sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Com o romance "A Trança" autor assume nova fase criativa: O regresso de Manuel Rui aos leitores comuns

                                                                         

Isaquiel Cori

O escritor Manuel Rui (MR), um dos mais prolíferos do país, entregou ao público leitor, no dia 15 de Janeiro de 2014, na UEA, o romance "A Trança", editado pela Mayamba com uma tiragem de 2 mil exemplares.  
Como o autor sinalizou no acto de lançamento, o novo livro representa uma mudança de estilo e de abordagem da sua própria escrita. "Talvez 'A Trança' possa ser encarada como uma mudança de estilo, uma mudança de ideias. Mudar não é triste, nem é triste mudar de ideias. Triste é não ter ideias para mudar".
Escrito numa altura em que se debatia com problemas de saúde, MR decidiu que o seu novo romance "não deveria ser longo nem triste, e trataria da espiritualidade africana, também como metáfora da força do pensamento".
"A Trança", efectivamente, garante uma leitura leve, com uma trama inicialmente simples, aparentemente linear, mas que depois se complexifica quando, no contexto rural do Huambo, a personagem principal se vai adentrando nas questões da espiritualidade das suas origens locais. Com o novo livro MR completa um movimento que começou em "Quitandeira e aviões", seu livro de contos publicado em 2013. Esse movimento consiste numa espécie de regresso ao chão dos seus leitores comuns, depois de, com os romances "Rioseco" e "Travessia por imagem", ter embarcado numa escrita densa, com forte pendor experimentalista e enredos e personagens complexos. Essa sua ambição demiúrgica de realizar uma espécie de romance total, que abarcasse a vida na maior amplitude possível, com recurso a uma linguagem laboratorialmente refinada, foi   aplaudida pela crítica académica no Brasil, Portugal e outros  países. Vários ensaios e dissertações de licenciatura, mestrado e doutoramento foram dedicados a ambos os livros.
Primeiro com "Quitandeiras e aviões" e mais ainda agora com "A Trança", reiteramos, MR regressa às origens, no que à comunicabilidade com o grande público leitor diz respeito. É sintomático que na mesma ocasião tenha sido lançada mais uma edição de "Quem me dera ser onda", (agora com uma tiragem de 10 mil exemplares) porventura o maior best-seller da história da literatura angolana, fazendo parte indelével do imaginário de várias gerações que o leram na infância ou na adolescência. Abrimos aqui um parênteses para apelar à reedição da novela "Crónica de um mujimbo", do mesmo MR, que já não se encontra a venda em lado nenhum mas encerra aspectos de extrema actualidade.
"A Trança" mostra-nos um MR absolutamente senhor dos seus recursos estilísticos, que não se fecha no gozo da sua própria escrita mas entrega-se ao leitor com a maior vontade de o servir. Toda a maturidade artística e pessoal de MR está ao serviço do seu novo romance: no livro só está o que lá devia estar, está-se diante de uma narrativa enxuta, desengordurada, sem digressões desnecessárias, sóbria. Por um momento MR parece ter abandonado a ironia e o humor corrosivo característico da sua obra. O autor alcançou o objectivo de não escrever um livro triste, mas, é preciso que o digamos, "A Trança" é uma narrativa muito séria. Talvez a circunstância de o ter escrito doente explique essa faceta. Em termos da serena maturidade patente na obra, este romance faz-nos lembrar "As palavras", de Jean-Paul Sarte e "O velho e o mar", de Ernest Hemingway.
Mestre em registar e recriar os modos de falar angolanos, MR dá a expressões que habitual e distraidamente usamos ou ouvimos na rua novos ecos, ressonâncias artísticas e estéticas até então insuspeitas. Atentemos ao diálogo de Maria com  o ardina Kasese, logo à saida do aeroporto: "Como te chamas?" / "Kasese" / Não tens um jornal antigo?" / "Antigo mais como então?"
O narrador gruda-se em Maria, conta a história por ela e através dela. Maria, "a dos olhos verdes e tranças de fogo", é uma mulher cosmopolita, viajada, portadora de "várias origens e que regressa à sua origem angolana". Passou a infância e a adolescência na Alemanha, indo viver mais tarde na Holanda. Em Angola pela primeira vez, passa rapidamente por Luanda e vai de autocarro ao Bimbe, no Huambo. Lá, a avó atribui-lhe um novo nome: Citula.
A partir daí MR transporta o leitor para a nova Angola, do pós guerra; não a nova Angola urbana, de asfalto e enormes vultos de cimento armado e vidros reluzentes. É uma Angola bucólica, pacata, que vive em comunhão com o espírito da terra e dos ancestrais. Maria, agora Citula, é iniciada na tradição e na espiritualidade ovimbundu, redescobrindo ela própria, também, as memórias dessa origem, que lhe foram inculcadas na infância. Através do olhar de Citula o narrador oferece ao leitor uma soberba descrição do mundo rural angolano, que alimentarmente se basta a si mesmo, até com fartura, e onde se vive em comunhão com os espíritos.
O final do romance é um hino ao fantástico, à magia e à tradição ancestral. É um mergulhar profundo de MR, e com ele do leitor, naquilo que um dia Henrique Abranches chamou de "realismo animista", referindo-se a uma manifestação literária especificamente angolana, em que se celebra o encontro da modernidade com a ancestralidade e em que os espíritos da terra e dos mortos vêm ao convívio dos vivos, em contraposição ao chamado "realismo fantástico", típico da literatura latino-americana e que tem no colombiano Gabriel Garcia Marquez, com o celebrado romance "Cem anos de solidão", o seu maior epítome.
"A Trança" é, no fundo, o país que Manuel Rui tanto ama e que é um melting pot de saberes, de sabores, de ideias, pensamentos e criação póprias", sintetizou Amélia Mingas, ao fazer a apresentação do livro. "Até que ponto esta obra não tem alguma ligação mais directa ao próprio autor? Ou se o avô que Citula queria ver renascer não seria o país que ela amava e aprendeu a amar através do pai?".
Leia aqui www.isaquielcori.blogspot.com/2016/03/escritor-manuel-rui-escrevo-sobre-o.html entrevista ao escritor, a propósito.