quarta-feira, 24 de outubro de 2007

“Nova” geração versus Nova Angola: o desafio que já não é futuro

O interior do país está aí, ou melhor, aqui, à espera de ser melhor conhecido pelos seus filhos. De Cabinda ao Cunene o país geográfico e cultural é um portento, uma caixa de surpresas e um verdadeiro tónico.
Viajar pelo interior do país é como fazer uma viagem longa e profunda ao interior de nós mesmos, às nossas raízes e à origem daquilo que somos. É impossível contornarmos, nessa viagem, a imensa carga de memória que nos invade, uma memória que está para lá de nós e da nossa vivência: é como se a história de Angola fosse um mar e nele estivéssemos a mergulhar; lugares que passam para lá da vidraça do carro, ou em que parámos por alguns minutos, evocam figuras relevantes da história antiga e moderna, bem como factos a elas associados, e assim vai se construindo, na nossa cabeça, tendo como pano de fundo a paisagem indescritível, toda uma trama que nos eleva e enleva e, mais do que isso, orgulha-nos pelo facto de sermos angolanos e os donos de um país literalmente virgem, em que quase tudo, em pleno século 21, está por começar.
Nem os destroços da guerra, feitos de casas destruídas, viaturas queimadas e tenebrosos avisos de caminhos minados, ou ainda as vívidas cenas contadas por protagonistas sobrevivos de batalhas travadas aqui mesmo, onde estamos, fazem esmorecer em nós a certeza de que este país tem tudo para vencer. A questão chave é apenas esta: que sejamos dignos de tanta riqueza natural e que a saibamos explorar, bem como partilhar os seus frutos.
A paz é um convite ao turismo interno e à recuperação do tempo perdido no conhecimento multiforme do país. Esse mergulho no interior das nossas raízes será assimilado individualmente das mais diversas maneiras, de acordo com a sensibilidade, a mundividência cultural e a idiossincrasia de cada um. Mas dele resultarão, certamente, incalculáveis mais-valias criativas. É de se esperar que, com as imensas possibilidades resultantes do conhecimento de Angola pelos seus filhos (afinal trata-se de um auto-conhecimento), venha a ocorrer um “boom” no domínio da criação artística, e não só: mas estará esta geração, esta geração sacudida, estremecida e quase triturada pela guerra, capacitada para não só captar esta nova Angola mas também cantá-la com elevação, com perfeito domínio dos recursos artísticos e estéticos?
Vejamos o caso da literatura: para se ser um bom escritor, para além da sensibilidade, das emoções apuradas, enfim, do talento e da persistência, é imperioso o domínio da língua em que se escreve e da linguagem literária. Não basta só o talento. O trabalho. Ou o suor. É necessário o domínio da técnica literária. E da história literária.
Estará “esta” geração preparada para captar e cantar a nova Angola, a Angola que emerge não só da penumbra da guerra, mas também, e sobretudo, do choque do passado com o futuro e das transformações ágeis, apressadas, quase nervosas, resultantes da vontade geral, dos poderes instituídos e dos cidadãos, individualmente, que vão no sentido da “recuperação do tempo perdido”, ou, mais prosaicamente, do “ir atrás do prejuízo da história?”
Isaquiel Cori