segunda-feira, 15 de setembro de 2008

LIÇÕES A TIRAR DOS RESULTADOS DAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS EM ANGOLA

Isaquiel Cori

Com a consumação das segundas eleições legislativas e a consequente vitória arrasadora do MPLA, o país entra num novo ciclo político-institucional. Como disse o Presidente da República, José Eduardo dos Santos, inaugurou-se “uma nova era, uma nova maneira de fazer política”.
As eleições, como é normal num processo competitivo, trouxeram a alegria a alguns e amargos de boca a outros. Mas ao fim e ao cabo, como foi dito por vários comentadores, ganhou o povo angolano, que teve a oportunidade de influenciar directamente na escolha dos seus governantes e vê assim robustecida a democracia.
A permanência dos ciclos eleitorais é a melhor maneira de separar o trigo do joio no universo da política. Até ao último dia da votação prosperavam no país, à sombra do maná do financiamento público, ao lado de notáveis personalidades políticas, líderes políticos medíocres à frente de partidos igualmente medíocres, que mais pareciam conglomerados de mercadores. A classe política angolana, a prazo, corria o risco de perder toda a credibilidade, invadida que estava por mercenários, gente sem escrúpulos nem pruridos éticos.
A normalização do ciclo eleitoral, para além do indispensável banho de legitimidade política, propiciará, certamente, o retorno da figura do político dotado de espírito de missão, com preocupações éticas e honesto nas suas pretensões porque se sabe escrutinado pelos eleitores.
As eleições legislativas de 2008, e os seus resultados, deram inúmeras lições a todos os intervenientes.
Primeira lição: Os eleitores angolanos estão maduros, mais bem informados, e já não ficam à mercê dos discursos encantatórios de um qualquer político demagógico. Efectivamente, a população votante, de 1992 para cá, viu-se reforçada com um enorme contingente de jovens - muitos dos quais votaram pela primeira vez - dotados de um nível educacional maior e donos de uma cultura predominantemente urbana, com acesso às novas tecnologias de comunicação e informação e, por isso, voltados para os fenómenos modernos da globalização.
Segunda lição: Aos partidos da Oposição não basta criticar o partido no poder. É preciso apresentar programas concretos, alternativas reais (e não abstractas) de mudança na governação, que satisfaçam as aspirações do eleitorado, sobretudo das suas franjas maioritárias, notadamente os jovens e as mulheres.
Terceira lição: a campanha eleitoral não começa às vésperas das eleições. A política é uma actividade de todos os dias e os partidos políticos, se de facto querem assumir a sua vocação para o poder, devem mergulhar no quotidiano do eleitor, nas comunidades, nas suas preocupações diárias, nos seus sonhos de vida. A “campanha porta-a-porta”, apressadamente encenada pela maioria dos partidos, durante o período oficial da campanha eleitoral, teve contornos ridículos e pretendeu esconder a incapacidade dos mesmos de juntar sequer uma centena de pessoas em comícios.
Quarta lição: É preciso deixar de fazer política apenas via conferências de imprensa. O político tem de ir à estrada, palmilhar o país, tirar o fato, arregaçar as mangas, suar e misturar-se aos cidadãos comuns, que, afinal, têm a chave da porta de entrada para o edifício do poder.
Quinta lição: Os eleitores querem um compromisso com o futuro. Doravante, quem quiser ganhar as eleições em Angola tem de estar um passo, ou mais, à frente dos outros. Tem de apresentar uma visão do país, nos próximos quatro anos, que signifique um avanço, um aumento da prosperidade, uma melhoria real, concreta, pessoal, individual, de vida.
Sexta lição: Os partidos da Oposição, incluindo a UNITA, e isso justifica a grande diferença de votos em relação ao MPLA, não captaram o impacto das transformações económicas e estruturais ocorridas no país ao longo dos últimos seis anos. O mote do discurso da Oposição – a mudança – já estava desactualizado: mudar para quê, se Angola já vem mudando, aos olhos de todos, desde 2002? As obras de reconstrução nacional, consubstanciadas na edificação e reabilitação de pontes, estradas, escolas, hospitais, etc., etc., voltaram a ligar o país, deram um novo ânimo aos cidadãos, dinamizaram a vida, enriqueceram o quotidiano, fizeram subir a fasquia do sonho angolano. As obras de reconstrução nacional são o esteio da mudança pretendida pelos eleitores.
Sétima lição: A Oposição, sobretudo a UNITA, não compreendeu que Angola, desde 1992, sofreu profundas transformações sociológicas. A guerra pós-eleitoral de 1992, e outras ocorridas antes, provocou gigantescos movimentos migratórios e detonou o mapa étnico do país. Tal “mapa”, hoje, em termos científicos, é uma falácia: os angolanos estão mais misturados do que nunca.
Em suma, o MPLA ganhou esmagadoramente as eleições porque é o partido que, hoje, mais está em sintonia com a Angola do futuro. A ver vamos se nos próximos quatro anos mantêm ou não este privilegiado estatuto.