sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Kinaxixi de grata memória: a infância revisitada

Arnaldo Santos publica “O Mais-Velho Menino dos Pássaros”

Isaquiel Cori

Arnaldo Santos deu a luz (27/03) “O Mais-Velho Menino dos Pássaros”, obra literária que emerge do Kinaxixi mítico da sua infância (que nem por sombras lembra o actual), em cuja floresta exuberante chilreavam as rolas, os bicos de lacre, os bigodes, os cardeais, os catetes, os maracachões, os pardais, os pica-flores, as pírulas, os rabos de junco, os siripipis e as viuvinhas negras. Está-se logo a ver, aquele Kinaxixi era o paraíso das crianças, que nele se entretinham a caçar os pássaros com as suas fisgas certeiras, quando não se ficavam simplesmente a admirar os muitos prodígios da natureza.
O livro, que conta com ilustrações saídas da pena e imaginação de Luandino Vieira, outro kinaxixiano da gema*, contém, segundo o sociólogo Paulo de Carvalho, que o apresentou ao público na União dos Escritores Angolanos, “elementos que podem contribuir para os pais aprimorarem a forma de educação dos seus filhos”.
Arnaldo Santos fez questão de dizer que o seu novo rebento não é para ser lido pelas crianças, devendo elas terem contacto com a estória através da intermediação dos pais, ou outros adultos, que têm de a ler para os petizes. “Gostaria que o livro fosse um bom pretexto para esse tipo de relacionamento e compreensão das coisas do mundo”, sublinhou.

*Um amigo comum trouxe a reclamação do Mais Velho Luandino: afinal ele não é nada kinaxixiano de infância. É sim makulusiano (do Makulusu).
Na verdade, digo eu, a obra de Luandino Vieira transborda de referências ao Kinaxixi; isso, e uma conversa (que tive o grato de prazer de testemunhar, e participar) de Luandino com Arnaldo Santos, em casa deste, em Luanda, recheada de alusões ao Kinaxixi antigo, com toda a sua passarinhada de nomes que soam completamente estranho à miudagem de hoje, levaram-me a intuir, erroneamente, que Luandino Vieira tivesse tido uma infância mergulhada no Kinaxixe.
Em todo o caso, dado que o Kinaxixe e o Makulusu eram  territórios contíguos e os seus pequenos habitantes mais ousados se aventuravam de um lado ao outro, a minha afirmação não estará completamente errada. E suspeito mesmo que a reivindicação de Luandino será, talvez, a assumpção de uma orgulhosa identidade de infância marcada já por toda uma visão da vida adulta recheada de sentimentos, episódios e rivalidades de bairro.

“Nós, os do Makulusu”, o livro mais introspectivo e reflexivo de Luandino Vieira, poderá ser lido também como uma afirmação de identidade local, de bairro, face aos kinaxixianos? Temos de voltar a ler este livro.