segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Pré-Publicação: Extracto (brevíssimo) de um romance


O que a seguir podeis ler é um extracto de um romance meu, "O Último Recuo", que será publicado no primeiro semestre de 2008:
“João Segura tinha de comer. Levantou-se e pôs-se a caminhar pelos becos. Alcançou o que se poderia considerar uma rua: uma longa passagem de dois metros de largura que cortava o bairro todo e onde se localizavam, iluminadas pelas luzes tremulantes dos candeeiros a petróleo, as vendedoras de “pão-burro”, chouriço em fatias, milho assado na brasa, mabanga cozida e outras iguarias. Estava confiante que apesar de não ter dinheiro alguém conhecido lhe daria algo para comer. E tinha razão. Ajudado pela boa disposição, que até a ele próprio surpreendia, abraçou a Maricas, que vendia “pão-burro” de ontem.
- Minha comadre, como vai a vida? As crianças já melhoraram?
- A mais velha está mbora cada vez pior. O negócio não está a andar e já nem sei o que fazer. Só Deus é que sabe.
- Deus sabe mesmo. Todo o sofrimento acaba. É só ter paciência e continuar a trabalhar. Bumba só, minha kota, não dá muita confiança. A boa vida é já amanhã.
- Esse mano Segura também! Come então ainda um pão. É mbora de ontem, não faz reparo.
- Obrigado, minha mana.
Ela não sabia que o pão seria o seu jantar. O pão sabia a mofo, era como se estivesse a mastigar uma esponja suja de lavar a loiça. Mais do que comer tinha a sensação de que o pão lhe estava a lavar a boca, o esófago e o estómago. Até sentia o roçar irritante dos pedaços contra as paredes dos órgãos internos. Fez um esforço para não vomitar, pois não tinha a certeza de quando voltaria a meter qualquer coisa na boca. A fome era tanta que naquele momento comeria até mesmo uma pedra.
A noite escapava-se pelo seu olhar e tornava-se mais escura à medida que mastigava o pão. Via em redor, entre a escuridão debilmente rompida pela luz fumarenta dos candeeiros, muitos adolescentes e até mesmo crianças, à compra de pão e chouriço. Via também, por trás das filas das vendedoras, dezenas de adultos, homens e mulheres, sentados em cadeiras de plástico, que bebiam cerveja e vinho, petiscavam pincho de porco, falavam aos gritos e riam com toda a alegria das suas vidas. Envoltos que estavam na barulheira da pracinha, naquela atmosfera pesada de fumo que vinha dos candeeiros a petróleo e dos grelhados de pincho, aqueles bebedores nocturnos pareciam saídos directamente de um quadro de Gumbe: até o vórtice característico do estilo deste pintor parecia presente nas volutas de fumo branco e escuro que subiam para o céu.
- Não fala nada, mano Segura? Estás buamado com o ambiente?
- Às vezes me acontece. Fico a ver as coisas tipo não estou aqui. Ou então fico a ver as coisas tipo já vi essas coisas há bué de tempo...
- Fica com atenção, mano Segura. Muita gente então está a ficar maluco. Diminui ainda lá um pouco no quente.
- Por enquanto é o meu girabola. Cada um bebe como pode. Um dia vou subir de divisão.
- Já conseguiste trabalho de verdade?
- Nada, minha mana. Continuo mesmo a trabalhar de roboteiro nos “Transportes”.
- Quanto é o pão com chouriço? - A Maricas perdeu-o de vista, de repente rodeada por quatro clientes impacientes.
Ele afastou-se e penetrou num beco ainda mais estreito que o do mercado. Transpôs a porta de um quintal de chapas de zinco amachucadas, onde encontrou um grupo ruidoso de homens e mulheres a beberem kaporroto e kimbombo e a fumarem cigarros sem parar, sentados num longo banco corrido. No centro do quintal situava-se uma barraca de velhas chapas de zinco. Num dos cantos via-se um reduzido cubículo, que, pelo cheiro forte e nauseabundo a urina, vômitos e fezes, era certamente a casa de banho. Evitou a fossa, cuja tampa parecia render-se cada vez mais à força de gravidade do buraco, e avançou rapidamente para o centro do quintal, onde foi calorosamente cumprimentado por uma mulher.
A mulher era magra. Tinha o rosto atravessado por inumeráveis rugas entrecruzadas e uns lábios secos que quase desapareciam na boca. Cobrindo-lhe a cabeça tinha uma peruca castanha que, mal assente, descobria uma parte dos seus maltratados cabelos.
- Só agora, meu bem? Tenho estado à tua espera desde manhã”.
Isaquiel Cori