sexta-feira, 22 de agosto de 2014

AONDE ESTÁ A IMAGINAÇÃO CRIATIVA DAS NOSSAS CRIANÇAS?




Isaquiel Cori

O júri deste ano do concurso literário "Quem me dera ser onda", ao analisar e discutir as dezasseis obras concorrentes, segundo a acta pelo mesmo lavrada, constatou a existência de "sinais de plágio em alguns textos", bem como a "pobreza estética de outros textos". Se a última constatação não é inteiramente de espantar, dada a faixa etária a que o concurso é destinado (dos 13 aos 17 anos) já a primeira, pela mesma e outras razões, deveria suscitar generalizadas preocupações.
O objectivo do concurso, segundo o respectivo regulamento, é "estimular a criatividade literária das crianças e jovens no domínio da prosa de ficção". Os participantes são estudantes de escolas públicas e privadas. Pretende-se, por outras palavras, descobrir e revelar novos valores para a literatura angolana no género prosa de ficção.
O plágio, segundo a académica brasileira Sónia M.R. Vasconcelos, é a "apropriação ou imitação da linguagem, ideias ou pensamentos de outro autor e a representação das mesmas como se fossem daquele que as utiliza".
A detecção de "sinais de plágio" em textos de crianças levanta as seguintes questões: terão sido realmente elas as autoras de tal delito ou por trás delas terão actuado adultos com a ganância de arrebatarem os valores pecuniários dos prémios? Independentemente da forma perfeita ou não como a possam verter por escrito, o que é feito da natural capacidade de imaginação e efabulação das nossas crianças? Estará a acontecer algo, no quesito socialização das nossas crianças, que estará a amputar a sua propensão para o maravilhoso e a percepção de que o mundo é seu e está nas suas mãos o poder de o transformar? Estará a sociedade urbana angolana, definitivamente, rendida ao materialismo "globalista" e à noção fatalista de que tudo o que havia para inventar já o foi, restando-nos apenas consumir ou imitar os produtos culturais que nos chegam maioritariamente pela televisão e a Internet?
Talvez possa parecer exagerado, mas cremos que se faz urgente e necessário analisar em profundidade a mentalidade desta geração que emerge no pós-guerra, que não vivenciou, em consciência, a guerra, mas foi e está a ser educada por pais que, tendo acumulado impossibilidades, carências e frustrações, hoje relativamente desafogados, estão dispostos, literalmente, a dar tudo aos filhos. Esquecem-se, esses pais, apressados em dar aos filhos o que eles próprios jamais tiveram ou sonharam, que o mundo não se dá, conquista-se.
Essa nova geração está igualmente a ser moldada por uma cultura instalada na media que glamouriza o resultado da criação artística, ou pseudo-artística, mas nada diz do processo de criação, do necessário trabalho de oficina que exige estudo e se materializa na obra por mil e uma tentativas, imensas horas de esforço, noites não dormidas e muito suor. A mais das vezes, esses jovens chegam à arte pela ideia de obterem sucesso e reconhecimento a todo o custo e não por força de uma genuína necessidade interior de expressão ou de uma inquietude profunda face ao mundo e à vida. E como a Internet "tem tudo" e está mesmo ao alcance dos dedos, daí a passar à operação "Copy" e "Past" é um pequeno gesto...

Voltando ao concurso "Quem me dera ser onda", talvez se deva dar mais a conhecer aos potenciais candidatos o processo criativo, o trabalho de lavra e oficina do patrono Manuel Rui, a começar pela novela que dá nome ao concurso, um retrato ao mesmo tempo fantástico e realista de uma época de transição em que muitos cidadãos pela primeira vez passaram a habitar edifícios urbanos, carregando consigo muito dos seus hábitos e práticas rurais e suburbanas. Aliás, o universo narrado por Manuel Rui, com animais a morarem em apartamentos e comissões de moradores inoperantes, devia ser encarado pelos gestores das actuais novas centralidades como um catálogo de coisas a evitar. "Quem me dera ser onda", 32 anos depois da sua primeira edição, com toda a sua linguagem vívida, remete para a ideia da extrema importância da literatura como repositório de memórias e auxiliar do conhecimento histórico e sociológico.