terça-feira, 20 de outubro de 2009

INTERNET

INTERNET
Cresce o número de blogueiros angolanos

Um número crescente de cidadãos angolanos temerariamente aventura-se pela criação de blogues, actualmente um dos principais vectores de inclusão e difusão de conteúdos na Internet

Isaquiel Cori

“Navegar é preciso”. Não já pelos mares desconhecidos a que aludia o poeta português Fernando Pessoa, mas pelo universo virtual da Internet. Para além de permitir o acesso à informação, a Net, naquilo que tem de mais democratizante, possibilita, a quem quer que seja, incluir nela a sua própria visão do mundo, passando assim o indivíduo de mero receptor a produtor de conteúdos.
De “celebridades” a pessoas simples, qualquer pessoa pode criar gratuitamente o seu blog e introduzir nele, com uma liberdade apenas limitada pelo senso de responsabilidade, as suas ideias, imagens e vídeos.
Através de uma pesquisa na Web, constatamos que cresce a quantidade de blogueiros (ou bloguistas) angolanos activos. Os blogs manifestamente angolanos, como acontece em todo o mundo, variam bastante de temática. Uns são mais intimistas e parecem obedecer a uma necessidade profunda de exaltação do ego. É o caso do blog “Mundo de Polly”, cuja autora, estudante de engenharia, tem 18 anos. Ela diz no seu perfil: “Eu gosto muito de mim e nenhum ser que saiu debaixo de uma pedra a rastejar vai mudar isso. Estou-me nas tintas para o que dizem de mim. Não sou superior, supero-me”.
Outros blogues tendem a ser de carácter mais informativo e opinativo. É o caso do “Morro da Maianga”, “um espaço de abordagem crítica sobre os mais variados temas da actualidade angolana e internacional (…)”. O seu autor é o jornalista Reginaldo Silva, um dos blogueiros angolanos mais regulares e antigos, ainda do tempo em que os blogs não eram um recurso oferecido gratuitamente pela Internet.
Entre essas duas tendências temáticas existe todo um mundo de diversidade. O limite é a criatividade e a imaginação do autor.

O que move os blogueiros

O que faz com que uma pessoa, a partir de um determinado momento, decida criar e alimentar regularmente o seu blogue? Certamente, a necessidade de comunicar algo, de saltar a barreira do isolamento e estabelecer pontes com o outro. “Dado o quase total desconhecimento da nossa literatura a nível nacional, nas escolas, universidades, etc., achei que seria útil criar um espaço de consulta e informação (…). Deste modo dou a conhecer as minhas obras e, por consequência, um pouco da literatura angolana”, afirma Fragata de Morais, escritor.
Fragata de Morais é autor de um blogue em que divulga as suas peças literárias, inéditas ou editadas em livro, bem como fotos suas em eventos públicos. O blogue apresenta também mais de uma dezena de links para sites de temática literária e cultural.
Segundo Reginaldo Silva, o seu actual blogue, criado em Junho do ano passado, “resultou de uma necessidade (…) de poder comunicar com terceiros sem intermediários e sem ter que pedir nem prestar contas a ninguém, o que me dá uma grande alegria e satisfação, quer como jornalista, quer apenas como cidadão angolano e do mundo que sente necessidade de partilhar informações e opiniões com os seus semelhantes”.
Luciano Canhanga, também jornalista, criou o blogue “Mesu ma Jikuka” em Abril de 1995 no contexto limitado de um curso que estava a frequentar em Portugal. Hoje Canhanga subiu a fasquia da sua ambição e mantém o blogue activo como “forma de poder contribuir para uma informação plural, com notícias e reflexões sobre temas da actualidade”. O blogueiro confessa sentir-se “realizado”, dado o crescente número de leitores e comentaristas. “O que mais me satisfaz é ser várias vezes ponto de partida para reportagens dos media angolanos. Textos meus foram republicados por jornais impressos e outros blogues. Isso é reconfortante”.
A percepção de que o blogue está a ser útil e consultado por centenas e até milhares de pessoas espalhadas pelo mundo inteiro é um autêntico combustível para a criatividade dos blogueiros. A maior parte dos provedores de blogues disponibiliza uma ferramenta para contagem e determinação do país de origem dos internautas visitantes. Daí é possível aferir, naturalmente, o quanto o blogue é ou não popular. Por exemplo, de Junho de 2008 a 13 de Outubro deste ano, o blogue “Morro da Maianga” recebeu cerca de 18 mil visitas.

Difusão e promoção

Na qualidade de habitantes do mundo virtual, os blogueiros tendem a estabelecer entre si relações de cumplicidade, que se materializam através das várias ligações (links) entre blogues. Essa é uma das vias para sua promoção. Mas não há promoção maior do que quando o blogue é alojado no site de uma instituição prestigiada. “Acabei de receber, há dias, um e-mail da Harvard University, dos Estados Unidos, que me informava que tinha colocado o meu blogue para os seus estudantes, no seu site. É uma satisfação, logicamente”, revela Fragata de Morais, cujo blogue está igualmente alojado nos sites das universidades angolanas Lusíada e Metodista.
A criação e difusão de blogues em Angola ainda encontra bastantes limitações. Num universo de 14 milhões de habitantes, cerca de 41 mil pessoas, segundo dados da União Internacional de Telecomunicações, utilizam a Internet em Angola.
As evidências apontam para o facto da grande maioria ter acesso à Web apenas a partir do local de trabalho, isto é, condicionadas pela ocupação laboral. E há a visão generalizada de que a Internet é, acima de tudo, um local de recolha de saberes e não, também, de colocação de saberes.
Essa realidade, que para outros blogueiros poderia ser considerada deprimente, não o é para Reginaldo Silva: “Devo confessar que a minha actividade como bloguista é, sem dúvida, aquela que mais me tem realizado como profissional e não só, desde que há mais de trinta anos entrei, pela porta da RNA, na comunicação social”.

Figuras públicas

Um forte indício do quanto a Internet ainda está longe de ser dominada pelos angolanos reside no facto de parte significativa das personalidades do mundo das artes, dos espectáculos e da media, vulgarmente denominadas figuras públicas, não possuir um blogue. Se têm um endereço electrónico já é muito.
Víctor Hugo Mendes, apresentador do programa “Dia a dia”, da TPA 2, confessa que não tem blogue. “Mas faço uso das redes de relacionamento e consulto blogues que divulgam coisas importantes. Nas minhas páginas de relacionamento divulgo fotos e textos sobre os lugares onde passo”.
A cantora Pérola garante que até Novembro terá disponível o seu blogue. “Terá o básico: o meu historial, discografia, agenda, fotos e a possibilidade dos meus fãs interagirem comigo”.
Autora de dois discos de sucesso, “Os meus sentimentos” e “Cara e coroa”, Pérola, que não esconde a intenção de internacionalizar a sua carreira, diz que sempre navegou na Internet e que a criação do seu blogue “é uma forma de personalizar” o seu trabalho.
Love Kabungula, futebolista do 1º de Agosto e dos Palancas Negras, afirma que não tem blogue. Nem e-mail. “Não faço muita frequência à Internet por uma questão de tempo. Mas já tenho necessidade de ter um blogue, por causa das muitas pessoas que desejam aprofundar os seus conhecimentos a meu respeito”. E o craque remata: “Até a próxima semana crio um blogue”.
O apresentador Victor Hugo Mendes reconhece o enorme défice de internautas entre as nossas figuras públicas. “Muitos acham que ainda é desnecessário fazer recurso à Internet. Em dez artistas ou músicos se calhar apenas um possui e-mail”.

O calcanhar de Aquiles

Para o comunicólogo João Adilson o fenómeno blogue “é um pouco parecido àquilo que a Internet se tornou hoje em dia: uma rede de informação individualizada, onde somos muitos, parecemos estar juntos e unidos mas cada um faz a sua comunicação separadamente”.
No seu entender contribui para o sucesso dos blogues “a dificuldade de acesso e protagonismo nos meios de comunicação convencionais (rádio, jornal, TV). No fundo, o blogue é um meio de cada um postar a sua visão sobre determinado assunto ou situação. Há uma maior liberdade de expressão, ninguém censura os textos ou as imagens e os assuntos são ilimitados”.
João Adilson reconhece que há em Angola, ainda, um grande défice de cultura informática. “Os computadores são vendidos a preços especulativos, não existem computadores para todos nas escolas, nos circuitos privados o acesso a eles é caro, o serviço de Internet é dispendioso, e a cultura informática ainda é pouco acessível e divulgada”.
A maneira de fazer com que os cidadãos angolanos sejam mais activos na Internet, isto é, produtores e não meros consumidores de conteúdos, segundo João Adilson, passa, necessariamente, pela “divulgação da cultura informática nas escolas, criação de cibercafés e centros especializados de formação”.
Mas, aqui está o calcanhar de Aquiles, o fundamental mesmo é “melhorar as políticas de preços dos serviços de Internet no país, que são muito caros”.