segunda-feira, 15 de setembro de 2008

À DESCOBERTA DAS CHANAS DO LESTE

Onde se fala de caminhos arenosos no meio da mata e de pistas somente usadas por caçadores
Isaquiel Cori (texto)
Paulino Damião “Cinquenta” (fotos)

A viagem que devia ter começado de manhã cedo acabaria por iniciar apenas por volta das onze e meia. Estávamos no Luena e o destino era o Luau. A viagem, de 362 quilómetros, seria feita ao longo da linha férrea. Passaríamos pela chana, esse tipo de vegetação do Leste, famosa na memória da geração dos guerrilheiros da Luta de Libertação Nacional, magistralmente descrita por escritores como Pepetela e cantada por músicos como David Zé. A chana é um vasto território de capim rasteiro a perder-se na linha do horizonte. Compará-la ao mar é o pensamento que imediatamente nos ocorre.
É impossível viajar pela chana sem evocar o sacrifício daqueles homens e mulheres que durante vários anos por lá penaram, lutando pela independência do país. Muitos dos quais lá morreram e os seus corpos lá estão enterrados algures. O conhecimento da chana permite aquilatar a têmpera dos que durante tantos anos lá viveram, lutaram e sobreviveram.
Patos selvagens voam a meia altura na chana e alimentam-se de peixe nas águas paradas das valas ao longo das linhas do Caminho de Ferro de Benguela. Estamos na estação seca, por isso os pântanos estão secos. No tempo chuvoso a chana transforma-se num vasto pantanal que torna os caminhos inacessíveis mas constitui uma das principais fontes de alimentação da população. Nessas águas turvas os patos disputam os peixes com os pescadores, que também montam armadilhas onde incautas aves se vêem presas pelas patas, impedidas de alçar voo e com o destino marcado para um repasto humano. Os pescadores passam vários dias nas chanas, longe das suas aldeias. Durante esse tempo pernoitam em pequenas cabanas, ao lado das quais secam o peixe capturado.
Em poucas horas de viagem alcançamos a sede municipal do Léua. A paragem é breve, apenas para nos certificarmos do caminho certo. A próxima etapa leva-nos ao Lumeje-Cameia. Pelo caminho, impressionantes destroços vindos de um passado de guerra: locomotivas e carruagens queimadas e enferrujadas, bem como ruínas de estações de caminho de ferro.
A viagem prossegue ao longo da linha férrea. A areia fina obriga, amiúde, o motorista a accionar a alavanca do reforço da viatura. Somos um ponto que se move na chana. Um ponto isolado, pois, aparentemente, mais ninguém circula por aqueles caminhos.
O tempo passa rápido. A noite cai e encontrámo-nos à entrada da sede municipal do Luacano, que, para agradável surpresa, está toda iluminada. Tem iluminação pública e doméstica. Faz muito frio e as ruas estão vazias de gente. Um agente policial vem a correr ao nosso encontro.
“Qual é o caminho que vai directo ao Luau? Estamos a quantos quilómetros do Luau?”, apressámo-nos a perguntar, pois estávamos dispostos a continuar viagem, mesmo durante a noite.
“Depois da aldeia de Muchikengue virem à esquerda. O caminho da direita vai para o Cazombo. Daqui ao Luau são, mais ou menos, cem quilómetros”, informou-nos o agente.
“Tínhamos” de chegar ao Luau naquela noite. Sabíamos que lá a mesa do jantar já estava posta, em casa do Superintendente Lupin, comandante da sub-unidade local da Polícia de Guarda Fronteiras. Luau soava de modo muito especial, talvez por ser a estação terminal do Caminho de Ferro de Benguela e a localidade mais importante do extremo Leste do país.

Perdidos no meio da mata

Logo depois de Muchikengue deparámo-nos com uma encruzilhada. Metemo-nos pelo caminho da esquerda. Ou a explicação foi mal dada ou a percebemos mal: perdemo-nos. Enveredamos por um caminho que logo se tornou uma picada no meio de uma mata cerrada. Na noite escura o carro abria passagem entre o capim alto e seco. Estávamos rodeados de um silêncio enorme. Por vezes deparávamo-nos com pontes improvisadas, precariamente feitas com grossos troncos de árvores. A opção única era continuar a viagem, a ver aonde aquela picada nos levaria. Mais tarde soubemos que nos tínhamos metido numa pista de caçadores, bastante utilizada pelos guerrilheiros durante a guerra de libertação nacional.
Para agravar as coisas, por ter sido maltratado pela brita da plataforma da linha férrea, um dos pneus perdeu ar. Fomos obrigados a parar na passagem estreita e arenosa. A mata vibrava, parecia animada com espíritos antigos, de ancestrais que, aparentemente, queriam dizer qualquer coisa. A tecnologia, na forma de um telefone satélite, era o único meio que nos ligava ao mundo. Foi possível trocar o pneu e continuar viagem. A picada desembocou numa estrada mais larga que nos levou ao caminho certo para o Luau.

Acolhimento inesquecível no Jimbe
O Posto Fronteiriço do Jimbe, a 310 quilómetros do Luau, fica no vértice superior do saliente do Cazombo, na fronteira com a República da Zâmbia. É um local remoto, de acesso difícil. A estrada é um carreiro arenoso e sinuoso no meio da chana. Lá foi possível constatar a dimensão do sacrifício e dedicação do efectivo da Polícia de Guarda Fronteiras. São homens duros, de “barba rija e cabelo nas ventas”. Numa noite fria de rachar os lábios fomos recebidos com um calor e uma amizade inesquecíveis. À volta de uma fogueira animaram-nos do cansaço da viagem contando anedotas e até declamando poemas.
A noite foi entremeada com histórias da guerra. Ela terminou, é certo, mas entre militares é impossível não falar dela, já que ela dominou grande parte das suas vidas. Rimo-nos bastante com histórias de tragédias que agora, milagrosamente, já são antigas.
Na hora de ir dormir aconteceu uma surpresa: o cobertor reservado para os jornalistas estava cheio de kassumunas, aquelas formigas dotadas de uma picada imensamente dolorosa. A solução veio logo, bem ao jeito radicalmente militar: quatro homens estenderam o cobertor sobre as chamas da fogueira, sacudindo-o com cuidado. As formigas não resistiram.