os seus textos têm sido autênticas revelações. Haverá uma falta de circulação do conhecimento africano na própria África?

Essa falta de circulação interna do conhecimento africano é a expressão do modelo de pensamento e de produção de conhecimento que se funda na extroversão cujo retrato está na monoprodução de matérias primas. Repare nisto. Apesar da aparente empatia do  Ocidente ou do Oriente por nós, eles nunca deixarão de defender os seus interesses, reivindicando competências científicas que presumem ter acerca das realidades do  continente para seu benefício. O que está em causa é o modo de produção do conhecimento. A este respeito, as reflexões filosóficas africanas são relativamente abundantes. A consciência da importância que têm as respostas sobre o modo de produção do conhecimento exigem uma séria vigilância crítica permanente para que nós em África tenhamos uma filosofia inflexional, como dizia o democrata-congolês Ngoma-Binda. Devemos fazer um uso adequado das nossas capacidades e produções científicas, deixando assim de ser vítimas dos modelos coloniais que agora sofrem mutações e são vendidos sob a forma de consultorias ou algumas receitas do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. Uma das figuras que nas organizações de Bretton Woods chamou atenção para isso, relativamente ao continente africano, foi o australiano James Wolfensohn, um dos mais lúcidos presidentes que o Banco Mundial já teve.

Porque é que às vezes dá a impressão que em África os governos andam de costas voltadas à realidade endógena mais profunda dos seus países?



As elites políticas africanas não têm sabido dar valor à Filosofia e História de África, por outras palavras, ao pensamento africano, às experiências vividas, às narrativas correspondentes e aos sujeitos que as produzem e, consequentemente, ao conhecimento científico que lhe está subjacente. Isto tem uma consequência. Governa-se sem bússola e, ainda por cima, cultiva-se uma repugnância pelo conhecimento e saberes gerados no continente africano, numa clara manifestação de dependência, preferindo o que é proposto a partir de certas instituições da Europa ou da América do Norte. Tudo isso como se fosse possível governar uma comunidade histórica a partir de um centro distante à semelhança do que acontecia com o colonialismo. Isto dá uma ideia do alcance das excelentes ideias que, por exemplo, o queniano Ali Mazrui, o nigeriano Olufemi Taiwo e o beninense Paulin Hountondji debitaram sobre tópico.

Chegou a ser vice-ministro da Cultura. Nessa qualidade que propostas fez e que foram adoptadas pelo Governo com efeitos duradouros na vida cultural do país?

Em 2008, quando fui convidado para ser vice-ministro da Cultura encontrava-me em Lisboa ao serviço da diplomacia cultural angolana, havia cerca de sete anos. Após uma breve experiência de trabalho com o malogrado embaixador Oswaldo Serra Van-Dúnem, integrava a equipa do embaixador Assunção dos Anjos, um dos mais prestigiados diplomatas angolanos e que, curiosamente, conferia à Cultura o devido estatuto. Portanto, essa experiência diplomática a nível bilateral e multilateral, associada ao conhecimento acumulado, enquanto funcionário do Ministério da Cultura, dava-me uma largura de horizontes acerca dos problemas e das políticas públicas sectoriais. Aliás, desde 1982, participava em eventos de que saíam deliberações importantes para a política cultural de Angola. Por exemplo, em 2007, eu era membro da Comissão Científica para a Redacção da História da Literatura Angolana que transitava da gestão conduzida pelo ministro Boaventura Cardoso e seus vice-ministros. Com ele pretendia-se lançar uma pedra no edifício da política da leitura, do ensino das línguas e da literatura angolana. Lamentavelmente, esse projecto para o qual tinha sido chamado igualmente a dar pertinentes contribuições, e outros que compreendiam a formação artística, a legislação cultural, a condição do artista, as indústrias criativas e culturais,  sofreram uma guinada, por força das circunstâncias. Esses eram domínios da minha esfera de competências, enquanto vice-ministro. Mas, a minha passagem pelas referidas funções foi efémera, durou mais ou menos dezasseis meses. Deixei o cargo em 2010, logo após a aprovação da Constituição da República. Passei a dedicar-me exclusivamente à docência que, aliás, não abandonei durante o exercício das funções de vice-ministro da Cultura. Voltei à diplomacia. Fui consultor do Ministro das Relações Exteriores e depois, em virtude de ter vencido o concurso internacional para preenchimento do cargo de Director para Acção Cultural e Língua Portuguesa da CPLP, regressei às lides da diplomacia cultural multilateral, no Secretariado Executivo em Lisboa, onde andei durante quatro anos. Neste capítulo, apesar dos problemas orçamentais com que se debatia e ainda se debate a CPLP, julgo, modestamente, ter deixado as minhas impressões digitais na coopração cultural multilateral e na política cultural externa de Angola.

Há na sua obra um apelo constante à necessidade de um pensamento ou de uma visão endógena. Como é que definiria o pensamento ou a visão endógena tanto no domínio dos estudos literários como filosóficos?

Aprendi com os mais-velhos, sábios do continente que nos devem orgulhar. Um é o falecido historiador burkinabe, o professor Joseph Ki-Zerbo. Outro, também falecido, é o teólogo e sociólogo camaronês, Jean-Marc Ela. Há um livro publicado em 1992, sob a direcção de Joseph Ki-Zerbo, em que ele dá o tom no que se refere à operacionalização do conceito de desenvolvimento endógeno. O endógeno, dizia ele, é  um conceito identitário e estratégico. Quanto a mim, diz respeito ao que não é absoluto. É sintoma de vitalidade de um sujeito individual ou colectivo que procura prover as suas necessidades ontológicas, contando com o conhecimento das complexas realidades, próximas ou distantes, que o cercam. Se o conhecimento endógeno é um bem de primeira necessidade, cultivar o endógeno é não dormir na esteira dos outros, porque quem assim procede dormirá eternamente no chão. É a lição que se pode tirar de um provérbio africano, no dizer do Velho Joseph Ki-Zerbo.

A ideia da afirmação  de uma perspectiva analítica endógena (africana) em contraposição à perspectiva ocidental é realmente produtiva, tendo em conta que a perspectiva ocidental, ao fim e ao cabo, é essa que vem sob a capa da globalização?



Os Estudos Globais enquanto domínio interdisciplinar ou displina académica vêm demonstrando que a epistemologia ocidental, a filosofia do conhecimento ocidental em geral, é eurocêntrica, assenta na exclusão do Outro, africano, asiático e sul-americano, partindo do pessuposto segundo o qual o “universal” confunde-se com o que é ocidental, europeu ou norte-americano. Procede-se à racialização da filosofia e da ciência. Perde-se de vista o lugar a partir do qual se fala e pensa. Como se pode compreender, não se trata de uma contraposição ou oposição gratuita. Trata-se da necessidade de fazer pedagogia, introduzir alguma racionalidade nesse falacioso pensamento secular que, remontando à antiguidade europeia, sustenta a imaginação e as invenções do Ocidente.

Os saberes da tradição africana circulam na oralidade e para o seu conhecimento é preciso o domínio das línguas africanas, que, infelizmente, no caso de Angola e outros países, não têm merecido a devida dignificação institucional. Há o risco desses saberes se perderem?

Voltamos ao problema do modo de produção do conhecimento sobre o qual Olufemi Taiwo produziu uma interessante reflexão. Essa produção comporta aquilo a que Paulin Hountondji, após a revisão das suas posições iniciais, vem reconhecer como “saberes endógenos”. Estes saberes, as formas de expressão oral e as respectivas línguas são indispensáveis. Aliás, a União Africana dispõe de diferentes instrumentos  em que se consagra os saberes e as línguas africanas como fundamentos do Renascimento Cultural. A  UNESCO, de que Angola é também Estado-Membro, aprovou a Convenção Sobre a Protecção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais de 2005. Ao abrigo de instrumentos internacionais como a Carta do Renascimento Africano, por exemplo, Angola, que ractificou em 2016 e depositou três meses depois, tem a obrigação de integrar no seu direito interno as formulações normativas que daí derivam. De igual modo o que vem plasmado nessa Convenção da UNESCO.

Na sua opinião as universidades em África, enquanto centros geradores de conhecimento, são devidamente valorizadas pelos governos africanos?

As universidades em África são dispositivos do modo de produção do conhecimento. Mas nem sempre os governos e os investidores privados reconhecem tal facto. Trata-se de uma negligência que afecta a qualidade de ensino no nível terciário. Por isso, as universidades públicas e privadas, descontando honrosas excepções, não cumprem os seus fins, objectivos e missão como seria desejável. São poucos os bons exemplos, nesta matéria. Em Angola, isso também é evidente. Aliás, as estatísticas podem ser úteis, não mentem. Basta ler os relatórios da SADC e da SARUA, a Associação Regional das Universidades da África Austral. Será necessário investir mais, evitar a armadilha de que a prioridade deve estar centrada em áreas disciplinares e científicas que constituem as chamadas STEM, ciências, tecnologias, engenharias e matemáticas. Não é verdade. O financiamento consagrado ao ensino superior e à investigação científica deve ser total, correspondendo àqueles indicadores respeitantes ao capital humano para os quais aponta a Estratégia Continental para a Educação 16-25 e a Agenda 2063 da União Africana. De contrário, a longo prazo não teremos nem Zona de Livre Comércio, nem industrialização, a nível regional ou sub-regional. O meu amigo Marcolino Moco deu um valioso contributo, ao mais alto nível, para essa reflexão, com o seu livro dedicado ao pensamento jurídico pan-africano e ao Direito de Integração Regional.



De que modo é que todo o potencial de saberes e de talentos das diásporas africanas deveria ser devidamente enquadrado e aproveitado em benefício do continente?

O imperativo reside na urgência de transpor os condicionalismos do poder de definição do Ocidente, na medida em que nada legitima o monopólio unicêntrico do carácter universal da ciência e de outros saberes. A existência de diásporas africanas intelectuais recentes, para as quais Angola contribui com uma minúscula percentagem, revelam a eficácia das estratégias de atracção de cérebros africanos para as universidades e centros de investigação do chamado Norte Global. Os governos africanos devem reverter a situação, transformar essa drenagem de cérebros como estratégia sua à escala continental. Há que contar também com os aportes das diásporas intelectuais africanas antigas, os afrodescendentes, existentes em todo o mundo, que fazem parte da chamada 6ª sub-região no contexto da União Africana.

Na sua qualidade de membro do Comité Científico Internacional da UNESCO para elaboração da História Geral de África, pode dizer-nos, concretamente, qual é o campo da sua contribuição pessoal?

Foi em Novembro de 2013 que recebi uma carta da Directora-Geral da UNESCO, então Irina Bokova, através da qual me formulava o convite para ser membro do Comité Científico Internacional que organizaria a edição do IX volume da História Geral de África. Ela anunciava que o Comité Científico seria constituído por dezassete membros, escolhidos de acordo com a sua competência pessoal e enquanto especialistas nos domínios relacionados com os desafios com que se confronta o continente africano. A essa equipa multinacional de que fiz parte coube  a responsabilidade científica e intelectual de coordenar o trabalho editorial e outras acções conexas, tais como a leitura e revisão de dezenas de textos que constituem os capítulos, propostas e recomendações de autores. A meio do percurso, concluiu-se que o material produzido era abundante e de grande qualidade. O Comité propôs que a Directora-Geral aprovasse a decisão de publicar três novos volume da História Geral de África, designadamente, IX, X e XI. É o que vai acontecer. Quanto à minha contribuição pessoal, sou autor de dois capítulos, um no IX volume, que tematiza a descolonização das literaturas africanas e outro no volume X, que tematiza o papel dos intelectuais, escritores e artistas.

Existe realmente uma Filosofia Africana?

Na segunda metade do século XX, um dos mais importantes debates que mobilizava os meios académicos africanos e da diásporas africanas esteve centrado na luta de posições e polarização de oponentes, tendo em vista a legitimação da Filosofia Africana e suas correntes de pensamento. Esta é uma questão que hoje já não suscita discussão argumentativa. Reina a unanimidade nesta matéria. Não faz sentido nenhum revelar cepticismo a respeito desta capacidade dos Africanos, a de produzir um discurso racional e sistemático sobre o mundo, a natureza,  a sociedade, enfim, os fenómenos da própria existência humana. A História da Filosofia Africana fornece as devidas âncoras. Basta ler o livro sobre a filosofia africana do período faraónico do professor congolês Théophile Obenga. A Filosofia Africana hoje é o centro de gravidade de um  campo disciplinar e académico. À volta dele ministram-se cursos, redigem-se teses de mestrado e dissertações de mestrado, organizam-se congressos, publicam-se livros e editam-se revistas especializadas. O meu caro amigo não imagina o volume da bibliografia. No nosso país é também um tópico dos programas da disciplina no segundo ciclo do ensino secundário e uma disciplina dos cursos de Licenciatura em Filosofia. Discutível pode ser eventualmente a qualidade do seu ensino e as competências pedagógicas de quem a lecciona.

 Pode apontar cinco aspectos altamente positivos do continente africano, nos vários campos, e que devem ou deveriam orgulhar qualquer africano?

Quanto a mim, merecem ser mencionados os seguintes domínios: Papel das mulheres na família (Ética); População jovem (Demografia); Tradição oral (História); Obras literárias e de arte como património (Estética); Metais raros e outros recursos naturais (Geociências).

 Voltamos à questão inicial. Quais são os grandes entraves ao desenvolvimento de África?

A dependência multiforme é a metonímia de um enorme obstáculo, como disse. Remover esses obstáculos significa introduzir rupturas de fundo e assumir o poder de definição das prioridades do desenvolvimento endógeno, de acordo com as nossas necessidades. Este é o desafio das próximas décadas, se quisermos tirar proveito daquilo que se vem designando como “dividendo demográfico”, o excedente demográfico de uma população activa jovem, capaz de garantir ao continente um capital humano à altura do seu tempo.