quinta-feira, 10 de maio de 2012

MALENGU JUSTIN ISOLA COMPOSTOS QUÍMICOS DO DITUMBATE

PRIMEIRA TESE DE DOUTORAMENTO NA UNIVERSIDADE AGOSTINHO NETO

Alguns dias depois de ter defendido a sua tese de doutoramento, o Professor Mulangu Malenga Justin, da Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto, ainda recebia os efusivos cumprimentos de colegas, alunos, familiares e até de pessoas desconhecidas. “O professor agora é doutor duas vezes”, brincou, em jeito de felicitação, um dos seus colegas.

POR: ISAQUIEL CORI

Intitulada “Contribuição para o estudo de plantas medicinais em Angola com actividade hepato-protectora: caracterização do perfil fenólico da Boerhaavia Diffusa L”, foi a primeira tese de doutoramento defendida na Universidade Agostinho Neto, em toda a sua história. O acto decorreu no dia 17 de Abril, no Campus Universitário da Camama, em Luanda. Malengu Justin obteve do júri, presidido pelo Magnífico Reitor da UAN, Professor Doutor Orlando da Mata, uma distinção com louvor, o mais alto nível de excelência.

A pesquisa desenvolvida por Malengu Justin, ao longo de quase dez anos, visou extrair, separar e identificar os compostos químicos activos da planta Boerhaavia Difusa, a nossa muito conhecida Ditumbate, em kimbundo, Kudyangulu, em Umbundo, e Bamba, em Côkwe. O estudo avaliou, igualmente, os efeitos da natureza do solo e das condições climáticas sobre a quantidade de compostos químicos activos da planta.



O investigador começou as análises científicas preliminares do Ditumbate em 2003, no Laboratório de Farmacognosia da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto, em Portugal. A espectrometria de massa, que consiste na separação das moléculas, foi feita num laboratório em Espanha. Já o trabalho de análise quantitativa e qualitativa das moléculas foi realizado inteiramente no laboratório da Faculdade de Engenharia da Universidade Agostinho Neto, com a ajuda de um aparelho chamado Cromatógrafo Líquido de Alta Eficiência.

O LESRA (Laboratório de Engenharia de Separação, Reacção e Ambiente), segundo Malengu Justin, em entrevista ao Jornal Cultura, é um orgulho da instituição. Dispõe de equipamento de ponta, adquirido graças ao financiamento de empresas do ramo petrolífero que operam no país.

O Ditumbate prolifera em todas as regiões do país. No estudo foram utilizadas amostras provenientes de Porto Quipiri, Centro Emissor do Cazenga e do jardim do LESRA. Uma das curiosas conclusões foi de que cada amostra tinha o seu próprio perfil químico, em função da natureza dos solos.

O trabalho de investigação de Malengu Justin teve o mérito de identificar doze compostos químicos, oito dos quais foram detectados pela primeira vez no Ditumbate.

“Eu isolei e analisei as substâncias que compõem a planta, cabe agora, por exemplo, aos farmacêuticos determinar o efeito medicinal de cada uma delas”, disse Malengu Justin.

Segundo o cientista, vários estudos de etno-farmacologia e fito-farmacologia, em Angola e no estrangeiro, apuraram que o Ditumbate é eficaz no tratamento de patologias cardio-vasculares e genito-urinárias, da heptatite B, icterícia, e outras. Está igualmente consagrado que é um protector do fígado.

Malengu Justin reconhece o legado científico da bióloga Manuela Batalha Van-Dúnen, que fez um estudo pioneiro, no pós-independência, de catalogação sistemática das plantas medicinais, com base em pesquisas etno-botânicas em várias regiões do país. O académico faz um apelo aos jovens estudantes universitários: “temos de despertar o interesse pelas plantas medicinais. Há que resgatar o saber tradicional a respeito das suas propriedades terapêuticas. Esse saber constitui parte da memória colectiva e é o ponto de partida para os estudos científicos”.

Uma fonte da Reitoria da UAN afirmou a este jornal que o programa de defesa de teses de doutoramento vai prosseguir. A programação está dependente das várias Faculdades.



Perfil do académico



Mulangu Justin nasceu aos 23 de Setembro de 1943, em Lubumbashi, na República Democrática do Congo. Fez a licenciatura em Electroquímica na Universidade de Bruxelas, Bélgica. Vive em Angola há trinta anos. Casado, com quatro filhos, é professor titular do Departamento de Engenharia Química da Faculdade de Engenharia da UAN. Já teve participação em três projectos industriais. É adepto do Barcelona e do Petro de Luanda.

O estudioso revelou ao Jornal Cultura que lhe foi feita, por uma autoridade que não identificou, a proposta para requerer a cidadania angolana.

O seu trabalho de doutoramento serviu de base para um artigo que publicou na revista Phytochemical Analysis, editada em Inglaterra. Fala fluentemente o português, francês, swahili, lingala e tchiluba, e, razoavelmente, o inglês e o espanhol.

“Vou repousar um pouco e depois vou tentar interessar os meus alunos a continuarem as pesquisas, sob minha direcção”, disse, questionado a respeito dos seus planos.