terça-feira, 29 de junho de 2010

Comunidade de leitores ou a cultura que se cultiva

Isaquiel Cori

Numa ida recente a pelo menos três livrarias da cidade de Luanda, em conversa com livreiros, constatei que são muitas as pessoas que aparecem para comprar livros. “Elas são sobretudo jovens. Entram, circulam entre as estantes, seguram os livros, vacilam, analisam os preços, e, sempre hesitantes, acabam finalmente por dirigir-se ao caixa com um ou dois livros ou então abandonam a livraria de mãos a abanar, entre o frustrado e o envergonhado”, disse um dos meus interlocutores.

O Jardim do Livro Infantil, que terminou no último Domingo em Luanda, deu mais uma prova de que há sim muita gente interessada no livro e na leitura. Em três dias, segundo a agência de notícias ANGOP, compareceram ao evento mais de 12 mil pessoas. É muito? É pouco? É encorajador.
Existe sim uma comunidade de leitores em Luanda. São pessoas que amam a leitura, a incluem entre os seus principais hobbies e procuram inculcá-la aos seus filhos.
Mas essa comunidade de leitores anda à deriva. São pessoas que sacrificam os seus orçamentos para ter um livro e vasculham as livrarias em busca de um título mais acessível. As feiras do livro e da leitura que ocasionalmente vão ocorrendo, até pelo facto de, na generalidade, nelas os livros serem vendidos com descontos, constituem verdadeiros nichos num mercado a todos os títulos inflaccionado.
É minha opinião que nessa cadeia que vai do livro ao leitor e à leitura, começando naturalmente pelo autor, há um factor que entre nós se apresenta bastante deficitário: os veículos da difusão do livro e do fenómeno literário em geral. Refiro-me, concretamente, à comunicação social.
A comunicação social angolana, como é sabido, dedica pouco espaço a matérias culturais. E esse espaço já de si escasso é geralmente ocupado pela simples narração de eventos: aconteceu ou vai acontecer assado e cozido. Raramente se vai à profundidade e à explicação dos factos.
Em se tratando do livro, os leitores precisam de ser orientados. À falta de uma crítica académica ou profissional, bem que a comunicação social poderia cumprir essa “missão”, fazendo e publicando pequenas recensões críticas e pré-publicando excertos de livros. Entrevistas sérias aos autores, baseadas numa leitura prévia do livro a publicar, ou recentemente publicado, também se tornam indispensáveis.
Chegados aqui, põe-se a questão dos editores de livros. As casas editoras deviam ser mais activas na sua relação com a comunicação social, estabelecendo relações directas e dinâmicas com as editorias culturais, que passariam pela entrega prévia de exemplares do título a lançar.

Insuficiências da media

Enquanto autor e profissional da comunicação social, reconheço que a classe também enferma de um grande défice de hábitos de leitura. E entre ler um livro e ter a capacidade de o resumir e o analisar em texto, por mais ligeiro que seja, vai uma grande distância.
Enfim, é um problema próprio de um país jovem, que apesar de ter trinta e cinco anos de independência, verdadeiramente só a está a desfrutar na plenitude há oito anos. Enquanto as universidades não colocarem no mercado profissionais da comunicação social que encarnem o seu papel de intelectuais e de agentes activos da cadeia de elaboração e difusão do saber, as coisas hão-de continuar como estão.
Até lá, há que estimular os poucos profissionais capazes no interior dos órgãos a ler e a escrever sobre o que lêem. A terem uma atitude intelectualmente activa, crítica, de desassossego. O jornalismo de opinião deve transcender a política e abarcar e penetrar o fenómeno cultural e literário.
Então, haja vontade e cultura. E lembremo-nos: a cultura cultiva-se.