quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A crise da literatura angolana

Nem durante a “longa noite colonial” o cenário foi tão péssimo



A literatura angolana anda nas ruas da amargura. Nunca, nem sequer durante a “longa noite colonial”, a literatura angolana viveu momentos tão péssimos. O cenário actual é confrangedor. O movimento literário desapareceu, os grandes escritores, enquanto cidadãos e portadores de opinião, andam remetidos ao silêncio. Há muito que não surge uma obra, um romance ou um poemário de rotura ou que sintetize e ilumine, com a mais elevada qualidade estética, a época em que vivemos.

Isaquiel Cori

Os concursos literários, que são uma das formas de incentivo à criação literária, estão reduzidos aos prémios do INALD, que entretanto pecam por falta de publicidade, e aos da Sonangol, cada vez mais bissextos e virados para a “universalidade”, isto é, tendencialmente menos angolanos.
O suplemento cultural-literário “Vida Cultural” do Jornal de Angola – uma nova denominação, infeliz, para o tradicional e histórico “Vida e Cultura” – desapareceu abruptamente, com o estranho argumento de que não apresentava qualidade e estava eivado de erros.
Para quem não sabe, o “Vida e Cultura” foi um dos principais canais de veiculação da literatura angolana desde os anos 1980. A chamada Geração de Oitenta da literatura angolana deu-se a conhecer e fez a maior parte do seu percurso inicial por via das páginas do “Vida e Cultura” do Jornal de Angola. Todos os seus integrantes (Lopito Feijó, João Maimona, Sílvio Peixoto, António Panguila, Fernando Kafuqueno, Luís Kandjimbo, E. Bonavena, Frederico Ningi, José Luís Mendonça, Paula Tavares, Ana de Santana, Conceição Cristóvão, João Tala, e outros) começaram a publicar naquele suplemento. A Brigada Jovem de Literatura (ou melhor, as brigadas jovens de literatura) teve ( tiveram) no “Vida e Cultura” o espaço privilegiado de divulgação. E não só. O movimento Ohandanji e escritores ou amantes da literatura solitários sempre tiveram no “Vida e Cultura” um território de circulação predilecta.
Mas não é só isso. Um dos índices do estado de crise da literatura angolana está nas fracas tiragens das obras publicadas. Mil ou mil e quinhentos exemplares são a fasquia máxima das tiragens.
Os angolanos (16 milhões, segundo algumas estimativas) serão tão analfabetos (tão pouco amigos da leitura) que jamais possam dar origem a um “best seller”? Os escritores angolanos serão tão “fracos” que são incapazes de interessar os seus concidadãos à leitura das suas obras?
Aqui, chegamos à responsabilidade dos editores. A única e grande responsabilidade do escritor é escrever boas obras. Os editores têm a sua quota de responsabilidade na crise actual da literatura angolana. O livro é uma mercadoria como qualquer outra. É preciso publicitar o livro e o autor. Sobretudo o livro. Isso implica dinheiro, evidentemente. O exemplo mais evidente, e que deve ser seguido, é o da música.
A música angolana, enquanto fenómeno cultural e social, explodiu. Todos os géneros musicais cultivados em Angola são muito bem ouvidos. As tiragens dos discos são determinadas pela procura. Mas essa procura é “procurada”. Isto é, o disco é publicitado através de todos os recursos disponíveis. Os editores musicais são tão agressivos a “vender” o seu produto que não deixam ninguém indiferente. Como nunca aconteceu na história de Angola, os discos chegam a alcançar tiragens de vinte mil cópias, numa primeira edição. Em função da procura, chega-se a partir para uma segunda edição com igual número de cópias. É obra!
A crise actual da literatura angolana é bastante tributária da crise do sistema de ensino. A escola devia ser um dos principais canais de veiculação das obras literárias, através de programas de leitura obrigatória. Mas, convenhamos, como prover as necessidades de milhares de escolas secundárias, institutos médios e universidades, com míseras tiragens de mil e quinhentos exemplares?
Enquanto não surgir uma crítica literária séria e profissional, que faça a destrinça do trigo e do joio, de modo a impedir que o espaço da literatura seja um terreno fértil para cavalgadas políticas de oportunistas que procuram subir na escadaria social a todo o custo, o cenário não vai mudar.
A comunicação social também tem de mudar de postura. Do mesmo modo que nem tudo que brilha é ouro, nem tudo que é livro é literatura. Um manual de direito ou de economia, um livro de receitas culinárias, não é, rigorosamente, uma obra literária. A comunicação social, em parte, à falta de outras instâncias de legitimação e consagração como a crítica profissional e académica, é responsável pela mediocridade e facilitismo que reinam nas letras angolanas.
Há um outro factor responsável pela crise da literatura angolana. Já não existe o activismo literário, exceptuando muito poucas e raríssimas excepções. Os eventos literário-culturais são raros e dificilmente são frequentados por figuras consagradas das letras. Nomes que há relativamente poucos anos eram referência do cenário literário nacional, fossem como autores ou activistas, simplesmente desapareceram e ninguém sabe deles. O que é certo é que fisicamente ainda não morreram.
Reina o espírito do politicamente correcto na literatura angolana. A transgressão, a rotura, seja estética, discursiva ou de atitude, que é próprio da literatura enquanto arte, simplesmente desapareceram. Há como que uma tendência, por parte dos escritores, para a obtenção compulsiva (obsessiva) de um reconhecimento político-institucional que lhes facilite a assimilação, a integração no sistema político-institucional. Assim, a literatura é vista como apenas um caminho, um meio para acomodação política, social e material.
A Universidade também tem a sua quota parte de responsabilidade. A literatura, em todo o mundo, é objecto de elevados estudos académicos, resultando em teses de licenciatura e doutoramento. Em Angola, neste capítulo, estamos numa fase incipiente. Aliás, ainda não se pode dizer que a literatura angolana já tenha conquistado o espaço universitário.
A literatura é imprescindível ao desenvolvimento humano de qualquer país. A literatura fixa a memória colectiva de modo humano e humanizante. A literatura penetra no canto mais profundo da alma da Nação, traduz o sentimento e as esperanças do povo. Há que, urgentemente, acabar com as barreiras que impedem o desenvolvimento da literatura nacional.