segunda-feira, 11 de setembro de 2017

UM VÓRTICE NA ALMA



Isaquiel Cori│

Uma pessoa que muito estimo e que há vários anos não via, perguntou-me um dia desses: “Cori, o teu último livro está esgotado e já lá vão uns bons anos que não publicas outro, o que se passa?” Referia-se ao romance “O último recuo”.
Na altura, dei uma resposta de ocasião, até porque raramente me disponho a falar sobre o que estou a escrever: tudo o que eu possa dizer a respeito é provisório, pois só dou como acabado um livro a partir do momento em que o mesmo está publicado. Mais tarde, lembrei-me do amigo, com quem me encontrava tão sazonalmente. E voltei a pensar na sua pergunta.
Na verdade, a minha não presença nos escaparates das livrarias resultava do facto de ter ficado paralisado diante das transformações que ocorriam aos nossos olhos, logo depois do alcance da paz. Mais do que o betão e o asfalto, o país foi envolvido por um vórtice na alma. Houve um renovar da fé nas próprias forças, na possibilidade de pessoalmente fazermos as coisas acontecerem. A escuridão de morte que ofuscava o futuro e nos fazia sobrevalorizar o dia-a-dia, o instante, e transformava, de modo ambíguo, as festas e as danças numa espécie de celebração da vida e ao mesmo tempo da morte por ora adiada, afastou-se e deixou a luz fluir, como uma janela que se abre ao dia ensolarado. O país fervilhava de optimismo e acalentava sonhos de grandeza como o de vir a ser a maior potência africana.
Nunca os angolanos viajaram tanto! Nunca os angolanos se deslocaram tanto no interior do seu território!
Embaladíssimos pela alta dos preços do petróleo e com a entrada maciça de dólares, acreditávamos genuinamente que era chegada a nossa vez, que tínhamos a oportunidade histórica de “descolar” do atraso. Mais do que sermos nós a caminharmos para o futuro, era mais do que nítida a sensação de que o futuro é que corria em nossa direcção e que a nós bastava estarmos preparados para o acolher. Todos os deuses de todos os credos pareciam conspirar a nosso favor e muitos de nós chegaram mesmo a julgar que, afinal, éramos nós, divinal e providencialmente redescobertos, o “povo escolhido”.  
Tudo isso criava uma tensão espiritual e existencial, o tal vórtice na alma, que ia muito além do tumulto mensurável, palpável, das obras de construção civil. Pois então, era preciso assimilar o que se passava, nas dimensões visíveis e invisíveis, e só então avançar para a escrita. Isso, no entendimento de que a escrita é uma forma de pôr ordem no caos, de racionalizar a confusão,  de ordenar a desordem e pôr luz na escuridão.

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Muito admiro os que conseguem tirar de objectos materiais vozes, sons, ais, gemidos e até gargalhadas. Fazem chorar a madeira e as cordas da viola, suscitam gritos de alegria das peles esticadas dos tambores e com isso desbravam caminhos insuspeitados nas almas solitárias, sedentas de amor. Aos naturalmente já propensos à felicidade, fazem-lhes transbordar de alegria. E quando à música instrumental se acrescenta a voz do cantor, que verbaliza ou não, que conta uma estória ou se auto-recreia em solfejos a modos de imitação do que vaga e incertamente supomos ser a voz dos anjos, fica composto o “cenário” que faz da música um dos fenómenos mais poderosos da existência humana.