segunda-feira, 11 de setembro de 2017

LEMBRAR OU ESQUECER A GUERRA

Isaquiel Cori│

Ouvi com insistência, nos últimos dias, apelos no sentido de se esquecer o passado, de passar uma borracha sobre as lembranças da guerra. Isso supostamente em nome da reconciliação nacional e para não ferir susceptibilidades. Tomados ao extremo, tais apelos levar-nos-iam ao mundo orwelliano patente no romance distópico “1984”, onde é narrada uma sociedade em que, entre outras aberrações, existe toda uma burocracia especializada em alterar,   adaptar, “actualizar” os registos históricos em função da ideologia vigente no momento.
A memória colectiva da guerra, aqui entendida como o somatório das memórias individuais resultantes das experiências pessoais vivenciadas em situação de guerra, é um património nacional. No plano individual, se fosse possível, imaginemos obrigar um ex-militar das ex-FAPLA ou das ex-FALA a esquecer completamente todo o seu passado de militar, as peripécias boas ou más por que passou… além da desumanidade que tal gesto implicaria, estaríamos a empobrecer, mais do que já estão, tais pessoas, na medida que as lembranças, as recordações, em suma a memória, é o seu património, em muitos casos a única verdadeira riqueza que possuem. E no caso da mãe que perdeu o filho (ou os filhos), da mulher que perdeu o marido, do jovem que ficou sem os pais e os irmãos, a memória é o único elo com os seus entes queridos. Ora, para mim, o direito à memória, a lembrar o passado, é um direito humano inalienável, tal como o emergente conceito, muito associado à internet e às redes sociais, do direito ao esquecimento. E é preciso não dar como adquirido que tudo que aconteceu ontem será lembrado da mesma maneira amanhã. Hoje a memória da guerra é viva, é uma ferida por cicatrizar, mas se as pessoas não escreverem as suas experiências, as suas frustrações decorrentes da guerra, o que viram e o que sentiram, e até sobre o que fizeram ou deixaram de fazer, daqui a uma centena de anos, se tanto, a guerra,  não havendo já mais ninguém para se lembrar dela, não terá acontecido. E, sem memória dela, estaremos mais disponíveis para a repetir. Por outro lado, a memória, não sendo estática, retroalimenta-se com a visão do presente e propicia narrativas que podem ser completamente diferentes e até contrárias ao que realmente aconteceu.
Um dos papéis da escrita é fixar a memória colectiva, obrigar-nos a não esquecer. Tenho acompanhado com muito interesse o esforço de alguns historiadores militares, com Miguel Júnior à cabeça, de reconstituição de alguns episódios da guerra a partir de uma visão historiográfica angolana, contrapondo-se, esclarecendo ou complementando a visão de narradores cubanos e sul-africanos. Destacar aqui os títulos “O Fracasso da Operação Savannah”, compilação organizada por Miguel Júnior, de textos assinados, entre outros, pelos cabos de guerra Luís Faceira e Peregrino Chindondo; “História Militar de Angola”, outra compilação de textos organizada por Miguel Júnior e Manuel Difuila; e “A Batalha de Kifangondo (1975) – Factos e Documentos”, de vários autores, incluindo Miguel Júnior.  No exterior ano sim ano não, são publicados livros sobre a nossa guerra civil, um dos mais destacáveis dos quais é “A Guerra Civil em Angola (1975-2002)”, de Justin Pearce. A leitura do último capítulo da “História de Angola” de Douglas Wheeler e René Pélissier, intitulado “Uma breve história de Angola entre 1971 e 2008”, é absolutamente recomendável.
Há ainda o surgimento de uma bibliografia de memórias de protagonistas ou testemunhas civis e militares, de ambos os lados da antiga barricada, também muito interessantes. Recomendo a leitura dos livros “A Segunda Revolução”, de Jardo Muekalia, “Caminho para Paz e Reconciliação Nacional – De Gbadolite a Bicesse (1989-1992)”, de Jorge Valentim, “Huambo, 56 Dias de Terror e Morte”, de Jorge Ntyamba, e o recentíssimo “Luena, 45 Dias de Batalha – Cerco à Cidade e Negociações em Bicesse”, de Esmael Silva. Leia-se também “Prisioneiros da UNITA nas Terras do Fim do Mundo”, do  cubano Manuel Rojas Garcia, e “Cuito Cuanavale – Crónica de uma Batalha”, do também cubano Ruben Jimenez Gomez.
Tudo isso ainda é pouco. Os sociólogos, os antropólogos, os economistas, e outros pesquisadores, têm de entrar em campo para estudar, enquanto as marcas ainda estão bem visíveis, que Angola é esta que emergiu da guerra e o quanto esta nos transformou naquilo que somos hoje. E se há retorno e se esse retorno realmente é possível e desejável.