terça-feira, 15 de março de 2016

O OCASO DOS PIRILAMPOS, LIVRO DE ADRIANO MIXINGE






Por: Isaquiel Cori

Adriano Mixinge, historiador e crítico de arte por ora emprestado à diplomacia - é adido cultural na Embaixada de Angola em Espanha - faz hoje a sua terceira entrega literária, depois do romance "Tanda", publicado em 2006, em Luanda, pela Edições Chá de Caxinde, e da colectânea de  ensaios  “Made in Angola: arte contemporânea, artistas e debates”, pela editora L`Harmattan, Paris, 2009.
Sobre o autor e as suas outras facetas não me vou debruçar mais, dado que nas orelhas desta edição de "O Ocaso dos Pirilampos" consta uma resenha biográfica sua bastante elucidativa.
“O Ocaso dos Pirilampos” é uma narrativa bastante singular, com enorme pendor subjectivo, intimista e confessional. É um monólogo que se espraia numa linguagem simbólica, carregada de imagens surrealistas e evocações fantásticas. Trata-se de um discurso poético em prosa, entremeado por poemas em versos de evocação e exaltação ao Semba. Cito, na pág 46:

"… e se o Semba fosse uma dor
não haveriam gargalhadas
os tons berrantes estariam numa superfície de cera
se ele fosse o silêncio da terra
seríamos figuras num cemitério em miniaturas
não haveria sons errantes de outras eras"


O personagem-narrador está perfeitamente definido, tem vida própria. A narrativa tem profundidade e densidade e suscita imediatamente a adesão do leitor apesar da linguagem impregnada de simbolismos, cujo entendimento remete, ou melhor, convoca, a sua experiência de vida e toda a sua subjectividade. O narrador/herói/personagem transporta o leitor pelos caminhos da sua própria intimidade, do seu corpo, da sua sexualidade, da sua memória e dos seus sonhos.
O narrador-protagonista é um ser arrogante, detentor de um poder ilimitado sobre a vida e a morte dos seus servidores.  Trata-se de um poder unipessoal, absoluto. É um poder centrado no seu próprio corpo, do qual, literalmente, tudo emerge, tudo é criado. Ele é o grande demiurgo: as cidades nascem do interior do seu corpo para depois serem excretadas através dos seus vómitos. As urbes não passam, afinal, de “restos”, de dejectos do detentor do poder absoluto. E os habitantes vivem sob o signo do grande-chicote, simbolizado no falo omnipresente do todo-poderoso personagem-narrador. Cito, na página 75:

"Quando digo aos meus subordinados para entrarem no lugar em que toco o batuque, observo-os primeiro bem se têm ou não nádegas volumosas. Até mesmo antes de certificar-me dos atributos físicos das vítimas, fico logo teso: senhoras respeitáveis, maridos fiéis, militares arrogantes, polícias, professores, engenheiras, dirigentes de partidos políticos, líderes religiosos e guias de seitas religiosas, médicas, simples empregadas de limpeza, solteiros, casados ou boémios, gente educada ou sanzaleira, eu os submeto todos com o falo e eles já sabem, se querem desfrutar dos sons do meu batuque têm é que ficar calados e não podem ter opiniões próprias. Tudo o que pensarem tem de ser uma interpretação ajustada às minhas ordens".

A concepção do poder como o acto de excretar (urina, fezes ou vómito) está no centro deste romance. O poder brota do corpo humano, é gerado nas entranhas. De certo modo, este livro é também um tributo ao corpo, à fisiologia e aos ritos do corpo. Cito, na página 33:

..."Tudo surgia do meu estômago de uma maneira surpreendente, era uma emanação directa do meu desejo, dos meus sonhos. Depois era trabalho dos intestinos delgado e grosso, que se deformavam até ao ponto de se transformarem em moldes, campos de cultivo, fornos ou tubos de ensaio. Quando senti a pressão do cólon sigmóide e das côcegas do recto ao ânus, abri os olhos: houve luz e com ela vieram as cores".

O monólogo, que jorra como uma corrente de consciência, revela um personagem solitário, apesar do seu poder desmedido, obcecado pelo seu próprio corpo e cujo falo, que concentra toda a sua força, é a origem do bem e do mal.  
Porque se trata de um monólogo, com o eu a calcar e a dar ênfase à subjectividade da narrativa, “O Ocaso dos Pirilampos” introduz o leitor no inferno que é a vida interior do narrador.
O eu do personagem/ herói / narrador agarra o leitor, puxa-o, como os braços de um náufrago na derradeira tentativa de agarrar-se ao pescoço do seu salvador, e intima-o a uma identificação imediata com o personagem. Num primeiro momento, o leitor consuma essa identificação, mas depois recua, tamanha é a crueza e a crueldade patenteada pelo discurso do personagem/ herói / narrador.
Cria-se assim, no plano da leitura, uma tensão psicológica. O esforço que resulta da necessidade de manter distância do personagem-narrador e do facto de não se ter outro caminho para o perceber senão o de assumir a sua condição, com o risco da transferência do eu do narrador para o eu-leitor, redunda num dos efeitos mais perturbadores desta obra.
Mas a grande perturbação, diríamos mesmo, o choque, que deriva da leitura de “O Ocaso dos Pirilampos”, está na natureza intrínseca do personagem e naquilo que os medos, os receios, as ansiedades, as memórias, os sonhos e, eventualmente, as realidades - positivas ou virtuais - do leitor, lhe podem acrescentar. Desse ponto de vista, até pode resultar que, afinal, o narrador-protagonista de "O Ocaso dos Pirilampos" seja inocente: quem lhe transmite as ressonâncias medonhas, porventura reais – passadas ou presentes - ou imaginárias, é o próprio leitor.
Adriano Mixinge, neste seu romance, desvela os medos e os fantasmas do homem angolano, imerso numa época de imensas encruzilhadas e incertezas quanto ao futuro e à própria existência. Trata-se de uma narrativa inquietadora, pois o leitor acaba por ser colocado diante das suas mais íntimas e secretas fragilidades. O livro é uma espécie de psicanálise do poder – absoluto e ilegítimo – na sua fase de degenerescência.
Cito, da página, 118:

"Oiço insistentemente um barulho muito familiar, eco do meu batuque agora já muito desafinado e esbranquiçado. Os rios do meu corpo coincidem com as comichões da Nação. Enquanto todo o meu corpo cavernoso, a minha glande e o meu prepúcio descansam, resgato os melhores pensamentos das sucatas da vida. O que penso é para redimir-me: eu sei que vocês serão uns ingratos e recordarão este tempo como o tempo do fracasso de todas as utopias, o do ocaso dos pirilampos, o da decadência da minha geração, a geração de todos os guerrilheiros convertidos em novos-ricos, em novos-pobres, ou completamente abandalhados no mundo, na vida."

Para terminar, diria que o livro "O Ocaso dos Pirilampos", de Adriano Mixinge, tem a grandeza daqueles que "sintetizam e iluminam" uma determinada época e enquadra-se na tradição combativa e de vanguarda da literatura angolana. Deixemos o livro seguir tranquilamente o seu percurso no circuito de distribuição e nas nossas consciências de leitores.
Muito obrigado.

OBS: Texto de apresentação lido no acto de lançamento do livro e simultaneamente de entrega do Prémio Sagrada Esperança a Adriano Mixinge, no Memorial Dr. António Agostinho Neto, em Luanda, no dia 07 de Março de 2014. A foto da capa é da edição portuguesa chancelada pela Guerra e Paz. A edição angolana foi feita pelo Instituto Nacional das Indústrias Culturais (INIC).