quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Oferta de Natal

Tirou do bolso o relógio, uma coroa a um tempo macia e rugosa, com números e ponteiros fosforescentes. Que coisa mais convencional e pretensiosa, pensou. Quanto orgulho e imodéstia, o Homem, essa insignificância no Eterno, querer medir o Tempo? Devolveu o relógio ao bolso, não sem constatar, de esguelha, que eram 22 horas, e limpou o suor da testa com a palma da mão.
Era véspera de Natal e estava preocupado. Os salários, incluindo o décimo terceiro mês, estavam em dia. E as compras atafulhavam a dispensa lá de casa. Este ano, de certo modo, estava facilitado no modo de passar o Natal: o Wilson, o Ney e a Nonó, seus filhos, há uma semana respiravam os ares do Namibe, numas férias encarecidamente solicitadas pela tia e pelos primos. A preocupação residia no Kédy, o filho caçula de três anos. Que presente de Natal daria ao seu querido Kédy? Tão pequeno, tão criança, tão alegre, tão querido!Os brinquedos habituais, aquele jogo de carros, aviões, balões, combóios, barcos, a vida moderna miniaturizada, já não os queria como presentes para o filho caçula. Gostaria de lhe oferecer algo de que ele jamais se esquecesse. Algo que fosse uma experiência inaugural e memorável. Foi quando lhe veio à mente o episódio sensacional do romance de Gabriel Garcia Marquez, “Cem Anos de Solidão”, aquele episódio, dizia-lhe a memória, em que pela primeira vez o jovem Buendia, na longínqua e tropicalíssima Macondo, fora levado a conhecer o gelo. Sim, ofereceria ao Kédy, neste Natal, para lá dos objectos materiais, uma experiência marcante e inesquecível. Lembrou-se que nunca levara o filho a conhecer o mar. Pois então levá-lo-ia, neste Natal, a ver o mar, este princípio, e também o fim, de tudo. Antecipou o prazer da cumplicidade da descoberta pelo filho da dimensão aquática da vida e voltou a tirar o relógio do bolso. Estranhamente, já achou muito natural o facto de o Homem tentar medir o Tempo...
Isaquiel Cori