domingo, 2 de janeiro de 2011

O meu aldrabão favorito

Isaquiel Cori

Os aldrabões assumidos, confirmados e reconfirmados nos seus atributos, são figuras muito nossas conhecidas. Eles pululam em nosso redor.
Há os que se apresentam puros, inconfundíveis, até mesmo perfeccionistas: neles, o aldrabar já é um modo de vida. São, digamos assim, artistas da aldrabice.
Mas entendamo-nos: aqui, estamos a falar dos bons aldrabões, dos indivíduos em todo o caso honestos na sua desonestidade, e coerentes, porque sistemática e repetidamente incoerentes.
É fácil identificá-los nas suas falas versáteis e fluentes e nos gestos largos com que dão mais força às suas estórias engenhosas.
São aldrabões porque é assim que vivem e alimentam o seu ego. Mas porque já sobejamente conhecidos raramente provocam danos. Suscitam o riso, tiram-nos do sério e contribuem imensamente para o nosso bem-estar.
Alguns foram tão marcantes na nossa infância que as suas estórias continuam a povoar-nos o imaginário e eles próprios a habitar a nossa memória.
Há uma geração de ex-crianças do Kassequel do Buraco e do Kassequel do Lourenço, bem como da Calemba, do tempo em que os bairros, mais do que um conjunto de casas eram um sentimento incrustado no coração das pessoas, que conheceu muito bem o Mano Azevedo. Ele narrava-nos histórias incríveis, grosseiramente mentirosas e falsas, de tal modo que, trinta e tal anos depois, essa figura ergue-se na lembrança dos hoje adultos como a consumação da aldrabice e da mentira.
Mas trinta e tal anos atrás ele fora o portador do fantástico e do inverosímil para um pelotão de crianças ávidas do maravilhoso. As suas estórias convocavam e apelavam ao sonho, dinamitavam as frágeis, falsas e arbitrárias fronteiras da nossa realidade.
Até hoje, o Mano Azevedo é o meu aldrabão favorito.