quinta-feira, 5 de maio de 2016

"MESU MAJIKUKA": OS REFORÇOS E OS PESOS MORTOS NAS ORGANIZAÇÕES

"MESU MAJIKUKA": OS REFORÇOS E OS PESOS MORTOS NAS ORGANIZAÇÕES: Numa dada formação que frequentei sobre Gestão de Capital Humano nas Organizações, o mestre falava, a dado momento, sobre os "pesos mo...

segunda-feira, 2 de maio de 2016

ESCRITOR LUANDINO VIEIRA: "ESTÁ A PASSAR UM ELEFANTE E VOCÊ OLHA PARA AS PULGAS?"

ISAQUIEL CORI


O escritor Luandino Vieira foi alvo, em Novembro de 2014, de várias homenagens, que culminaram com o colóquio “De Luuanda (1964) a Luandino (2014): Veredas”, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2015 publicou, pela Editorial Caminho "Papéis da Prisão: apontamentos, diário, correspondência (1962-1971)", que ele considerou uma súmula dos doze anos que passou confinado pelo regime colonial português no Campo Prisional do Tarrafal, em Cabo Verde. Tudo isso, e uma detalhadíssima infografia sobre a sua obra publicada no Rede Angola, trouxe à tona da minha memória o papel determinante que o Luandino Vieira teve na auto-assumpção da minha condição de escritor. Efectivamente em 1990, salvo lapso de memória, encontrei-o na Ler & Escrever, uma pequena livraria e editora que funcionava ao lado do Hotel Globo, em Luanda. Dei-o a ler o manuscrito do romance "Sacudidos pelo Vento", que ele elogiou rasgadamente, mas pedindo que o reescrevesse. Assim o fiz e levei-o ao concurso Sonangol de Literatura de 1994, onde obteve Menção Honrosa. Muito mais tarde, em 2004, do lugar recôndito de Portugal para onde se retirara, recebi um postal seu, onde dizia: "Mão amiga fez-me chegar o teu livro e vejo que ganhaste asas para voar e fazer coisas para o engrandecimento da nossa terra". Referia-se ao meu livro de contos "O Último Feiticeiro".
Em 2006 Luandino Vieira ganha o Prémio Camões mas recusa-se a recebê-lo. Neste mesmo ano vem a Luanda e fiz tudo para o encontrar e o entrevistar, numa altura em que estava ligado à preparação da primeira edição dos Cadernos ÉME, do Secretariado do Bureau Político do MPLA para Informação, sob direcção editorial executiva do jornalista Fernando Tati. O encontro e a entrevista consumaram-se em Novembro de 2006, em casa do escritor Arnaldo Santos, num ambiente descontraído. A entrevista alargou-se a Arnaldo Santos, um velho compadre de Luandino Vieira, e rendeu umas três horas de gravação, com temas centrados na vida e obra de LV mas também de Arnaldo Santos. Transcrevi às pressas as falas do LV, com a intenção de mais tarde fazer o mesmo com as do Arnaldo Santos. Infelizmente, viria a perder o registo magnético da entrevista numa mudança de casa. Até hoje essa lembrança dói-me.
Comecei a ler Luandino Vieira na adolescência. Livros como "A Vida Verdadeira de Domingos Xavier", "Luuanda", "João Vêncio. Os seus Amores", "Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & Eu", li-os fechado no meu quarto, no Kassequel, ainda rapaz imberbe, muitas vezes à noite, à luz do candeeiro a petróleo. Eram livros do meu irmão mais velho, Borges António Cristóvão, de grata e saudosa memória. A entrevista ao mestre Luandino Vieira, publicada originariamente nos Cadernos ÉME, em 2006, está também algures neste blogue, com o título "Alguém passeia em mim". Abaixo, decidi retomar o título da primeira publicação, além de caprichar mais na edição.




Luandino Vieira (n. 1935) é considerado pela crítica como um dos mais importantes ficcionistas angolanos, do espaço de língua portuguesa, e não só. Ausente do país desde 1992, “por razões pessoais e familiares”, regressou a Angola para o lançamento do seu mais recente romance, “O Livro dos Rios” – primeiro título da trilogia “De Rios Velhos e Guerrilheiros”. Na entrevista que segue, presenciada e participada pelo seu amigo e colega Arnaldo Santos, Luandino Vieira fala não só da sua obra literária mas também da sua participação na luta anti-colonial (chegou a passar 12 anos  confinado ao centro prisional do Tarrafal de Santiago, em Cabo Verde). “Nós tivémos a sorte histórica de poder participar num momento absolutamente ímpar da nossa história, que foi a luta de libertação nacional, que deu lugar à independência política”, diz. E cita Mendes de Carvalho: “O MPLA é um rio de muitas águas”.

PERGUNTA – Depois de catorze anos de ausência de Luanda, como é que vê a evolução da cidade de Luanda?
LUANDINO VIEIRA – Nota-se, obviamente, que se passaram catorze anos entre aquilo que eu deixei e aquilo que eu encontro. Acho que a cidade está em frenesim. Eu não posso dizer que seja um movimento desusado, mas para mim é um movimento surpreendente. Posso estar também a confundir, porque só dei duas ou três voltas na cidade, praticamente no centro histórico, na Baixa, na Marginal.

PERGUNTA – Já esteve no Kinaxixi?
LV – Ainda não fui ao Kinaxixi. Tenho isso programado. Quero ir a Viana porque falando com amigos que moram já fora do centro, soube que Luanda está a chegar, calmamente, às margens do Kwanza. Isso dá uma ideia da expansão nesses últimos anos. Encontrei uma cidade que, estranhamente, eu pensava que ia ser mais diferente. E depois dei-me conta que afinal é a minha cidade. Fisicamente, olhando, a gente nota que houve muitas mudanças. Há prédios que não havia, nos sítios que não havia.
Mas o que permanece é muito mais forte, em termos de identidade do território e do espaço, do que as marcas visíveis do que se está a fazer agora em termos de desenvolvimento da cidade: as novas soluções para o trânsito, as novas soluções urbanísticas…
Portanto, é um sentimento ainda um bocado difícil para mim ao fim de uma semana. Vejo que é diferente mas ao mesmo tempo é igual. É como quando a gente mete a chave na porta, entra em casa e reconhece que está em casa mas algumas coisas foram mexidas. Agora… é um movimento e penso que não foi só um acréscimo de movimento, ou o que se chama de crescimento, vamos mesmo dizer talvez, de desenvolvimento. Mas imagino que tenha sido um aumento enorme de problemas de gestão do território, de controlo do território… Não é tarefa fácil para ninguém gerir este espaço de Luanda, um espaço carregado de valor simbólico que vem de muitos séculos. O que é Luanda? Há uma parte de Luanda que já é mítica, simbólica.

PERGUNTA – O próprio Luandino Vieira, com os seus livros, contribuiu para um certo paradigma mítico de Luanda.
LV – Os escritores funcionam tanto no plano da realidade como no plano dos sonhos. Às vezes confundem as duas coisas, felizmente, para projectar alguns sonhos. Essa cidade que nós, eu e o Arnaldo Santos, pusemos nas nossas obras, por exemplo aí a área do Maculusso e do Kinaxixi, o tempo é que vai dizer se eram valores simbólicos que tinham a sua verdade real ou que têm a sua vigência para a definição da identidade da cidade. Para a nossa geração e para a geração seguinte e pelo facto dos livros terem sido publicados… isso tem uma certa premência. Esse espaço foi que nos inventou a nós. Enquanto crianças ele definiu uma parte da nossa identidade. O que fizemos foi talvez passar isso para a letra escrita, para a literatura e tentar transmitir sonho, que afinal, se calhar, não se adequava à realidade.

PERGUNTA – É certo que essa visão, esse sonho, se quisermos, foi adoptado por gerações posteriores. Há quem não viveu nos musseques de Luanda naquele tempo (antes da independência) e a ideia que tem dos musseques é a que é descrita nos livros do Luandino e de outros escritores da sua geração.
LV – Por isso tenho o cuidado de dizer que nem sempre transmitimos o real; transmitimos às vezes o que sonhámos que era e o sonho do que deveria ser. Portanto, os jovens devem fazer essa leitura com a devida cautela. A literatuta tanto se alimenta do que é real como do que é fictício, da sua própria ficção, do sonho dos escritores. Olhando para trás, não há que renegar esse traço, essas notas que estão no meu trabalho literário. Continua a haver esse passado do modo como o escrevi há muitos anos.

PERGUNTA – O Luandino está cá em Angola já para ficar?
LV – Ainda não estou para ficar porque estive fora estes anos todos por motivos rigorosamente familiares e particulares e que não têm nada a ver com outra coisa que não seja isso. Como deve calcular, nós acumulámos muita coisa. Sobretudo os escritores acumulam papéis à mais, memórias à mais... Esta oportunidade de vir foi ditada por compromissos de lançar os livros ao mesmo tempo, eu e o meu compadre Arnaldo Santos; Kinaxixi e Makulusu... E, claro, para aproveitar a ocasião para ver como é que devo arrumar, o que é que devo arrumar para trazer. Se não podemos escolher o sítio onde nascemos podemos escolher, ao menos algumas vezes, o sítio aonde queremos morrer.

PERGUNTA – Acaba de dizer que esteve fora de Angola estes anos todos por razões estrictamente familiares e particulares. Será então escusado perguntar-lhe das circunstâncias que o levaram a sair de Angola em 1992?
LV – Em 1992, quando recomeçou a guerra civil, naqueles termos, eu já não tinha nenhum cargo, nenhum compromisso; e foi-me dada uma bolsa para criação literária, de dois anos. Recebi a bolsa e fui para Portugal para pesquisar e para tentar escrever. Não consegui escrever naquele tempo e entretanto comprometi-me com a minha mãe a ficar com ela até aos seus últimos dias. E foi o que sucedeu.

PERGUNTA – Constou-me que chegou a rasgar (ou a queimar) um romance que já tinha pronto.
LV – Eu ainda trabalho à moda antiga. Não tenho computador e escrevo à mão. Não sei guardar arquivos e, portanto, só a minha memória é o meu arquivo. Depois de escrever achei que o melhor era queimar; às vezes é melhor começar tudo de novo do que tentar emendar. Às vezes o pano onde a gente quer pôr o remendo já não aguenta o remendo.

PERGUNTA – Tem dito repetidamente, quando perguntado, que negou o Prémio Camões por razões pessoais e íntimas. Será descabido supôr que essa negação terá também alguma coisa a ver com o escândalo que resultou da atribuição, em 1965, do "Grande Prémio de Novelística" da Sociedade Portuguesa de Autores, com a intervenção das autoridades fascistas, que dissolveram aquela sociedade?
LV – Não tem nenhuma relação com os prémios anteriores, nem com o modo como existe o Prémio Camões.

PERGUNTA – A sua recusa não significa então uma negação do Prémio Camões enquanto instituição?
LV – O Prémio Camões é uma boa instituição. Eu não conheço em pormenores os regulamentos e a filosofia do prémio mas sei que é um prémio para os escritores que enaltecem ou desenvolvem a língua portuguesa, para escritores de todos os países que utilizam a língua portuguesa. Neguei-o por razões pessoais e íntimas. A última vez que escrevi e publiquei, não quer dizer que seja a última vez que escrevi, foi em 1972. De 1972 a 2006 quantos anos se passaram? Se se meditar um pouco sobre isso, os leitores actualizados da literatura, os que lêem e vão seguindo o movimento editorial, os que conhecem outros escritores, outras obras dos antigos escritores, novas obras dos novos escritores, o surgimento de novos talentos, de novas correntes literárias, haveriam por exemplo de perguntar (não quero dizer que seja essa a razão, mas eu se fosse leitor perguntava) como é que não sendo o prémio de carreira, porquê que atribuem um prémio a um escritor que está morto? O Prémio Camões não é um prémio póstumo. E um escritor que fica tanto tempo sem publicar... Poucas pessoas sabiam que eu estava vivo, mesmo fisicamente. Estou convencido que muita gente dizia: “Ele deve ter morrido, nunca mais o vimos, nunca mais o ouvimos”. Isto é apenas um exemplo.
As minhas razões foram rigorosamente íntimas e pessoais. Não têm nada a ver com a instituição do prémio, nem como o prémio é atribuído ou não atribuído. Têm a ver com o modo como eu vejo a minha situação de escritor dentro do sistema literário em língua portuguesa, o meu papel e o meu lugar nesse sistema literário.

ARNALDO SANTOS – Contra a vontade do entrevistador eu atrevo-me a dizer que não há escritores mortos como o Luandino estava aqui a defender. Porque os escritores, como Agostinho Neto, Viriato Cruz, etc., que até fisicamente estão mortos, continuam muito vivos. É um argumento que eu tenho contra o meu compadre.

LV – Até podemos entrar em polémica. A polémica seria sobre se aquilo que se chama um escritor e que é definido por um nome se refere à pessoa ou às obras. É evidente que essas obras foram produzidas por alguém. Mas no trabalho literário o próprio escritor, depois, às vezes pergunta “quem é que em mim escreveu isto?”

PERGUNTA – Defende uma perspectiva mística do acto de escrever?
LV – Não é mística, porque sucede. A gente escreve e mais tarde lê e diz assim, “mas eu escrevi isto? Fui eu? Alguém em mim escreveu isto?”

PERGUNTA – Ou: “Terei sido possuído por...”
LV – Não, não é isso. Penso que não é a possessão, nesse sentido. Mas a nossa identidade pessoal é uma coisa muito complexa e é feita de muitos dados. O nosso ADN literário, digamos assim, inclui tudo quanto a gente leu e tudo quanto a gente sonhou e quanto a gente ouviu. Nenhum de nós sabe o que é que está arquivado aqui nessas pastas do nosso cérebro. E muitas vezes nós não temos a mínima percepção de que isto estava lá guardado e damo-nos conta de que estava porque apareceu na escrita. O Arnaldo está aqui e sabe que se começamos um texto da maneira errada, isto é, se conduzir é com o volante à esquerda e a gente começa a conduzir com o volante à direita, temos que parar e mudar de trânsito. Isto é, rasgar e começar de novo; por aquele caminho não vamos lá. Quem é que nos diz que por aquele caminho não vamos lá?
A nossa identidade literária determina muitas vezes muitos textos dos quais não tínhamos sequer a percepção de que existia essa capacidade em nós. Ou essa incapacidade, quando falhamos: “porquê que falhei se tinha tudo tão bem pensado na minha cabeça?”

PERGUNTA – Dirijo-me ao Arnaldo Santos. Concorda com o Luandino?
AS – Você já notou que nós não temos as mesmas ideias sobre este assunto. Porque eu não considerava, de forma nenhuma, o Luandino um escritor morto. E mais ainda: eu tinha boas razões para admitir que o júri, que era formado por gente, à partida, inteligente, sabedora, etc., quando pegou na obra dele, não estava por estas considerações, com as quais eu concordo plenamente, para avaliar a obra do escritor Luandino Vieira, para lhe atribuir o Prémio Camões. O júri foi mesmo buscar essa obra, independentemente do autor se ter arquivado lá no convento de Sampaio.  
Eu não considerava de forma nenhuma o Luandino um escritor morto. Eu sabia que o escritor continuava vivo, movia-se ou vivia como escritor, portava-se como escritor, eu convivia com ele como escritor, falava e inclusivamente mandava os meus textos a ele como escritor. Logo, o escritor estava aí. Ele só precisava era sacudir aquela preguiça que normalmente os escritores costumam passar. Ele sacudiu e temos aí um escritor vivo para mais livros, muitos mais livros.

PERGUNTA – Luandino: é verdade que durante os anos todos em que ficou sem publicar fez como que uma longa viagem interior e vivia como um eremita? Fez um auto-exílio, na tentativa de, se calhar,  recuperar motivação para a escrita?
LV – Não, não foi na tentativa de recuperar motivação para a escrita. Ao longo destes anos fui sempre escrevendo. Pelo menos guardando na minha memória temas e mesmo frases e palavras. Passei a meditar sobre a literatura, sobre o meu trabalho anterior, sobre a realidade que tinha dado origem ao meu trabalho anterior, sobre a minha participação modesta nessa realidade e sobre os elementos fundamentais dessa realidade; portanto, era uma meditação mais sobre a minha identidade.
De modo que ao longo destes anos todos o isolamento físico ajudou... O isolamento físico é devido também ao meu modo de estar no mundo. Não sou pessoa de muita confusão. Mas isso permitiu-me ver uma parte do meu relacionamento com a nossa realidade que eu não tinha aprofundado muito mas que em todos os livros já estava.
Eu voltei ao Domingos Xavier [“A Vida Verdadeira de Domingos Xavier”, 1974] e obviamente o aspecto militante do livro... li e segui o aspecto humano dos personagens, sendo personagens que foram criados sobre figuras que eu conheci e passaram aqueles dramas... Por exemplo, num capítulo, um dos personagens, já não me lembro quem, olha para o rio Kwanza... eu me dei conta de que logo ali, num romance que não tinha nenhuma intenção de tocar na nossa natureza, que é afinal o nosso grande aquário onde todos nós angolanos nos movemos, já estava lá essa preocupação com a natureza, com o rio Kwanza. No Domingos Xavier já estava lá o Kwanza!... E fui descobrir que aos oito/nove anos eu tinha feito uma viagem pelo kwanza acima, num daqueles barcos que faziam  cabotagem para Calumbo... coisa que no meu subconsciente estava adormecida, tal e qual como andei na escola ou ia, pela mão do meu pai, ao centro espírita, como ia aos Coqueiros, ao Clube Atlético de Luanda... coisas que não tendo sido valorizadas estavam na génese dos quadros em que se movia o meu trabalho literário, a minha ficção literária. Isso fez-me compreender que a presença da terra angolana (rios, montanhas, pássaros) – agora aqui com o meu compadre, aqui na casa dele, a primeira coisa que a gente faz é identificar quem está a cantar na mulembeira; aí um “dikole” farta-se de cantar, um “mbolo quinhentos” canta, canta, canta; os “plim-plau” não saem daqui...  – então isso fez-me reflectir: ... “Afinal eu tenho   reduzido a minha maneira de ver a nossa realidade, porque a presença avassaladora da terra  não tem sido reflectida”.
Agora, isso que chamam exílio, auto-exílio, não existe. Eu já disse isto e posso repetir: há uma certa tendência da comunicação social para emoldurar as atitudes das pessoas. E então em relação aos escritores, aos artistas, aos músicos, essa moldura passa também por alguns preconceitos. Vamos ser claros.

PERGUNTA – O auto-exílio pode acontecer em qualquer lado, não implica necessariamente uma viagem de um lado para o outro.
LV – Sim. E podia estar aqui muito mais exilado do que eu estava lá, em Portugal. Eu nunca deixei de estar em Angola. Devo fazer esta precisão: têm que nos dar, a nós também escritores e artistas, a possibilidade, este privilégio de sermos também humanos e de podermos ficar num sítio qualquer só porque procuramos trabalho, porque há o emprego, porque gostamos de viver ali, porque a nossa família nos pede para estar... O escritor, o músico, o artista, se não está é porque exilou-se, auto-exilou-se... Exílio político? Não está de acordo? Não é nada disso. Eu sinto necessidade de ir fazendo algumas introspecções porque até os combóios que andam em duas linhas paralelas, em certa altura tem que ter agulheiros, tem agulhas para desviar... Se queremos viver conscientemente temos que ir de vez em quando, não digo permanentemente, ir aferindo a nossa própria actividade, a ver se está de acordo com aquilo que nós somos e sentimos sinceramente ou se nos estamos a desviar dessa nossa matriz que é a nossa força interior. Pode soar a desculpa, mas não é.

PERGUNTA – “O Livro dos Rios” é assim a redescoberta do tema da Natureza...
LV – É a assumpção. Assumir inteiramente que do nosso real a Natureza tem tanta força como a acção dos homens. Mais: porque os homens reflectem no seio dessa Natureza. Só que nós, os humanos, somos muito vaidosos e não estamos atentos. Passamos por uma árvore e é uma árvore... metemos a moto-serra e a cortamos. Chegamos a um sítio qualquer e não vemos que sem este sítio nós não teríamos a nossa identidade. Sobretudo nós, os urbanos, os citadinos. 
Eu gosto de estar aqui, na casa do meu compadre, porque a mulembeira está ali, e o sape-sapeiro... Hoje vamos tentar podar um pau de maçã da Índia que está com uma doença, a ver se ainda a salvamos. Isto faz parte da nossa identidade. E “O Livro dos Rios” e os outros dois que se seguem, tratam fundamentalmente disto: a relação do homem angolano com a terra angolana, naquilo que a terra define e ajuda a definir, naquilo em que o homem tem consciência. Isso traz um grande orgulho. Penso que se alguma coisa de novo eu pude introduzir nesse primeiro livro já não é só o orgulho de sermos angolanos, de termos as conquistas que fizémos em 40 anos de luta... É também esse orgulho da terra, dos rios... A angolanidade é um todo.
Ontem, falando com alguém que me estava a tentar dar umas indicações sobre a questão dos diamantes no nosso país, quando é que aparecem referidos como riqueza, ele me relatou um facto relativo ao século XVII. E falámos de Santa Maria da Matamba, da igreja onde se passaram as exéquias de Njinga Mbande ou do momento em que se lançou a primeira pedra dessa igreja... A palavra Matamba, que desperta logo o nosso imaginário histórico, lá onde a Njinga ficou os últimos anos da sua longa e combatente vida, desperta-nos também para aquela região. E aí a gente caminha e vê Kalandula, caminha e vê o Lucala... e não pode deixar de pensar nas Pedras de Pungu-a-Ndongo... Portanto, toda a história angolana é a relação, também, dos homens angolanos com a sua terra e a sua constante luta com as forças de conquista e ocupação. É também uma história de lugares. E eu sou muito sensível a isso. Esse quadro da natureza passou a ser muito mais importante do que, inconscientemente, já era...
E uma história como a da mafumeira do Kinaxixi, que nós vimos em criança, presenciámos o derrube, o corte daquela árvore... a história do corte daquela árvore pode ser vista do ponto vista simbólico, mitológico, religioso, no quadro das religiões tradicionais, dos espíritos que aí moravam. E pode ser vista como um choque entre a modernidade e o passado que não queria que se mexesse ali... mas era preciso rasgar aquilo, asfaltar, criar a urbe, avançar... o famoso progresso, não é, o crescimento ou o desenvolvimento. Tudo pode ser narrado sem esse facto, sem a lagoa do Kinaxixi, sem a mafumeira, sem os espíritos... mas acho que será um relato mais pobre do que se relatarmos com todas aquelas nuances.
Mas sobre o Kinaxixi este senhor [referindo-se ao escritor Arnaldo Santos] pode me corrigir, ele gosta de me corrigir, ele que também foi “apanhado” pela mafumeira. Eu fui apanhado pelo galho da mafumeira, na chuva. Se era um sinal, se não era um sinal, não sei.

PERGUNTA – No início desta conversa perguntei-lhe se podia tratá-lo por “Camarada”...
LV – Com certeza.

PERGUNTA – Mesmo em Portugal, nesses últimos 14 anos, foi acompanhando a evolução política do país? Ou reactualizou-se agora, no seu regresso?
LV – Eu acompanho sempre. Claro que não é no pormenor. A questão política do nosso país já não se vê só nas questões de pormenor, nem nas questões tácticas ou circunstanciais. Obviamente que estando longe, não podendo ver o dia-a-dia, eu vou tendo conhecimento do que foram as opções estratégicas; e também não tenho formação política nem conhecimentos para dizer se foram certas ou erradas, naquele momento. Só posso ver é o resultado, como cidadão e como “camarada”. Porque isto de ser do MPLA, primeiro não é o cartão. Primeiro é o coração, depois é que é o cartão. O cartão a gente perde; rasgam-nos ou caçumbulam-nos. Mas o coração, este, ninguém nos tira.
A questão estratégica deve ser medida por resultados. E quando, agora, no dia 11 [de Novembro] eu fui posto perante o resultado... Se houvesse um só resultado já era muito bom para uma geração.
Nós tivémos a sorte histórica de poder participar num momento absolutamente ímpar da nossa história, que foi a luta de libertação nacional, que deu lugar à independência política. A independência política está aí. Nunca esteve em causa. Outra coisa: a integridade teritorial. Quando agora nós percebemos que todos os planos, desde há muito anos, era que se para nos dominarem, se fosse preciso, partiam-nos aos bocados...
Ninguém conseguiu partir a nossa Nação, o nosso território. Estão aí as nossas fronteiras... E a despeito, e sobretudo devido a multiplicidade cultural e sociológica do nosso país, a unidade nacional está aí. Ao fim de 31 anos de independência, diga-me um outro país que se pode gabar desses três factos que são estruturantes e estratégicos? Não são muitos.
Os quatro anos de paz traduzem-se neste vertiginoso crescer desta cidade. E eu espero que quando visitar Benguela,  Lubango, Cabinda e outros lugares, encontre esse mesmo fervilhar. É certo que há muitos defeitos... Mas eu me lembro dum mais velho que me ensinou, no campo de concentração, uma coisa: quando passa um elefante, o caçador não pode estar a olhar para as pulgas. Porque o elefante leva lama, leva pulgas, tem a pele rasgada, carrega porcaria... você vai dizer “ai, o elefante está cheio de porcaria!”... Está a passar um elefante e você está a olhar para as pulgas?

PERGUNTA – Foi propositado fazer coincidir o lançamento do seu livro com o dia da Independência do país? 
LV – Quando me perguntaram qual era a data que queria para o lançamento, eu não pensei duas vezes. Se tivesse pensado teria percebido que no dia 11 há coisas muito, muito mais importantes do que o lançamento de dois livros de dois velhos escritores. Mas era uma parte daquele orgulho. E sobretudo porque eu pedi apenas para que no lançamento estivessem meus restados camaradas do campo de concentração do Tarrafal, a quem o livro é dedicado. Foi só o entusiasmo. Depois a realidade obrigou a corrigir. [Inicialmente previsto para o dia 11 de Novembro, o acto formal de lançamento acabou por acontecer no dia 14].

PERGUNTA - Recuemos no tempo. Pode falar-nos das circunstâncias que o levaram ao campo de concentração do Tarrafal?
LV – Eu acho que isso individualmente não tem importância, porque nós tivémos o privilégio histórico, a nossa geração, de estar naquele momento histórico em que as condições se reuniram para que a luta pela libertação nacional, pela independência política, tivesse sucesso.

PERGUNTA – A questão do mérito coloca-se porque apesar das condições históricas, as pessoas tiveram que agir em determinado sentido... 
LV – Pois, mas houve sempre resistência popular ao invasor, houve a partir do momento em que começou a haver intelectualidade, a introdução da imprensa... isso você sabe melhor do que eu. Houve vários surtos. O nacionalismo angolano não começou no pós-segunda guerra mundial, tem raízes pelos séculos fora, isto se não quisermos ver o nacionalismo duma maneira estreita, como uma ideologia. Não. Esse sentimento, esse movimento que resultava do choque e das contradições das forças, entre invasores e invadidos, ocupados e ocupantes, os que colaboravam e os que não colaboravam, os reinos e os que vinham... isso foi formando, foi caldeando o nosso país.
Então, nós tivémos o privilégio de estar naquele momento histórico e participámos. Participações individuais? Foram sempre participações de grupos, de tal maneira que, por exemplo em 1959 (para pôrmos a coisa já naquele período em que a polícia política portuguesa, a PIDE, já estava instalada e começou a actuar organizadamente sobre as ideias e os movimentos nacionalistas...) todos os dias saíam panfletos e não eram assinados pela mesma organização. Uma pessoa podia às vezes copiar a ideia que saía num panfleto, voltar a glosar esta ideia, que já era assinada por outro dos movimentos que proliferavam: MINA, MIA, ELA, PLUA, PCA... que sei eu?
Foi essa a época, da luta pela difusão das ideias nacionalistas, pela organização e contra a repressão, que depois deu, como resultado, uma maior eficácia e a possibilidade do MPLA dirigir essas forças todas que actuavam em seu nome, com o seu programa (muitas vezes não lido, só de ouvido: sabia-se que o programa mínimo era este, o programa maior era aquele...).
Para resumir, o camarada Mendes de Carvalho foi o que até hoje, como é o nosso mais velho e o nosso mestre em muita coisa, em quase tudo, sintetizou melhor o MPLA. Ele disse que o MPLA é um rio de muitas águas. Isso é o que faz a força do MPLA. Nós tivémos a sorte de estar ou num ribeiro, ou num afluente da margem esquerda ou num afluente da margem direita, às vezes estávamos só no muije, outros estavam numa pequena lagoa... todas essas águas quando se juntaram foram imparáveis. Hoje parece que isso é reconhecido.

PERGUNTA – O Luandino continua modesto. Na verdade ficou preso quantos anos?
LV – Da primeira vez que fui preso, no Processo dos 50, tiraram-me porque eu era muito miúdo e, (penso eu que o juiz interpretou, para o despacho de pronúncia final, orientações superiores) não convinha misturar sobretudo os brancos que tinham uma boa situação... como é que uma pessoa que é gerente de uma empresa, tem dinheiro, tem privilégios... “se mete nisto?”, como eles diziam. Depois, em 1961, fui condenado a 14 anos e cumpri 12 em prisão; depois pegaram em mim e puseram-me em Lisboa com residência vigiada. Tinha uma caderneta e cada vez que queria me deslocar tinha de ir à PIDE, eles punham lá um carimbo... “segue para Santarém”... Ia lá visitar o meu pai... quando lá chegava a primeira coisa a fazer, antes de ver o meu pai, era me apresentar à PIDE para carimbarem a caderneta... Só depois é que, vigiado obviamente, podia visitar a família.
Temos que render homenagem é à memória dos milhares e milhares de angolanos que morreram, que deram o seu sangue, a sua vida, para a conquista da independência política. Nós que passamos estes anos todos de cativeiro, temos o direito a dizer isso com a modéstia e ao mesmo tempo o orgulho que temos nisso. Mas o nosso sofrimento (pelo menos falo pessoalmente) comparado com o das grandes massas... não, não tem comparação possível. Não é ser modesto... Trinta e um anos depois a gente já pode ver qual é realmente o nosso lugar. É um pequeno lugar, está ali, não é mais do que isso.

PERGUNTA – Escreveu “Nós, os do Makulusu” em 15 dias. Continua com este ritmo frenético de escrita?
LV – Não. Em relação a “Nós, os do Makulusu” até hoje não compreendo... Eu não sou uma pessoa muito mística, ao contrário aqui do meu compadre, que tem a abertura de espírito suficiente para enquadrar desde o misticismo ao realismo mais científico só comprovado por experiência... É verdade que o ambiente cultural da nossa terra e o ambiente natural, também um bocado mágico, dá-nos essa percepção de que nem tudo na realidade é perceptível apenas com os instrumentos científicos, da razão. Há coisas que é melhor desconfiar. Desconfiar é uma atitude correcta. Enquanto não tivermos a certeza, desconfiámos. Alguém passeia em nós…
Nós atravessávamos no campo de concentração um período muito, muito difícil. As notícias que nos chegavam... Não sei como é que nos chegou a notícia da morte do Hoji-ya-Henda... e também d’alguns problemas que houve na Checoslováquia... a morte do Che Guevara... Mas sobretudo internamente nós passávamos um período de muito mais repressão, muitas limitações... E foi também um período muito difícil para mim, pessoalmente, estive muitos meses sem notícias da família... Então sucedeu que este livro [“Nós, os do Makulusu” ] foi escrito em 7 dias.
Nós saíamos da caserna para dar umas voltas, para lavar a roupa, para apanhar sol... o chamado recreio... Eu sentava-me no chão, debaixo de uma grande acácia, no meio do campo, e fui escrevendo. O romance foi escrito assim, como se eu estivesse, e agora vou arriscar mesmo, possuído por um espírito.
Alguém me diz que sim, que é assim, porque foi nessa mesma árvore onde o Mendes de Carvalho gravou à canivete uma frase, que eu já não lembro e que ficou lá. E ambos sofremos muito, anos depois, no dia em que  visitámos de novo aquele campo e vimos que uma moto-serra tinha cortado aquela árvore. Outras árvores ficaram, mas aquela tinha sido cortada. Fazendo ficção, estou a ler sinais que não existem. Mas a verdade é que estas coisas se passaram. Como é que nós, por exemplo um mais velho como o Mendes de Carvalho ou eu que também já vou a caminho de ser um kota, como é que nós vamos ler isso? Porquê que cortaram precisamente aquela árvore? Ah, é o acaso... Outros dizem, ah, isso é um milagre... Há muitas coisas na vida para as quais a curta vida humana, quer individual quer às vezes grandes colectivos, ainda não pode encontrar resposta. A resposta é mais estratégica, precisa às vezes de séculos. Ainda há pouco tempo na Europa toda a gente defendia que a terra estava quieta e que o sol é que girava à volta da terra. Hoje sabe-se, cientificamente, que é o contrário.

PERGUNTA – No quadro global da sua obra, qual é o livro que mais aprecia? Incluindo “O Livro dos Rios”.
LV – É difícil dizer. Não é a velha e estafada imagem de que todos são nossos filhos e que todo o pai ama a todos por igual. Todos eles,  quando os publiquei, publiquei conscientemente. Tenho a noção do que cada um deles representa ou pode ter de valimento. Mas se me disserem assim: só podemos editar um livro... Em homenagem a esse espírito que naquele momento deve ter habitado em mim (e tenho pena que se tenha ido embora depois) eu escolheria mesmo o “Nós, os do Makulusu”.

PERGUNTA – Acredito que tenha uma ideia geral daquilo que é a literatura angolana hoje. O que acha dela?
LV – Nenhum de nós pode fazer futurologia. O hoje da literatura angolana conheço mal, porque em Portugal não chegam algumas obras, pelos motivos que todos sabemos. Conhecendo mal era muito atrevimento estar a fazer um balanço. A única coisa que eu posso dizer, é tentando também ver as coisas em termos estratégicos, fazendo a leitura do passado, tentando tirar ilações. E se no fim do século XIX nos debruçássemos ou estivéssemos a ver a literatura que era produzida naquele tempo, nomeadamente a que era publicada nos jornais, se se pusesse essa questão aos homens do fim do século XIX e princípios do século XX, àquela geração, será que eles poderiam por exemplo prever a geração dos Novos Intelectuais de Angola, o movimento da Mensagem... seguramente que não. Retrospectivamente, nós podemos agora encontrar uma ligação entre a literatura feita em nome de ideias proto-nacionalistas, vamos utilizar o termo, e a que depois apareceu já com ideias mais definidas, mais nacionalistas claras. Mas é lendo, fazendo a leitura para trás. E quando o movimento da Mensagem produziu a [revista] Mensagem ou quando o Mário [de Andrade] e o Francisco José Tenreiro publicaram o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa podia prever-se, por exemplo, o que foi a actividade de 1975 a 1980, aquelas tiragens de 15 mil, 25 mil exemplares, os livros a circularem a preço de maço de tabaco, as FAPLA a distribuir livros quase com um carregador [de munições]... Podia-se prever? Era muito difícil.
O que une isso tudo é que há uma linha de continuidade no modo como se vê a relação do homem angolano com a terra e os seus deveres para com a realidade. Em todos os escritos há uma linha de continuidade que pode ser simplesmente reduzida a isto: no meu entendimento o escritor angolano sempre foi comprometido civicamente. Teve sempre uma noção de que a sua arte é a literatura, que é a expressão dum sistema um pouco autônomo, mas o cidadão nunca fica de parte; há um mínimo de participação que resulta dessa consciência cívica.

PERGUNTA – Essa participação cívica tem necessariamente uma expressão política?
LV – Às vezes tem expressão política e até militar. Houve escritores que foram para a guerrilha... A participação cívica, como cidadãos, ficou na maneira como os escritores angolanos vêem a sua literatura. E penso que esse traço também define o nosso sistema literário nacional. Há críticos que dizem “ah, estes são poemas militantes”. Está bem. Muitas vezes a qualidade literária é aferida por isso mas outras vezes é essa característica que dá a grande qualidade literária. A gente pode dizer que o poema do António Jacinto, “O grande desafio”, é um poema absolutamente político; é radicalmente político... E é, em simultâneo, radicamente literário.
Estas coisas não são muito simples, nem se pode lançar o anátema de que “ah, é militante, está a fazer poesia militante, logo, não presta”. Ou ao contrário, “ah, não é militante, logo, é bom”. Em última instância a obra publicada é que responde, não é o homem, sendo ou não militante. Agora, o homem que faz a obra está lá na obra, quer seja como presença quer seja como ausência. E o responsável último é ele.

PERGUNTA – Nós estamos num mundo cada vez mais globalizado. Como é que se vê, a si e à sua obra, neste mundo globalizado?
LV – Eu vejo a globalização como esse grande movimento de aproximação das actividades económicas em todo o mundo, o que, por arrasto, leva também a aspectos sociais e culturais. Penso que me está a dirigir a pergunta no sentido de eu, talvez, estabelecer a minha relação com as novas formas de informação e comunicação.
Eu confesso que quando começou esse grande movimento, fiz uma má avaliação. Não do alcance, porque se percebeu logo que essa revolução tecnológica ia trazer uma nova revolução no modo de entender e de nos relacionarmos com o mundo. Fiz uma má avaliação do tempo. Pensei para comigo, “bom, quando isso chegar a ser um dado fundamental no relacionamento entre as pessoas e, no nosso caso, no relacionamento das pessoas que vivem no campo da criação ou das ideias ou da troca de ideias ou do conhecimento ou da informação... quando isso chegar eu já cá não estou”. Pensava que levaria algum tempo mais, mas afinal sou surpreendido, por exemplo em 2005, com essa realidade de ser um excluído, um info-excluído.

PERGUNTA – Pode remediar isso...
LV – Pode ser remediado. As tecnologias são humanas e o modo de as utilizar. Portanto, não é nada que qualquer cidadão, desde que queira, não possa adquirir as competências mínimas para também meter o seu fiozinho na rede e ficar ligado a todos os outros cidadãos, individual ou colectivamente. Disso eu tenho a perfeita noção. Eu fiz uma avaliação do tempo e então fiquei descansado com o meu método de trabalho da canetinha e apontamento e confiando na minha memória. Agora dou-me conta que isso é insuficiente como modo de estar ligado, de estar informado e de estar a participar tanto quanto mais não seja tendo conhecimento do que se passa. Ainda não tomei a decisão de me “incluir”, por preguiça. É que um infeliz traço do meu carácter é ser muito preguiçoso; isso é capaz de dar muito trabalho.

PERGUNTA – Querendo ou não, a informação sobre o Luandino e a sua obra está muito presente na Internet.
LV – O meu neto e o meu filho e outras pessoas ficam muito irritados quando eu digo “printa e mete no correio”, quando afinal é só fazer um clique para enviar ou reenviar [Risos].

PERGUNTA – Como é que tem sido a sua relação com as outras artes angolanas? Essa fruição, essa apreciação das outras artes acrescenta alguma coisa à sua criação literária?
LV – Até 1992 eu tive uma relação muito intensa com as outras áreas da criação artística. Eu era inclusive membro da UNAP   [União Nacional dos Artistas Plásticos]. Desde criança que eu gosto da boa música.

PERGUNTA – O que é que considera “boa música”?
LV – Bom... Música que é feita com algum conhecimento técnico e com sinceridade. Por exemplo, oiço sempre com muita atenção a música tradicional, a música popular, sobretudo o cancioneiro urbano. Com a pintura... sou um desenhador e pintor frustrado.   Houve uma altura em que na UNAP me incluíram nos “pioneiros da gravura”... Fiz uns linóleos no tempo em que nos multiplicávamos com muitos pseudónimos para ocupar o lugar nos jornais, para dar a ideia de que éramos muitos, para a PIDE ficar baralhada... eu era o Luandino, o José Muimbo, o Zé Graça... A gente ia multiplicando também as expressões, para baralhar a polícia.
Sou apreciador, pouco crítico, de jazz. O Gegê Belo não gosta que eu diga isto, mas eu gosto de todo o jazz, sobretudo dos priomórdios, do período da formação, das influências, quando vêem as canções de trabalho mais os blues...
Mantive sempre ligações, por exemplo, com o Ole, o Kidá e os jovens que estavam, em pintura, a estudar em Portugal, o Vitó (o filho do Viteix)... Pude me dar conta de que para além da manutenção de uma linha que se vê em quase todos, de expressão artística baseada não só em temas mas também em figurações populares e uma coisa interessante que era uma certa expressão surrealista, sobretudo em alguns pintores dos anos ’90, já não me lembro de nomes… acho que se fez um bom caminho nas artes plásticas.
Na música houve uma multiplicidade de estilos e a entrada do conceito de fusão e a tal globalização, que faz com que se façam descargas de tudo na Net e se misture... Mas não há dúvida que a música sempre foi um sector de grande vitalidade. Quanto ao teatro não tenho absolutamente nada a dizer, já que não tenho acompanhado o seu movimento.
No cômputo geral, a actividade artística e criativa acompanha o desenvolvimento do país. Umas vezes com uma certa perplexidade, à procura de caminhos; outras já com a consciência de qual é o caminho da afirmação. Acho que as artes também vão neste movimento de crescimento e de irrupção das forças que estavam contidas pela guerra.  

sábado, 19 de março de 2016

DESEJOS DE AMINATA, LIVRO DE LOPITO FEIJÓ: A INTIMIDADE CONJUGAL COMO OBJECTO DA POESIA





Isaquiel Cori

O novo livro de Lopito Feijó, “Desejos de Aminata”, editado pela Nóssomos, em Portugal, é uma incursão poética e exploratória, com detalhes, pela topografia e a toponímia do corpo feminino, do desejo carnal, do amor físico, tão profunda e ousada que chega a ultrapassar os limites convencionais do erótico para ganhar contornos quase, quase pornográficos.
É claramente, uma declaração de amor, de devoção total à amada, que passa pela posse e o desfrute do seu corpo. A intensidade da posse e do desfrute roça o canibalismo. Em “Voo rasante”:
“No triângulo viperino / então / este anjo de asas esferovíticas // de mansinho voando / retorna mítico / à lavoura carnal…”
E confunde-se com a loucura. No poema “Loucura ou Sinecura”:
 “… sonho / impregnado / incondicional / mente demente”.
Há toda uma “onda fálica” que atravessa e paira sobre o poemário, com o poeta “digitando versos / entre as coxas” da amada. Como resultado, o criador acaba por “(ou)vir-se / na circunscrita extensão / dos secretos territórios!”
Em “Onda bronzeada” o poeta faz o retrato fotográfico e circunspecto da diva:

Negra quase encaracolada
semblante misterioso
pescoço naturalmente cheiroso
um único braço
com mão de mil dedos

peito com dois seios
e três mamilos em cada qual
abdómen boquiaberto
com sereno botão no umbigo

circundante malandra   cintura circunstante
dois pares de pernas completas
o resto logo se vê…
eis a mulher da minha vida!

Num mundo em que, com a generalizada estigmatização do machismo e a relativização acentuada do ser masculino, as sensações, as percepções, são cada vez mais femininas - como disse o outro, em tom de fatalidade, “a mulher é o futuro do homem” – e, ainda, em que todo o homem que se preze faz questão de realçar o seu “lado feminino”, Lopito Feijó traz-nos, com este livro, uma mão cheia de poemas de um erotismo assumidamente másculo, um olhar sexual do homem sobre a mulher.
Um olhar de um homem cheio de desejo de possuir a mulher amada, de perder-se nas curvas, cantos, contracurvas e orifícios da intimidade do seu corpo e de desejo épico e incontido de sorver os seus fluídos e de fundir-se fisiologicamente com ela. Em “Conjunção carnal”:
“A prática das carnes envolve / alguma espiritual ferocidade // sempre que as minhas carnes penetram / os sagrados orifícios do teu corpo // preenchem o tempo / em razão de consumistas orgias / e promiscuimos carnes com as nossas carnes. // Conjugando o verbo renascer / faço-te criatura criadora”.
Os seus instrumentos do desejo são os dedos tacteantes, o olhar microscópico, a língua sorvedora e, sobretudo, o falo.
“Fecundos / acabamos na húmida tijoleira / quando gemidos entoas ao falo. // Falo do falo do fogo das falas da fonte do divino / do sémen morninho e do próprio canibal.”  In “Para uma noite feliz”.
Símbolo da agressividade e da arrogância masculina, o falo, ou o pénis em riste, ao mesmo tempo que concentra o poder do macho – a capacidade de dar prazer físico à mulher e de expelir a semente da procriação – é igualmente a sua fraqueza, ou não fossem cada vez mais numerosos os casos de disfunção eréctil e ejaculação precoce.
“Desejos de Aminata” são os cantos de um homem detentor, em pleno, dos seus instrumentos do desejo e feliz com a sua mulher, a mulher que lhe coube no universo em que vivemos.
Efectivamente, a mulher cantada neste poemário não é uma mulher qualquer, simbólica e impalpável. Os poemas de “Desejos de Aminata” não evocam um amor platónico, com imagens envoltas em nuvens de fumaça.
A mulher cantada neste poemário, nada mais, nada menos, é a pessoa física que atende pelo nome de Aminata Goubel, a companheira e esposa do poeta Lopito Feijó. Ao escancarar a sua intimidade como o faz, com o melhor da sua capacidade de criação poética, Lopito Feijó transforma Aminata numa das mais brilhantes musas das letras angolanas e universais e oferece uma obra em que os leitores podem espelhar o sentimento, devoção, paixão, amor, que nutrem pela esposa, namorada, amiga ou companheira.
“Desejos de Aminata” conta com uma magnífica edição da Nóssomos e inclui ilustrações ágeis, escorreitas, elas próprias poéticas e sensuais, da autoria de Luandino Vieira.
João André da Silva Feijó, o Lopito Feijó, nasceu em Malanje aos 29 de Setembro de 1963. Deputado reformado da Assembleia Nacional, é actualmente poeta a tempo inteiro. Publicou, entre outros, os livros:  “Doutrina” (poesia,  1987), “cartas de Amor” (poesia, 1990), “Marcas da Guerra, Percepção Íntima & Outros Fonemas Doutrinários” (poesia, 2011), “Lex & Cal Doutrina” (poesia, 2012), “Andarilho & Doutrinário” (poesia, 2013).



                                                                     



terça-feira, 15 de março de 2016

O OCASO DOS PIRILAMPOS, LIVRO DE ADRIANO MIXINGE






Por: Isaquiel Cori

Adriano Mixinge, historiador e crítico de arte por ora emprestado à diplomacia - é adido cultural na Embaixada de Angola em Espanha - faz hoje a sua terceira entrega literária, depois do romance "Tanda", publicado em 2006, em Luanda, pela Edições Chá de Caxinde, e da colectânea de  ensaios  “Made in Angola: arte contemporânea, artistas e debates”, pela editora L`Harmattan, Paris, 2009.
Sobre o autor e as suas outras facetas não me vou debruçar mais, dado que nas orelhas desta edição de "O Ocaso dos Pirilampos" consta uma resenha biográfica sua bastante elucidativa.
“O Ocaso dos Pirilampos” é uma narrativa bastante singular, com enorme pendor subjectivo, intimista e confessional. É um monólogo que se espraia numa linguagem simbólica, carregada de imagens surrealistas e evocações fantásticas. Trata-se de um discurso poético em prosa, entremeado por poemas em versos de evocação e exaltação ao Semba. Cito, na pág 46:

"… e se o Semba fosse uma dor
não haveriam gargalhadas
os tons berrantes estariam numa superfície de cera
se ele fosse o silêncio da terra
seríamos figuras num cemitério em miniaturas
não haveria sons errantes de outras eras"


O personagem-narrador está perfeitamente definido, tem vida própria. A narrativa tem profundidade e densidade e suscita imediatamente a adesão do leitor apesar da linguagem impregnada de simbolismos, cujo entendimento remete, ou melhor, convoca, a sua experiência de vida e toda a sua subjectividade. O narrador/herói/personagem transporta o leitor pelos caminhos da sua própria intimidade, do seu corpo, da sua sexualidade, da sua memória e dos seus sonhos.
O narrador-protagonista é um ser arrogante, detentor de um poder ilimitado sobre a vida e a morte dos seus servidores.  Trata-se de um poder unipessoal, absoluto. É um poder centrado no seu próprio corpo, do qual, literalmente, tudo emerge, tudo é criado. Ele é o grande demiurgo: as cidades nascem do interior do seu corpo para depois serem excretadas através dos seus vómitos. As urbes não passam, afinal, de “restos”, de dejectos do detentor do poder absoluto. E os habitantes vivem sob o signo do grande-chicote, simbolizado no falo omnipresente do todo-poderoso personagem-narrador. Cito, na página 75:

"Quando digo aos meus subordinados para entrarem no lugar em que toco o batuque, observo-os primeiro bem se têm ou não nádegas volumosas. Até mesmo antes de certificar-me dos atributos físicos das vítimas, fico logo teso: senhoras respeitáveis, maridos fiéis, militares arrogantes, polícias, professores, engenheiras, dirigentes de partidos políticos, líderes religiosos e guias de seitas religiosas, médicas, simples empregadas de limpeza, solteiros, casados ou boémios, gente educada ou sanzaleira, eu os submeto todos com o falo e eles já sabem, se querem desfrutar dos sons do meu batuque têm é que ficar calados e não podem ter opiniões próprias. Tudo o que pensarem tem de ser uma interpretação ajustada às minhas ordens".

A concepção do poder como o acto de excretar (urina, fezes ou vómito) está no centro deste romance. O poder brota do corpo humano, é gerado nas entranhas. De certo modo, este livro é também um tributo ao corpo, à fisiologia e aos ritos do corpo. Cito, na página 33:

..."Tudo surgia do meu estômago de uma maneira surpreendente, era uma emanação directa do meu desejo, dos meus sonhos. Depois era trabalho dos intestinos delgado e grosso, que se deformavam até ao ponto de se transformarem em moldes, campos de cultivo, fornos ou tubos de ensaio. Quando senti a pressão do cólon sigmóide e das côcegas do recto ao ânus, abri os olhos: houve luz e com ela vieram as cores".

O monólogo, que jorra como uma corrente de consciência, revela um personagem solitário, apesar do seu poder desmedido, obcecado pelo seu próprio corpo e cujo falo, que concentra toda a sua força, é a origem do bem e do mal.  
Porque se trata de um monólogo, com o eu a calcar e a dar ênfase à subjectividade da narrativa, “O Ocaso dos Pirilampos” introduz o leitor no inferno que é a vida interior do narrador.
O eu do personagem/ herói / narrador agarra o leitor, puxa-o, como os braços de um náufrago na derradeira tentativa de agarrar-se ao pescoço do seu salvador, e intima-o a uma identificação imediata com o personagem. Num primeiro momento, o leitor consuma essa identificação, mas depois recua, tamanha é a crueza e a crueldade patenteada pelo discurso do personagem/ herói / narrador.
Cria-se assim, no plano da leitura, uma tensão psicológica. O esforço que resulta da necessidade de manter distância do personagem-narrador e do facto de não se ter outro caminho para o perceber senão o de assumir a sua condição, com o risco da transferência do eu do narrador para o eu-leitor, redunda num dos efeitos mais perturbadores desta obra.
Mas a grande perturbação, diríamos mesmo, o choque, que deriva da leitura de “O Ocaso dos Pirilampos”, está na natureza intrínseca do personagem e naquilo que os medos, os receios, as ansiedades, as memórias, os sonhos e, eventualmente, as realidades - positivas ou virtuais - do leitor, lhe podem acrescentar. Desse ponto de vista, até pode resultar que, afinal, o narrador-protagonista de "O Ocaso dos Pirilampos" seja inocente: quem lhe transmite as ressonâncias medonhas, porventura reais – passadas ou presentes - ou imaginárias, é o próprio leitor.
Adriano Mixinge, neste seu romance, desvela os medos e os fantasmas do homem angolano, imerso numa época de imensas encruzilhadas e incertezas quanto ao futuro e à própria existência. Trata-se de uma narrativa inquietadora, pois o leitor acaba por ser colocado diante das suas mais íntimas e secretas fragilidades. O livro é uma espécie de psicanálise do poder – absoluto e ilegítimo – na sua fase de degenerescência.
Cito, da página, 118:

"Oiço insistentemente um barulho muito familiar, eco do meu batuque agora já muito desafinado e esbranquiçado. Os rios do meu corpo coincidem com as comichões da Nação. Enquanto todo o meu corpo cavernoso, a minha glande e o meu prepúcio descansam, resgato os melhores pensamentos das sucatas da vida. O que penso é para redimir-me: eu sei que vocês serão uns ingratos e recordarão este tempo como o tempo do fracasso de todas as utopias, o do ocaso dos pirilampos, o da decadência da minha geração, a geração de todos os guerrilheiros convertidos em novos-ricos, em novos-pobres, ou completamente abandalhados no mundo, na vida."

Para terminar, diria que o livro "O Ocaso dos Pirilampos", de Adriano Mixinge, tem a grandeza daqueles que "sintetizam e iluminam" uma determinada época e enquadra-se na tradição combativa e de vanguarda da literatura angolana. Deixemos o livro seguir tranquilamente o seu percurso no circuito de distribuição e nas nossas consciências de leitores.
Muito obrigado.

OBS: Texto de apresentação lido no acto de lançamento do livro e simultaneamente de entrega do Prémio Sagrada Esperança a Adriano Mixinge, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, no dia 07 de Março de 2014. A foto da capa é da edição portuguesa chancelada pela Guerra e Paz. A edição angolana foi feita pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INIC).


quarta-feira, 9 de março de 2016

Escritor Manuel Rui: "Escrevo sobre o riso por cima da lágrima"

Isaquiel Cori

Autor da letra do hino da República de Angola, Manuel Rui é um dos escritores mais prolíferos e versáteis da sua geração. Pontificam na sua já vasta obra a novela "Quem me dera ser onda", o romance "Rioseco" e a série de cadernos poéticos "Onze Poemas em Novembro". Este ano publicou, entre outras obras, o romance "A Trança" e o livro de contos "Quitandeiras e aviões". Na entrevista que se segue, Manuel Rui revela aos leitores do jornal Cultura a poética subjacente à sua criação ficcional, comenta situações da realidade social e histórica do país e fala de aspectos até aqui pouco conhecidos da sua biografia.  A dado momento o escritor afirma: "falo alto e grosso: tenho uma maneira minha de fazer ficção".

Jornal Cultura – O que o exercício da escrita representa para si? Gozo? Angústia? Refúgio?
Manuel Rui - Representa apenas tudo. O favo, o voo da abelha e o mel. Escreve-se porque primeiro se gosta de escrever, em segundo porque se sabe, em terceiro porque se pretende um relacionamento com quem nos lê. É uma espécie de relação quase erótica: escrevo, tenho o prazer de escrever e depois quero que me devolvam esse prazer através da leitura. O mesmo que palmas e tambores para um contador oral, um griô. Obviamente, pode-se escrever por encomenda, por necessidade, por mil e uma razões, o importante é que se tenha talento. Os grandes monumentos, as grandes obras de arte, foram encomendadas e nem por isso deixam de ser obras de arte. O que está em causa sempre para se escrever é o talento, a opção de como se escreve, porque se sabe que essa opção é nossa e porque se sabe escrever. Eu diria, como alguém disse, há muita gente que escreve e alguns escritores. Tem uma coisa lá no fundo do pôr-do-sol: gente com talento, por aí perdida,  não sabendo ler nem escrever… e às vezes vendendo jornais…
JC – O talento, sobretudo no caso dos que escrevem ficção, tem de ser acompanhado com auto-disciplina, auto-organização?
MR – Isso é outro ângulo. Se me fizerem a encomenda de um texto, um ensaio, para uma revista, de borla por paixão ou a pagar, eu escrevo na hora. Não tenho a autodisciplina de escrever todos os dias, infelizmente. Escrevo quando tenho mesmo vontade e prazer de escrever. Repare nesse pormenor: eu escrevi o romance “A Trança” e quando acabei, de alegria, escrevi um poema dedicado ao livro; é uma espécie de êxtase daquilo que havia feito.
JC – A partir do momento em que começa a escrever, o livro já pré-existe na sua cabeça?
MR – Há várias maneiras de eu começar. Numa, o livro já está todo na cabeça mas depois pode sofrer alterações. Já houve personagens minhas que tinham um percurso definido, começaram a libertar-se desse percurso, a soltar-se, a fazerem o que queriam, que eu tive que as matar. As personagens começam a libertar-se, o livro começa a ser ele próprio, a ter a sua própria existência como se não fosse feito por mim. Há outros livros que começo a escrever sem saber aonde vão acabar. O “Quem me dera ser onda” não tinha estória, ela foi andando por si, foi-se soltando. A mundividência era tal, tinha tanta coisa à volta que foi uma espécie de chuvada que fez aumentar um caudal de um rio que eu ainda não sabia qual era a foz. E, verdadeiramente, não teve foz, porque o livro é aberto.
JC – “Quem me dera ser onda” captou uma vibrante realidade social, que hoje já se pode considerar histórica. Olhando à volta dá para pensar que aquela realidade social continua aí, ou tende a reemergir?
MR – Penso que não é ou nem é tanto isso. É um canto de esperança, é a visão de um futuro que se avizinha com classes dominantes, como é o caso do cipaio terrível que maltrata os filhos, hostiliza a mulher por causa da carne (a metáfora da riqueza). Por outro lado, é o princípio de qualquer coisa que nos marcou, que foi a ideologia do marxismo-leninismo, que a maioria não sabia o que era mas se tinha a ver com liberdade, igualdade, já era qualquer coisa de bom. Parecia que se pretendia uma sociedade meritocrática. Depois vai chegar o momento, depois do “Quem me dera ser onda”, em que se deitou pela janela fora a ideologia marxista mas ficou-se com algumas esquizofrenias que vieram do Leste, de tipo stalinista: fenómenos como a DISA, a perseguição política, os editoriais permanentes na Rádio Nacional, etc., a que “Quem me dera ser onda” sub-repticiamente faz referência quando o porco é obrigado a ouvir tudo o que a Rádio Nacional dá, porque o patrão lhe colocou os auscultadores nos ouvidos. O livro inicialmente não conseguia sair e foi posto num concurso (Prémio Sagrada Esperança) com aquelas regras do envelope fechado com a identidade do autor. Teve outros tropeções até conseguir ser publicado com a imposição de que tinha que vir com um prefácio a dizer que o livro era contra a pequena burguesia. Vivia-se esse absurdo, ninguém se interrogava: se havia uma pequena burguesia aonde estava a burguesia?
JC – No seu livro “Crónica de um mujimbo” a questão da DISA parece emergir, mas a novela acaba em suspense, como se fosse continuar num outro livro.
MR – Continuação? Estragava a estória. Não pretendo estragar o livro, que não é um seriado nem uma telenovela. Eu jogo muito com o fim em aberto. A abordagem não é sobre a DISA mas sobre o secreto e sua epistemologia. A DISA foi uma instituição. O secreto é uma categoria de preservação e reserva do conhecimento.   
JC – O livro tem personagens que estão dentro de uma estrutura que vela ou cuida do que é secreto.   
MR – O secreto pode não ser necessariamente tratado por uma polícia. Entre nós tudo o que é secreto, por causa da tradição oral, passa de boca em boca depois de passar pelos dedos das que escrevem nas máquinas, dos carimbadores e ouvidos dos motoristas.  E quando atinge um determinado nível quantitativo de transmissão deixa de ser secreto para ser um mujimbo. Por isso é que quando as pessoas dizem que corre aí um mujimbo que fulano vai cair do ministério tal, dá certo: houve um despacho que foi assinado e que foi transmitido de boca em boca.
JC – Há em toda a sua obra, a par de uma solidariedade orgânica com os mais pobres e aqueles cuja voz raramente se faz ouvir, um olhar para as realidades sociais que faz lembrar um sociólogo. O escritor consagrado que é terá abafado o sociólogo que poderia ter sido?
MR – Estou solidário com os pobres, os despossuídos e oprimidos de tanta maneira e feitio. Mas não sou contra os ricos. E só os ricos, neste sistema, que são poder, podem decidir de forma a que os mais pobres passem para a figura dos menos ricos, como acontece mos países nórdicos. Escrevo sobre o ser e o estar. Sobre as coisas mais antigas, o sol, o mar ou as estrelas. Sobre a vida e suas tranças. Sobre cada cabelo de trança. Sobre o riso por cima da lágrima. Escrevo como penso e principalmente pelo gosto da forma como escrevo, dando um determinado sentido àquilo que escrevo. Veja que mesmo no “Quem me dera ser onda” há ricos e não apenas pobres. A trilogia de livros sobre o Huambo, “O Manequim e o piano” “A Casa do Rio”, “Janela de Sónia”, o apogeu desta obra, por exemplo, é com aqueles novos ricos que vêm do nada, foi pela guerra que eles se tornaram ricos. O meu olhar é o do escritor. Acima de tudo entendo-me na poética da minha ficcionalidade. Falo alto e grosso: tenho uma maneira minha de fazer ficção. Também muito ligada à música. Daí os meus versos serem musicados e interpretados por artistas de primeira água…incluindo a selecção de basquetebol…
JC – Como define essa marca da sua ficção?
MR – É a forma como eu escrevo, fazendo uma aproximação com a oratura, com a fala. Escrevo parágrafos com diálogos lá dentro. É um drama com os revisores de algumas editoras a mandarem o texto para trás dizendo que está gramaticalmente errado. Faço uma escrita minha, própria, específica. Não estou a narrar estórias, estou a contar estórias como se cada leitor fosse um ouvido íntimo da minha voz. Estou a contar estórias usando os símbolos da escrita, que foram inventados exatamente para isso, símbolos que representam sons. Sons para falar.
JC - Alguém afirmou que em termos temáticos Manuel Rui fez a transição completa para a pós-colonialidade. Concorda com essa afirmação?
MR - Foi o professor, escritor, meu amigo, Gaivão. Escreveu um livro sobre a minha obra. Mostrou-me antes de o publicar. Disse-lhe que não sou de pós-colonialidade nenhuma. Colonialidade tem um sentido diferente de colonialismo. É quase identitário. Acontece que a minha ficção e poesia antes da independência não têm marcas de colonialidade para depois se falar em pós-colonialidade. É discutível até para os académicos… 
JC – Pesa muito no Manuel Rui a consciência de pertença a uma geração?
MR – Sim. A minha geração lutou contra o fascismo, contra o colonialismo, viu o fascismo português cair e fez a independência.
JC – A sua geração, pelo menos nos primeiros anos da independência, cuidou mais de fazer uma abordagem literária das realidades urbanas, do que do campo…
MR -   É no campo, ou no interior, onde a guerra civil teve uma intensidade diferente. Foi o caso do Huambo. Fiz uma trilogia de livros (romances) sobre o Huambo. E há também o “Rioseco”, que toca o universo todo da Nação, que faz uma profecia de que as águas do rio vieram ter ao mar e eram águas do mesmo povo e da mesma Nação, contrariando a guerra, que nós próprios inventamos por nos ter sido encomendada. Mas também eu posso escrever um grande livro angolano sem falar nem da cidade nem do campo. Tudo depende da imaginação do autor. 
JC – O propósito de MR não é apenas entreter o leitor? Tem sempre um propósito ideológico estratégico além do mero contar de estórias?
MR – A ideia é contar estórias boas. A obra de arte serve para a gente se deleitar. Um deleite pessoal, direto. Há quem diga que hoje já não é possível ler um livro de 200 páginas sem fazer muitas paragens. Há uma sobrecarga pior que a do ozono. É a mídia e as manipulações de que fala o maior e mais velho sábio do mundo, Chomsky.
JC – A maioria dos críticos destaca como uma das características da escrita do MR a ironia. Essa ironia é trabalhada ou é intuitiva? 
MR -  Eu gosto do humor e da ironia e penso que sei mexer com isso. É uma maneira de estar no mundo e de olhar para as coisas. Manuel Ferreira escreveu na badana da primeira edição de “Regresso adiado”, tratar-se de uma ironia chaplinesca, como a dos palhaços do circo que fazem rir e chorar. Você repare no “Quem me dera ser onda”. Toda a gente diz que riem muito mas afinal as gargalhadas são atravessadas pelo sofrimento de uma mãe ante a tirania do marido, pela maneira fascista como é tratada a professora e pela morte de Carnaval da Vitória no apogeu da reflexão. A camarada que acabara de dactilografar o manuscrito a entregar-me em pedido de lágrima, “camarada doutor não mate o porco. Porquê que matou o porco?” Estava emocionado com a morte de Carnaval da Vitória. Olhava pela janela e via o mar, desta vez, com as águas perplexas, eu sentia-me incinerado, cinzas ao mar na espectativa de já sem vida experimentar todas as infinitas sensações de ser espuma…
JC – Falemos do romance “A Trança”. A trança é descrita, literalmente, como a da cabeça de Citula (Maria) mas também parece significar algo mais vasto. A linguista Amélia Mingas referiu-se a ela (trança) como Angola e o emaranhado dos seus problemas. Afinal, a que remete a trança?
MR -  Interessante e profunda a observação. Acho que nunca escrevi sem a paixão do silêncio dos ruídos que são ocupados por cada palavra como lugar de música para dança das personagens que eu não quero que sejam, quero que sejam pessoas, desta vez, do desconhecido, do transcendente A Trança remete a todo o entrançado do nosso povo, das identidades coletivas, dos nossos cheiros do mato, de outros contextos culturais como a música, a dança, simbologias e o amor que se faz no meio do capim como eu fazia no fim da minha adolescência.
JC – Disse publicamente que escreveu “A Trança” num período em que esteve muito doente. A ideia da morte iminente terá influenciado a opção da busca das raízes e da espiritualidade por parte da personagem Citula? 
MR - Doente e sem massa para incineração e comba! Mas foi mais o estado de paralisação. Eu já tinha a estória na cabeça para agarrar a espiritualidade popular, fenómenos de transcendência que costumam ser reservados aos europeus que os trouxeram para cá, caso dos milagres cristãos. Eu estive paralisado das pernas. Entrei na clínica em carro de rodas. Fiquei três horas na clínica, e, quase sem me fazerem nada, mandaram-me para casa com dois quilos de Paracetamol. Cheguei a casa, deitei aquela trampa fora e despiorei sozinho. A Clínica era tão boa que não me conseguiu matar.
JC – Preocupa-o muito a ideia da morte, a possibilidade, ou melhor, a certeza, de que vai morrer?
MR – O que me preocupa não é a morte, é o fim da vida. Nunca ninguém que morreu veio dizer como é a morte. Quando a gente acaba, acaba a vida. Claro que me preocupo, obsessivamente, às vezes, porque sendo tudo finito, só o fim da vida é infinito. Quando a pessoa acaba, acaba para sempre.
JC -  Há momentos atrás veio à nossa conversa a DISA. O que é que a DISA significou para si?
MR – Correspondeu a um momento histórico e foi fruto da situação de guerra que se vivia. Depois houve um desaperfeiçoamento da ideia. Isso aconteceu em todas as sociedades que viveram momentos de guerra, como a nossa. Em guerra, por exemplo, não se podia democratizar a comunicação social. A DISA correspondeu a um estágio da situação, de tal modo que o Presidente Agostinho Neto teve a noção exacta disso, quando interferiu no sentido de modificar os parâmetros e os métodos usados pela DISA.
JC – O que lhe ocorre dizer a respeito do 27 de Maio de 1977 e dos acontecimentos que se lhe seguiram?
MR – Foi um desastre nacional, uma geração que se perdeu, pessoas que foram mortas indiscriminadamente. Houve um aproveitamento, a todos os níveis, daquilo que possa ser usado como vingança ou inveja. Devia-se ter feito uma grande assembleia nos anos imediatamente a seguir, uma comissão da verdade que tivesse apurado os actos mais condenáveis, sendo certo que quem começou a queimar pessoas foram os que abriram o leque para que houvesse uma série de vítimas. É preciso perguntar: quem começou? O que não desculpabiliza depois quem utilizou aquele momento para fazer perseguições fora da Lei (a Lei ainda nem sequer estava em verdadeira execução, tudo era feito ainda importado do maquis, da guerrilha). Foi um momento triste da nossa história e que nos penalizou bastante a nível do desenvolvimento intelectual e dos conceitos que deviam valorizar mais a nossa sociedade, como sejam a liberdade e a liberdade de expressão.
JC – O que é que o Huambo, onde nasceu, lhe diz hoje?
MR – Aquilo já não é a minha terra. Nem pelas pessoas que a têm governado.
JC - Considera-se agora um caluanda?
MR – Não. Sou mesmo de Angola.
JC – Continua a escrever poesia? Para quando a retomada dos cadernos “Onze poemas em Novembro”?
MR – Estou em condições de pôr três ou quatro cá para fora, mas preciso de quem os arrume. Para este ano já não vou a tempo, até porque tenho uma série de coisas para fazer.
JC – Sente-se suficientemente reconhecido cá dentro tanto como lá fora?
MR – É diferente. O reconhecimento lá fora é de pessoas que se interessam por literatura. Aqui é de pessoas cujos filhos ou netos leem “Quem me dera ser onda”. À esquina da Martal, as quitandeiras todas quando me veem chamam “ó poeta!”. E quando vou a atravessar a rua há carros que param para me deixar passar. São esses grandes prémios que me emocionam.
JC – Não é muito dado a honrarias públicas ou a efusões cerimoniais. Recusou o prémio Nacional de Cultura e Artes, na categoria de Literatura, em 2003: pode dizer agora a razão da recusa?
MR – Não costumam perguntar aos que recebem a razão que os faz receber. Eu sei porque não recebi. Não recebi por razões de pudor. É um direito. Quando recebi o prémio Sagrada Esperança, pelo livro “Quem me dera ser onda”, dei o dinheiro ao soldado das FAPLA que abateu o Mirage do exército do apartheid sul-africano, o diploma e a medalha dei à Brigada Jovem de Literatura. Talvez na próxima encarnação eu seja um girassol casado com uma borboleta.
JC – Digamos que o Manuel Rui não é actualmente milionário porque não quis?
MR – Não tinha jeito.
JC – E mesmo hoje recusa-se a beneficiar dos privilégios que podiam advir do seu percurso de participação na luta pela independência e na governação do país?
MR – Tenho uma linha vermelha para viver. E nunca passei essa linha. Vi como se rouba, como se roubou, como todo o mundo se enriqueceu. Pessoas a meu lado. Não estou a condenar ninguém, nem é essa a minha intenção. Aliás, não tínhamos burguesia para investir e muita dessa gente está, usando linguagem da globalização, a “alavancar” o desenvolvimento económico, investindo aqui.
JC – É a ética do escritor a falar mais alto?
MR – É a ética que devia ser de qualquer cidadão. Não consigo separar o cidadão seja do que for: do médico, carpinteiro ou sapateiro. Trabalho com palavras, por prazer. Era bom que o sapateiro também trabalhasse com sola por prazer.
JC – Saiu muito cedo da política activa, formal. Porquê que abandonou a política?
MR – Tinha que sair da política, não tinha jeito. Saio da política directa, governamental, e passo por  departamentos do MPLA: director do DOR (Departamento de Orientação Revolucionária) e depois do DIP (Departamento de Informação e Propaganda). Fui para lá porque me disseram que era necessário e tinha que ser eu. A meio desse tempo fui ter com o Presidente Neto, disse-lhe que queria sair, ele disse-me que seria uma traição e aguentei até ao fim. Abandono mais tarde a política por desprazer.
JC – Está ligado a alguma Universidade, dá aulas?
MR – Ninguém me convidam para falar. Só no outro dia é que cá eu falei numa Universidade. Lá fora convidam-me e pagam-me para falar nas Universidades e escrever para os jornais. Aqui acho que até pagariam  para eu não escrever e para não falar. “Eh pá, já que não estás a escrever toma lá uma kinda de fuba”. Acredito que há por aí baiúcas a que chamam universidades, que se eu lá for falar poderá haver professor a ser rebaixado pelos alunos.
JC – Quer deixar uma mensagem para os jovens?
MR – Dizer que ler enriquece as pessoas e nós precisamos de uma juventude enriquecida de conhecimentos. É lendo que se enriquece.

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Manuel Rui nasceu no Huambo a 4 de Novembro de 1941, de onde partiu, depois de concluir os estudos liceais, para Portugal, onde licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Teve uma actividade política activa, chegando a exercer funções governativas e partidárias (MPLA) nos primeiros anos de Angola independente.

NOTA: Esta entrevista foi publicada originariamente no jornal Cultura de 21 de Julho de 2014.